De denunciado na Lava-Jato a candidato derrotado nas urnas entre os representantes do novo Governo

“Teremos a independência necessária para escolher os melhores técnicos, as melhores cabeças do nosso Estado”, disse Wilson Lima, minutos depois do anúncio oficial pela Justiça eleitoral de que ele foi eleito governador do Amazonas.

No entanto, parafraseando o dito popular “palavras o vento leva”, o que se viu na primeira iniciativa do governador eleito foi exatamente o contrário. Wilson Lima escalou para a cúpula da comissão de transição ao menos três profissionais de São Paulo com estreita ligação com os proprietários de um veículo de comunicação no Estado.

Entre os anunciados para a comissão de transição estão três conhecidos da população de São Paulo: Gabriel Chalita, advogado, jurista, professor, escritor, candidato a vice-prefeito de São Paulo pelo PDT na chapa de Fernando Haddad, em 2016, ex-vereador e ex-deputado federal por São Paulo, ex-secretário municipal e estadual de Educação pela capital paulista.

O extenso currículo chega até o Judiciário. Ele foi citado na operação Lava Jato como um dos negociadores de propina para o presidente da República, Michel Temer (MDB), segundo a delação do ex-senador e ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. De acordo com matéria publicada pelo jornal El País, Temer solicitou do então presidente da Transpetro R$ 1,5 milhão em propina para a campanha de seu aliado – Gabriel Chalita – à Prefeitura de São Paulo, em 2012.

Ao desembarcar em Manaus, nessa terça-feira (30), minutos antes da coletiva na qual seu nome foi anunciado para a comissão de transição do governador eleito, Chalita foi recebido por um dos responsáveis pela direção da Rede Calderaro de Comunicação – Dissica Calderaro. Eles posaram para uma foto, publicada nas redes sociais de Chalita, no estúdio do programa Alô Amazonas que era apresentado por Wilson Lima antes das eleições.

Outro conhecido da população de São Paulo que desembarca hoje – segundo Wilson Lima – em Manaus para compor a comissão de transição é o médico David Uip. Ele foi secretário de Saúde de São Paulo por pelo menos cinco anos durante a gestão de Geraldo Alckmin, além de ter participado das direções do Instituto do Coração (Incor) e do Hospital Emílio Ribas.

Mas, a máquina pública é movida pelos recursos públicos (leia-se dinheiro) e nada mais esquisitão do que nomear um paulista para fazer um relatório das finanças do Governo. Parece até que Wilson Lima esqueceu dos embates econômicos entre o Amazonas e o Estado de São Paulo em questões estratégicas como as que envolvem a Zona Franca de Manaus (ZFM).

O ‘escalado’ para o time de Wilson foi o economista Humberto Laudaris, graduado em Genebra (Suíça) e mestre pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, alguém que chega a cobrar, segundo fonte do Radar, mais de R$ 2,5 milhões por uma consultoria – isso me fez lembrar a consultoria de R$ 5 milhões do Rudolph Giuliani contratada por Amazonino, lembra meu povo?

Humberto Laudaris é filiado ao PPS e foi candidato a deputado federal pelo Estado de São Paulo. Ele não foi eleito, ou seja, perdeu nas urnas mas ganhou um cargo na comissão de transição do governo do Amazonas.

Será que no Amazonas ou nos quadros efetivos do Governo não há um técnico tão competente quanto os paulistas escolhidos por Wilson Lima? E o discurso de que o “Governo se faz com os servidores públicos”? Pelo visto, ficou apenas na campanha!.

Por falar em PPS, o partido também ganhou um afago de Wilson Lima. O deputado estadual que foi candidato ao Senado pela coligação ‘Transformação por um novo Amazonas’, Luiz Castro, também foi alçado para a comissão de transição. Ele foi figura das mais importantes na campanha de Wilson Lima, perdeu a disputa ao Senado na contabilização dos últimos votos para o senador Eduardo Braga (MDB) e, ao que tudo indica, será um dos secretários do novo Governo.Quem também está sendo cotado para assumir uma secretaria é o vice-governador, o defensor público Carlos Almeida. Ele esteve afastado da campanha na reta final, após uma série de fake news envolvendo suas ações na Defensoria Pública do Estado (DPE) e agora faz parte da comissão de transição do Governo.

Por último e não menos importante, Wilson Lima anunciou o general do Exército Franklimberg Ribeiro de Freitas para também fazer parte da comissão de transição. Segundo ele, o general tem a experiência necessária para contribuir com a gestão por conhecer a região amazônica. O general Franklimberg já foi escolhido em outra ocasião para fazer parte de governos, só que desta feita foi da presidência de Michel Temer para presidir a Fundação Nacional do Índio, em maio do ano passado.

O general teria sido indicado a Temer, segundo a imprensa nacional pelo líder do Governo no Congresso, deputado André Moura do partido ruralista PSC – o mesmo partido de Wilson Lima – , sigla partidária apontada pelas organizações indígenas como “contrárias aos interesses desses povos e defensora da expansão das fronteiras agrícolas e dos grandes empreendimentos sobre os territórios indígenas”.

Só que os índios declararam guerra contra o general e ele foi exonerado do cargo por Temer. Meses depois de exonerado, o general virou consultor da mineradora canadense Belo Sun Mining com a função de conselheiro consultivo de assuntos indígenas e ambientas, mesmo a multinacional tendo interesses conflitantes com indígenas que residem no Pará.

Mas se não serviu para os povos indígenas do País, o novo governador decidiu que o general terá de servir para os índios, brancos, negros…enfim todas as raças que vivem no Amazonas