De sapateiro no Porto de Manaus a advogado: venezuelano passa no 32° exame da OAB-AM após fugir da crise

Casado e pai de dois filhos, o advogado Eliud Rafael Hernandez, de 33 anos, mora em Manaus desde 2017

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Foto: Arquivo pessoal

A crise política e econômica na Venezuela fez com que diversos cidadãos venezuelanos deixassem o país natal para buscar uma nova vida no Brasil. Diversos refugiados têm história para contar, entre eles, o advogado Eliud Rafael Hernandez, de 33 anos. Ele precisou se reinventar profissionalmente até conseguir uma vaga na Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Amazonas (OAB-AM).

Casado e pai de dois filhos, Eliud é natural do estado de Aragua, e chegou ao Brasil em 2017, após atravessar a fronteira que divide a Venezuela e o município de Pacaraima, em Roraima.

O advogado trabalhou como sapateiro e decidiu vir para Manaus após sete meses. Ele conta para o Radar Amazônico como foram os primeiros desafios em território brasileiro.

“Foi difícil no início, principalmente, pela barreira do idioma, porém, com o tempo fui aprendendo o idioma local e também me adaptando à cultura brasileira. O que mais ajuda é um baixo índice de discriminação e xenofobia, porque o imigrante pode se desenvolver muito melhor”, falou.

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Foto: Arquivo pessoal

O advogado conta que trabalhou como sapateiro no Porto de Manaus. Entre um desafio e outro, Eliud reencontrou-se com a advocacia depois que atendeu um cliente, que o aconselhou a procurar a OAB-AM. Emocionado, o venezuelano mostrou-se grato em trabalhar defendendo o direito das pessoas.

“O meu maior desafio já foi atingido: ter sido aprovado no 32° exame da OAB-AM. O que vier não será mais desafio, será consequência da resiliência. Tenho muito a contribuir com os brilhantes colegas advogados brasileiros, que no meu olhar, fazem parte de uma classe de advogados muito bem preparada para o exercício da profissão”, conta.

Retorno

Em quatro anos na capital amazonense, o advogado mostrou-se ambientado com a rotina, costume, tradições e a cultura do Amazonas. Contudo, Eliud Rafael disse que sente saudades do país natal e espera voltar um dia.

“Como todo patriota que ama a sua terra, pretendo voltar após ter contribuído com o Brasil. No entanto, eu não pretendo abandonar esse país que me acolheu. O Brasil sempre ficará no meu coração e continuarei trabalhando e honrando a quem me honrou”, reitera.

O advogado demonstrou gratidão pelo povo amazonense e disse que aqui encontrou muitas pessoas acolhedoras.

“Amo o amazonense, é um povo composto por pessoas maravilhosas, acolhedoras, boas de coração e dignas de respeito. Sei que em toda sociedade existem pessoas boas e ruins, porém, Manaus concentra grande parte dos bons seres humanos. Gratidão é o meu sentimento pelo manauara e amazonense, no geral”, conclui.

Números

De acordo com uma pesquisa da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), divulgada em junho deste ano, dos atuais 5,4 milhões de refugiados venezuelanos em todo o mundo, 260 mil vivem no Brasil. Desse total, pelo menos, 20 mil vivem em Manaus.

O estudo da Acnur também diz que o povo venezuelano é o maior grupo de imigrantes, antes dos haitianos. Entretanto, diariamente, chegam novos refugiados venezuelanos à capital amazonense, tendo em vista que a situação política e econômica da Venezuela vai piorando.