Debate sobre ‘congelamento’ de mulheres reacende com casos de assédio

As recentes denúncias de crimes sexuais contra João de Deus provocaram comentários em sites de jornais, portais de notícias e nas redes sociais com leitores indignados com a conduta do médium. Parte dessas manifestações também deram voz a questionamentos desconfiados sobre o tempo que as vítimas esperaram para denunciá-lo – afinal, perguntam, por que demorar tanto para revelar algo tão importante?

Em casos como esse, não é raro que se levante suspeitas sobre mulheres que sofreram abuso ou em situações de assédio, questionando sua veracidade pelo fato de a denúncia não ter sido imediata.

Apesar de as mulheres poderem celebrar um número razoável de conquistas em relação aos seus direitos nas últimas duas décadas, há ainda um aspecto no qual ainda parecem patinar: estão “empoderadas”, sim, mas por que, diante de episódios de assédio ou mesmo diante de “simples cantadas” do dia a dia, ainda se sentem por vezes frágeis e sem saber como reagir?

Uma pesquisa Datafolha de dezembro do ano passado apontou que 42% das brasileiras já dizem ter sofrido assédio sexual. E, ainda que não haja um levantamento específico sobre as reações diante destes episódios, é sabido que a inércia imediata é comum às mulheres assediadas.

Para Luciana Saadi, 55, psicanalista e docente na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, há um componente ancestral neste processo. “Na sociedade patriarcal, que culpa e pune os mais fracos, as mulheres aprenderam a não enfrentar abertamente situações como essas para não serem taxadas como provocadoras dos comportamentos masculinos em si.”

A psicóloga cofundadora da revista AzMina e representante da Fundação ONU no Brasil, Leticia Bahia, 34, vai na mesma linha. “Não expressar o incômodo mostra o quão profundamente está enraizado o medo. A forma como educamos meninas e meninos é diferente em tudo. Ainda seguimos tacitamente ensinando aos homens que devem reagir ao desconforto, e, às mulheres, que devem se conformar.”

Em uma viagem de negócios ao exterior, em 2013, a única mulher do grupo da empresa era a executiva de marketing Vitória (nome fictício), 35. Logo nos primeiros dias, ela foi “oferecida” pelo chefe a um dos anunciantes. “Ele soltou: ‘Vitória, fulano está a fim de te comer. E aí, rola?’. E isso na frente do cara. Demorou para eu sacar que era assédio sexual”, relembra.

Na mesma excursão, ela diz ter sido obrigada a ir a uma casa de prostituição junto com nove homens colegas de trabalho. “Meu chefe dizia que eu não tinha opção. A conversa parecia ser na brincadeira, mas era séria. Ele fez de um jeito tão perverso, e ao mesmo tempo tão bem feito, que até hoje me culpo por não ter reagido de outra forma.”

“Quando contei para meu marido, ele não se conformava de eu não ter conseguido me livrar da situação, mas nem eu entendia como aquilo foi acontecer. É muito louco”, diz Vitória, que terminou rebaixada e demitida depois de “começar a fugir” do chefe.

A paralisia feminina acontece também em público, ao vivo, como no caso da cerimônia de entrega do Ballon D’Or, da revista France Football, que premiou pela primeira vez, desde 1956, uma mulher.

Quando subiu ao palco no início do mês para receber o troféu, a jogadora Ada Hegerberg, 23, que ajudou seu time Olympique Lyonnais a vencer o campeonato francês e a Champions League, foi indagada se sabia rebolar.

Embora tenha respondido rapidamente que não, acabou ficando no palco e, acanhada, dançou com outros convidados. No Twitter, horas depois do ocorrido, o apresentador Martin Solveig, 42, se apressou a dizer que tudo não passou de “uma piada”.

O Brasil também teve algo parecido. Durante a edição 2018 do Teleton, atração do SBT voltada à arrecadação de fundos para crianças deficientes, e exibida nos dias 9 e 10 de novembro, a cantora Claudia Leitte, 38, protagonizou uma situação que classificou como “constrangedora”.

Ao recusar abraçá-la, o apresentador Silvio Santos, 87, justificou que não queria “ficar excitado” -em sua interação com Leitte, Sílvio Santos havia sugerido, ainda, que a roupa da cantora poderia ser consequência de um possível divórcio, ou por ela estar “a perigo”. A despeito de todas as tentativas de se desvencilhar, a cantora foi embora frustrada, e desabafou nas redes sociais no dia seguinte.

Nos dois casos, ambas ficaram incomodadas, mas não souberam reagir imediatamente. Mas, afinal, quem decide o que é assédio e o que é “só uma brincadeira”?

“O Código Penal define assédio sexual como ‘constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual’, mas claramente não é a isso que se referem as mulheres que reclamam de ser assediadas”, explica Leticia Bahia.

Para Luciana Saddi, o ponto fundamental são os limites e quando são ultrapassados. “Uma cantada inadequada ou um comentário abusado podem causar a sensação de ser invadido, agredido, rendido ou humilhado. Há situações inequívocas de assédio ou abuso, quando há desigualdade de poder, quando o mais fraco não tem recursos para se defender, fugir ou contra-atacar. Paralisia, confusão e incompreensão são reações frequentes”.

Ela explica que o medo é um dos principais fatores que, consciente ou inconscientemente, podem entorpecer a mulher a ponto de não deixá-la reagir. “O assédio é um jogo de forças, de encurralar a vítima, de inverter as posições, constituído por elementos sutis e, portanto, mais difícil de decodificar, compreender e responder adequadamente”, resume.

Para ela, tão importante quanto ter a força física ou verbal para enfrentar a uma situação incômoda é acreditar que reagir é algo positivo e que trará bons resultados. Isso vale, inclusive, para quem respostas tardias, como, por exemplo, desabafos nas redes sociais.

“É um avanço. Quantos séculos de silêncio? Relativizamos comportamentos agressivos, subestimamos as mais pérfidas e covardes invasões por medo e por incapacidade de reagir. Mulheres se fizeram de desentendidas por falta de recursos para lidar com tais comportamentos”, afirma Saadi.

“A negação está diminuindo. Isso permite que outras possam denunciar. É o início de um sistema de maior proteção para os mais fracos. A mentalidade patriarcal precisa ser combatida se quisermos uma sociedade democrática e justa.”

Fonte: Folhapress.