Depender da soja brasileira é o mesmo que apoiar o desmatamento da Amazônia, diz Macron

O presidente francês, Emmanuel Macron. Foto: Valda Kalnina/EFE/EPA

O presidente da França, Emmanuel Macron, fez críticas ao desmatamento da Amazônia e citou especificamente a soja brasileira, relacionando-a ao problema ambiental. “Continuar a depender da soja brasileira seria apoiar o desmatamento da Amazônia”, afirmou Macron, em sua conta oficial no Twitter. A publicação dele é acompanhada de um vídeo, no qual comenta a questão a repórteres.

“Nós somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa”, afirmou o presidente francês. Macron comanda nesta semana o “One Planet Summit”, uma cúpula formada por cerca de 30 chefes de Estado, empresários, representantes de Organizações Não Governamentais (ONGs), evento do qual o Brasil não participa. O tema neste ano foi dedicado à preservação da biodiversidade Embora a França não seja individualmente um dos principais compradores da soja brasileira, quase 20% das exportações para a União Europeia, bloco do qual os franceses fazem parte, são de soja e farelo de soja produzidos pelo Brasil, mostram dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia consultados pelo Estadão/Broadcast.

No ano passado, o Brasil enviou US$ 28,342 bilhões em exportações para o bloco europeu, sendo US$ 2,9 bilhões em farelo de soja (10%) e US$ 2,6 bilhões em soja (9,3%). Individualmente, o Brasil exportou US$ 27,1 milhões em soja para a França, O presidente francês, Emmanuel Macron. Foto: Valda Kalnina/EFE/EPA além de US$ 544 milhões de farelo de soja, de um total de US$ 1,983 bilhão em embarques para o país europeu.

Apesar do baixo valor, técnicos ponderam que a União Europeia tem uma dinâmica própria do bloco, tendo Países Baixos e Espanha como as principais portas de entrada dos embarques de soja feitos pelo Brasil, devido à sua estrutura portuária. Depois de ingressar na UE é que a soja segue para o destino final. Por isso, a análise dos dados agregados pode ajudar mais a mostrar o que está em jogo. Segundo os dados, Países Baixos receberam US$ 1,11 bilhão em soja brasileira no ano passado, enquanto a Espanha, US$ 957 milhões. Juntos, esses países responderam por
7,2% das exportações de soja feitas pelo Brasil.

Procurados pela reportagem, os ministério da Economia e da Agricultura disseram que não comentariam as declarações de Macron.

Reação

Em resposta à fala de Macron, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Bartolomeo Braz, afirmou que o presidente da França está usando uma “artimanha” para subsidiar os produtores de soja do seu país. “Eles não são competitivos, por isso compram soja nossa. E começam a usar essa artimanha para subsidiar ainda mais os seus produtores”, afirmou.
Braz diz que se a França parar de comprar a soja brasileira, o cenário das vendas brasileiras do grão “não muda em nada”. Segundo o representante da Aprosoja, o Brasil deve exportar neste ano 101 milhões de toneladas de óleo, farelo e grãos de soja – e a França compra cerca de dois milhões de toneladas por ano. “Não há ligação da soja com o desmatamento do bioma Amazônico desde 2008, isso é fiscalizado e acompanhado”.

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), em nota, também disse lamentar “que o presidente da França, Emmanuel Macron, busque justificar sua decisão de subsidiar os agricultores franceses atacando a soja brasileira. Como bem sabe Macron, a soja produzida no bioma Amazônia no Brasil é livre de desmatamento desde 2008, graças a Moratória da Soja, iniciativa internacionalmente reconhecida, que monitora, identifica e bloqueia a aquisição de soja produzida em área desmatada no bioma, garantindo que existe risco zero do envio de soja de área desmatada (legal ou ilegal) deste bioma para mercados internacionais”.

A declaração de Macron é dada no momento em que a União Europeia e o Mercosul negociam um acordo comercial, mas o fracasso brasileiro na proteção ambiental, na opinião de algumas autoridades europeias, seria um entrave para avançar no tema. O desmatamento nas florestas brasileiras está no holofote de governos da Europa e grandes investidores globais, que passaram o último ano pressionando o governo de Jair Bolsonaro por medidas para conter o problema ambiental, sob a ameaça de retirada de investimentos do País.