Deputada que se licenciou por saúde mental diz que seu adoecimento é político

Agência Alesp

A deputada estadual Monica Seixas (PSOL), 35, foi de certo modo pioneira ao anunciar no fim de julho que estava se licenciando da Assembleia Legislativa de São Paulo para cuidar de sua saúde mental.

Porta-voz de um mandato coletivo, a parlamentar –que nos sistemas da Casa é a Monica da Mandata Ativista– sofria dores no corpo motivadas por crises de pânico, ansiedade e depressão, que ela atribui a fatores que vão da violência política ao racismo, passando por conflitos internos no gabinete.

“Meu adoecimento é político”, diz ela à reportagem, em sua primeira entrevista após retornar à Assembleia, no início deste mês. Como o modelo coletivo é informal, Monica é oficialmente a titular do mandato, enquanto os chamados codeputados atuam por terem sido nomeados como assessores.

Com o afastamento de quatro meses, foi convocado o suplente, Raul Marcelo, também do PSOL.

Jornalista e ativista de causas como a do direito à água, Monica continua em tratamento psicológico e psiquiátrico e afirma se esforçar para quebrar os tabus dela própria e da sociedade. “Estou superando a vergonha para falar sobre isso. É aprender a voltar a viver.”

A psolista diz estar retomando a rotina em meio a altos e baixos, sob a preocupação de ser escanteada por admitir o adoecimento. E recomenda a quem estiver em situação semelhante que procure ajuda e, se for o caso, tome medicamentos, evitando um preconceito que ela própria tinha.

Opositora dos governos Jair Bolsonaro (PL) e João Doria (PSDB), a deputada relata conviver com ameaças e ofensas a ela e à família. Monica, que foi próxima de Marielle Franco, a vereadora do PSOL assassinada no Rio de Janeiro em 2018, diz às vezes ter também “medo real de ser morta”.

Pergunta – Primeiramente, como a sra. está?

Monica Seixas – Estou em terapia e me adaptando à medicação. Quem sofre de adoecimento emocional sabe que há variações. Tenho ansiedade generalizada e síndrome do pânico. Ainda estou aprendendo a conviver com isso e a ter coragem de falar.

Como começou?

MS – O meu adoecimento começou no fim de 2019. Tive muita dificuldade de diagnosticar. Eu tinha reações físicas. Já achei que estava infartando, ficando cega, já me cocei até me machucar mesmo sem ter nenhuma alergia. Depois demorei muito tempo até aceitar que era emocional e pensava que assumir era o fim da minha carreira política, que iriam carimbar “frágil” na minha testa.

Quando colapsei, aprendi que o adoecimento emocional é um adoecimento como todos os outros. Não falar sobre isso é não encarar uma outra epidemia brasileira, que é a das doenças mentais. E o SUS ainda não tem atendimento adequado para as pessoas na minha condição.

Propõe alguma solução?

MS – A partir desse entendimento, estou buscando maneiras de formular políticas. Estou superando a vergonha e assumindo como tarefa falar sobre isso abertamente, mesmo tendo que passar por uma desconfiança das pessoas sobre a minha capacidade. Meu adoecimento é político, e a solução e o encaminhamento também têm que ser políticos.

Conseguiu identificar causas?

MS – Ter condições materiais proporciona também um impacto emocional. Há vários fatores que interferem: racismo, trajetória de fome, violência institucional e política. Já precisei de um segurança para levar meu filho ao futebol, por causa de bolsonaristas entre os pais das outras crianças.

Cito ainda a morte de Marielle, que era minha amiga, as sucessivas ameaças de morte que sofro. Tenho um medo real de ser morta. Às vezes, quando estou num carro de som na rua, isso passa pela minha cabeça recorrentemente, de que alguém pode me dar um tiro. Por mais de um ano, um homem me perseguiu em todos os lugares, inclusive na porta de casa e do gabinete.

Tenho certeza de que várias outras parlamentares, sobretudo as negras, estão numa situação parecida com a minha.

Faz uma conexão entre o seu quadro de saúde e sua experiência na Assembleia?

MS – Sim, mas a conjuntura política como um todo contribui. Comecei a sintomatizar e perceber os primeiros sinais no fim do primeiro ano do mandato. Meu microfone já foi cortado diversas vezes durante falas.

A Assembleia tem violência cotidianamente. Ontem [quinta-feira, 16] tinha um coro nas cadeiras do plenário me xingando, tive que sair escoltada [após se opor à bancada bolsonarista em discussão sobre passaporte vacinal].

Seu afastamento coincidiu com a crescente crise no mandato coletivo pelo qual a sra. se elegeu, com saída de pessoas do grupo original de nove codeputados, alguns buscando caminhos próprios, e conflitos em torno de pautas. Qual foi o peso disso?

MS – O mandato é uma experiência nova, e uma experiência de si mesma. Elaboramos um mandato muito audacioso, com nove diferentes, e eu sozinha como a responsável por fazer essas diferenças caberem no parlamento. Tenho muito orgulho dos nossos feitos, mas o cotidiano é complexo. Eu brigava no plenário e, quando subia para o gabinete, brigava de novo.

E tem muito do racismo nesse processo, em que eu ia deixando de me entender como sujeito e passando a aceitar que eu era serva, secretária, funcionária. Tinha que responder a todos, ser forte, dar conta de tudo. Era aquela sensação de que eu não podia descansar, sentir nada, ter medo. Aceitei que eu era uma máquina e esqueci o lado emocional.

A morte do seu pai afetivo, em julho, também foi uma espécie de gatilho?

MS – Muita coisa que eu estava escondendo dentro de mim estourou no momento em que meu pai de criação foi internado, pouco tempo depois de perder meu pai biológico por Covid. Avisei ao mandato que iria me licenciar, para ficar ao lado do meu pai afetivo nos últimos dias de vida dele, e não pude, porque todo mundo dependia de mim.

Ouviu insinuações sobre uso da licença como saída estratégica ou tática de promoção eleitoral?

MS – Essas ilações dentro e fora do meu gabinete contribuíram muito para que eu chegasse a uma situação muito aguda. A política é muito violenta, sobretudo para as mulheres.

Isso é muito cruel. Se o meu caso fosse de apendicite ou infarto, todo mundo entenderia a necessidade de eu parar um tempo para me curar. Eu estava sintomatizando fisicamente. E todo mundo me dizendo que eu estava errada ou que era mentira ou frescura.

O que foi a gota d’água?

MS – Eu não escolhi tirar licença, eu colapsei. E aí houve uma intervenção médica e do meu partido. Passei os últimos meses sem conseguir sair do sofá. Meu afastamento foi negado inclusive por um setor do meu mandato. Não é o mandato que está em crise, é um setor que saiu para disputar a eleição, se frustrou e voltou reposicionado. E eu não consigo ser porta-voz de indivíduos, só do compromisso que fizemos na eleição.

Dos três que concorreram em 2020, Erika Hilton se elegeu [vereadora na capital, pelo PSOL], mas Jesus dos Santos (PDT) e Raquel Marques (Rede), não. Refere-se a eles?

MS – Sim. Os dois começaram a combater o PSOL, voltaram para o mandato pelo pacto eleitoral e desde então a gente não consegue mais consensuar. O resto do coletivo segue tranquilo. Trabalhou com o suplente e continua comigo.

Existe alguma solução sendo encaminhada?

MS – Não há ainda. Tudo isso está em negociação e debate. Ainda é um momento difícil. Somos um mandato e temos responsabilidade política para além das prioridades individuais.

Faz alguma autocrítica sobre o modelo?

MS – Sou filiada ao PSOL e estou sujeita ao código de ética do partido. Um erro do mandato foi que nós não criamos na época da eleição um pacto sobre o nosso código de ética. Não posso ignorar o padrão ético que o PSOL tem com o uso de recursos públicos. Não consigo ser porta-voz de um feminismo sectário com as mulheres trans.

As bandeiras com as quais o mandato se comprometeu na campanha estão sendo cumpridas a contento para seus quase 150 mil eleitores?

MS – Nosso mandato é um dos melhores e mais atuantes da Assembleia, se mantém fiel às origens, atende a muitos movimentos sociais e produz sínteses políticas. Não traiu em nada o pacto que fez com os eleitores, que não era em torno de pessoas, mas de causas. E acho que este mandato foi muito feliz até aqui, apesar de ter custado a minha saúde emocional [risos].

Tentar a reeleição, individual ou coletivamente, depende dessas definições internas?

MS – Minha preocupação para 2022, mais do que a estética, é o conteúdo, a agenda. Como vamos vencer a fome, as pandemias do coronavírus e das doenças mentais, os avanços da evasão escolar e do desmatamento? Seja em coletivo ou não, minha tarefa é debater isso. O partido está discutindo como serão as candidaturas.

Como avaliou a suspensão de quatro meses ao deputado Fernando Cury (Cidadania) por ter apalpado Isa Penna (PSOL) no plenário?

MS – Foi um avanço pedagógico, em uma situação que é muito mais cotidiana do que se imagina, não só na Assembleia de São Paulo, mas também em outras casas. Quando cheguei, ocorreu entre os homens uma espécie de gincana para escolher as deputadas mais bonitas. E eu, como mulher negra, não estava na lista, né?

Por que acabou não se comprovando a expectativa alimentada no início desta legislatura, com a oposição a Doria fortalecida, de que a Assembleia passaria a ser menos subserviente ao Palácio dos Bandeirantes?

MS – O governo Doria praticou contra a população de São Paulo ataques sociais muito maiores do que os do governo Bolsonaro, com uma débil oposição. Avançou contra recursos para o combate à fome, políticas de habitação, proteção ambiental. Fechou empresas públicas e foi cruel com os mais vulneráveis.

A Assembleia tem um baixíssimo rendimento e atua de acordo com os interesses do governo. A [bancada da] situação ainda é muito grande, é a maioria. Comissões não funcionam direito. Tudo o que Doria quer chega em regime de urgência e tem que ser resolvido no plenário. Existe uma cultura colonialista, de troca de favores. Quase tudo é fake, feito a partir de acordões nos bastidores.

A sra. defende que o PSOL tenha candidatura própria à Presidência, com propostas mais à esquerda, e vê com ressalvas o apoio a Lula (PT), ainda mais agora, com o aceno à direita com Geraldo Alckmin de vice. Como está o debate?

MS – A experiência com o nazifascismo bolsonarista à brasileira está fazendo todo mundo repensar as suas urgências, e eu não tenho dúvida nenhuma que a primeira delas é derrotar o bolsonarismo, não só Bolsonaro. Mas, em meio às redefinições e trocas partidárias, para fazer distantes ficarem tão próximos, vai ter que se abrir mão de muita agenda, de muitas ideias.

A tarefa do PSOL, historicamente, é ter a ousadia de puxar o debate à esquerda sobre pautas como legalização do aborto e regulação de agrotóxicos, discutir o que ninguém está disposto a discutir, empurrar as pautas das ruas e dos mais vulneráveis. O meu setor no PSOL está se rebelando contra uma negociação que seja puramente pragmática, e não programática.

E se, no segundo turno, para derrotar o bolsonarismo, for necessário apoiar um programa mais ao centro?

MS – A gente vai apoiar. Eu apoiaria o Diabo no segundo turno contra Bolsonaro. O que estamos dizendo é que não estamos em uma conjuntura em que, em um primeiro turno, existe uma chance de perdermos para o nazifascismo.

RAIO-X

Monica Cristina Seixas Bonfim, 35

Filiada ao PSOL, é deputada estadual em primeiro mandato, como porta-voz da Mandata Ativista, grupo com nove codeputados que foi eleito em 2018. A candidatura coletiva gestada pelo movimento Bancada Ativista obteve 149 mil votos, a décima maior votação no estado. Jornalista e ativista socioambiental, Monica foi cofundadora do coletivo Itu Vai Parar e candidata a prefeita da cidade pelo PSOL em 2016. Também foi assessora parlamentar da vereadora Sâmia Bomfim (PSOL-SP), hoje deputada federal, e integrante da Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade).