Diretor do Implurb vai isolar com muro moradores do Galiléia 2, inclusive mulheres e crianças

O diretor-presidente do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), Cláudio Guenka, e sua equipe técnica, autorizaram nesta sexta-feira (29), os representantes da Associação de Moradores do conjunto Villa da Barra a bloquearem, com um muro, uma via utilizada como passagem essencial pelos moradores da comunidade Galileia 2, no bairro Nova Cidade, zona Norte de Manaus.

A autorização do Implurb para o bloqueio imediato do acesso vai prejudicar diretamente as pessoas que utilizam aquela passagem, inclusive idosos e crianças, que precisam passar pelo que eles chamam de beco para ter acesso a transporte público, escolas, posto de saúde, praça com academia ao ar livre e comércio. Como o próprio secretário Claudio Guenka diz em um áudio ao qual o Radar teve acesso – se quiser ouvir é só pedir que a gente passa a gravação, tá secretário? – o líder do prefeito, vereador Joelson Silva (PSC) é quem intermediou o processo de fechamento da via representando os moradores do Villa da Barra junto ao Implurb – o nome disso legalmente é tráfico de influência.

O vereador Joelson Silva também estava presente nessa sexta-feira (29) quando o secretário comunicou a moradores do Galiléia 2 sua decisão de autorizar o fechamento da passagem. O pedido de construção do muro está assinado pela diretoria da Associação de Moradores do Conjunto Vila da Barra: o presidente Luís Eduardo Fartolino Maquiné, o vice-presidente Samuel Silva Araújo, e a diretora social, Laura Rubia da Silva dos Santos.

A questão é envolta em uma sequência de trapalhadas. Primeiro, Guenka deu autorização para a obstrução da passagem no início do ano, depois suspendeu a decisão dizendo que iria mandar os técnicos do Implurb avaliarem a situação no local, ouvindo os moradores das duas áreas, avaliando a real necessidade de uso da passagem e investigando até mesmo se as assinaturas que constam num abaixo-assinado, apresentado pela associação do Villa da Barra, é realmente de moradores do conjunto.

Pasmem, os técnicos do Implurb nem se deram ao trabalho de tirarem as nádegas da cadeira e irem ao local. Na reunião convocada pelo secretário para anunciar que iria autorizar o fechamento do beco, ao serem questionados sobre os motivos para não terem ido ao local, um dos técnicos disparou, em tom de irritação, que não precisava ir lá porque tinha “visto tudo por satélite” – se quiser isso também está gravado, tá secretário? Pode gente, uma situação que envolve seres humanos ser avaliada por satélite? É pra acabar uma coisa dessas, né mesmo?

Pois as imagens de satélite da qual o técnico do implurb fala não passam de prints de um mapa tirado do ‘Google Eath’ – eu não sabia que a fiscalização do Implurb agora é pelo Google? Será que o sol e a poeira, tá fazendo mal pra cútis deles gente? Em nenhuma imagem do processo no Implurb aparece o beco. Documentos mostram que o Implurb não usou os critérios corretos e humanos para aprovar construção do muro, e agora vai deixar os moradores do Galileia isolados. (Ver documento no fim da matéria)

MORADORES RECLAMAM DO BLOQUEIO

De acordo com a comerciante, Cintia Cristiano, o bloqueio da via causará transtornos para crianças, adultos e idosos que tem nesse canal, o melhor acesso para chegar a um ponto de ônibus na avenida Sumaúma, que, segundo ela, é mais iluminada do que as ruas do igarapé do passarinho, destino dos moradores, caso a passagem seja bloqueada.

“Estão querendo bloquear o nosso direito de ir e vir aqui. Eles querem bloquear e não pensam nas pessoas. Aqui tem crianças, idosos, pessoas vão para a escola por esse caminho, outros saem para trabalhar as 4h30 da madrugada e usam esse caminho”, disse.

A comerciante destacou que se o acesso for bloqueado o ponto de ônibus mais próximo para os moradores do Galileia 2 fica mais de 1km de distância. “Os moradores do Galileia colocaram iluminação nessa via. Se nos proibirem de passar por lá, vamos ter que andar muito até chegar no igarapé do passarinho para pegar ônibus, pois eles não sobem aqui para o Galileia. A segurança ali é precária. É tudo escuro, cheio de buraco e matagal”, afirmou.

O auxiliar de inspeção, Andrey Gadelha, que há 13 anos mora no Galileia, afirmou que sempre utilizou a passagem e que ela é essencial para a população daquela área. Segundo ele, nem os moradores do conjunto Vila da Barra querem o fechamento da via, apenas os diretores da Associação de Moradores que ainda insistem na ideia que, segundo ele, já foi desaprovada pela maioria.

“São poucas pessoas que querem fazer isso. Os próprios moradores do Vila da Barra são contrários a fechar o acesso. Isso vai prejudicar muito, pois tem gente que vem consumir aqui e tem gente daqui que vai consumir os serviços de lá”, afirmou ao ressaltar que o motivo apresentado pela direção da Associação foi que seria construído um condomínio fechado. “Disseram que seria um condomínio, mas acho que agora só querem construir o muro para nos impedir de passar”, ressaltou.

Conforme a diarista, Gelciane Silva, a diretora social da Associação deu como alternativa para os moradores, passar por um esgoto para chegarem mais rápido ao ponto de ônibus.

“Ela não quer fechar para condomínio, ela quer fechar a nossa passagem por aqui. Ela ainda disse que se quiséssemos era para passar por um bueiro que tem ao lado, dentro de um matagal. Não tem como idosos passarem por esse caminho que ela quer”, reclamou.

O vigilante Erison Bente, afirmou que, usando o acesso, leva 10min para chegar a parada de ônibus para ir trabalhar. Segundo ele, se a via for bloqueada o tempo para chegar até o ponto de ônibus do igarapé do passarinho será de mais 20 min.

“Todos os dias as 4h30 eu passo por aqui para ir trabalhar. Eu vou ser muito prejudicado. Já acordo cedo para chegar no horário, agora com esse bloqueio vou ter que acordar mais cedo, andar para mais longe, e sem segurança alguma naquela área do igarapé do passarinho”, lamentou.

A reclamação não partiu apenas dos moradores do Galileia, mas também de alguns do conjunto Villa da Barra – e cadê os técnicos do Implurb que não os ouviram? Mas não dá pra ouvir pelo Google, né? A contestação parte, principalmente, dos microempresários daquela área.

A comerciante, Raquel Souza, que é moradora do Villa da Barra se diz contra o fechamento. Ela afirma que também vai ser prejudicada financeiramente perdendo o fluxo de clientes quem vem do Galileia. “Sou contra. Eu tenho um lanche e vou perder clientes que vem de lá. E o acesso deles para os ônibus vai ficar ruim também. Eles têm que ter o direito de passar”, ponderou.

Para o cabeleireiro, João Seixas, que também é morador do conjunto Villa da Barra, a autorização para bloquear uma passagem pública e a construção de um muro são atos de obstrução do direito de ir e vir dos cidadãos. Ele ressalta que o local não é um condomínio fechando e, por isso, não se pode impedir outras pessoas de transitarem por aquela área.

“Existe comércio dentro do conjunto e todos serão prejudicados. Aqui são casas populares e não condomínio particular. Eles estão agindo de má fé e com esse bloqueio o que eles realmente querem é dinheiro das pessoas”, denunciou.

O Radar tentou ouvir os diretores da Associação de Moradores do Conjunto Villa da Barra, mas não conseguiu. A equipe foi até a sede da Associação, que também funciona como um pet shop, mas foi informada por dois funcionários – um do pet shop e outro da Associação – que os diretores não estavam no local.

Fotos: Erik Oliveira