Dois a cada três profissionais de saúde pública não foram testados, diz FGV

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Cerca de dois a cada três profissionais dos profissionais de saúde pública no Brasil disseram que não foram testados para covid-19 no Brasil em meio à pandemia do novo coronavírus, de acordo com um estudo realizado pela FGV (Fudandação Getúlio Vargas).

A resposta negativa foi dada por 64,8% das 2.138 pessoas ouvidas pela pesquisa, que consultou profissionais que trabalham no combate à pandemia na rede pública em todos os estados, entre 15 de junho e 1º de julho. O objetivo do estudo é entender os impactos da pandemia sobre suas vidas e seus cotidianos. Somente 35,2% dos profissionais disseram ter sido testados.

Agentes de saúde são menos testados

Esta é a segunda edição da pesquisa, mas a primeira a mapear testagem. De acordo com os dados coletados, apenas 43% dos médicos e 41% da equipe de enfermagem dizem ter sido testados em algum momento desde março.

Entre outros profissionais de área, como fisioterapeutas, a proporção cai para 36%. Mas o quadro mais díspar se dá entre os agentes de saúde, que vão às ruas ajudar a população: só 27% teve acesso a testes.

“Isso significa que dois a cada três profissionais que estão na linha de frente da pandemia não sabem se já pegaram o vírus ou não. Logo, não há controle para saber se em algum momento estes trabalhadores não só foram expostos como serviram de vetores para colegas e pacientes”, afirma Gabriela Lota, coordenadora do NEB (Núcleo de Estudos da Burocracia), da FGV, responsável pelo estudo.

Para ela, chamou atenção que, apesar de uma leve diferença, não há grandes disparidades entre os profissionais dentro do hospital.

“Não sei se peguei”

A técnica de enfermagem P.A., que preferiu não revelar a identidade, diz sentir na pele o resultado da pesquisa. Segundo ela, na UBS (Unidade Básica de Saúde) em que trabalha, na Grande São Paulo, só um médico foi testado.

“Porque ele trabalha também em um outro hospital e fez o teste lá. Mas nós mesmos nunca tivemos, não. Quando alguém começa a sentir sintomas, fica em casa, tem as regras, mas não teve teste”, afirma a profissional.

Ela diz não ter sentido nenhum dos sintomas da covid-19 durante a pandemia, mas acha que a não testagem aumenta a insegurança.

Sobre os equipamentos ela diz não ter faltado, mas também “não sobra”. “É tudo contadinho. Tem dia que eu levo máscara de casa porque me sinto mais segura, mas não chegou a faltar EPIs [Equipamentos de Proteção Individual] como ouvimos em alguns lugares”, relata a profissional.

Só 50% têm acesso a EPIs

O acesso a EPIs também não é muito animador. De acordo com a pesquisa, só metade dos profissionais da rede pública dizem receber o material necessário para atender os pacientes.

Entre os profissionais hospitalares, o acesso é um pouco melhor, na faixa dos 65%. A realidade piora no caso dos agendes comunitários, cuja proporção cai para apenas 30%.

O motivo, a pesquisadora avalia, é jurídico. Até a aprovação da Lei nº 14.023, no início de julho, os agentes comunitários não eram considerados profissionais de saúde, mesmo participando ativamente no combate à doença. A nova legislação cria esse regime temporário.

“Parece inacreditável, mas eles não tinham esse reconhecido por não terem formação técnica na área de saúde]. Logo, por lei, os governos não eram obrigados a darem estes equipamentos, eram sempre os últimos da fila [a receber]”, afirma a coordenadora.

Ela diz não saber se a situação vai melhorar, mas diz ver a mudança como um avanço. “Os municípios estão sem orçamento, não têm testes. Então, acho que vai continuar na mesma. Pelo menos, agora eles podem exigir judicialmente.”

Percepção quanto ao governo federal é pior

A pesquisa também abordou a percepção dos profissionais de saúde quanto aos diferentes níveis de gestão. Em todas as situações, os profissionais consideraram o governo federal como o que menos dá apoio aos profissionais.

Apenas 22% dos trabalhadores da área responderam de forma positiva quanto às ações do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) no apoio ao combate à pandemia, muito menor do que as percepções sobre os governos estaduais (40% positivo) e municipais (42% positivo), embora todos fiquem abaixo da metade.

“Isso tem muito a ver com a posição do presidente. Declarações como da ‘gripezinha’ só pioram a situação”, avalia Lota.

Segundo ela, os profissionais têm sentido um clima cada vez mais hostil em relação à população e avaliam que a postura de Bolsonaro interfere diretamente nisso.

“A gente tem muitos relatos de profissionais que não saem de jaleco, param o carro longe, porque há um processo de negatividade da imagem do profissional de saúde e eles estão associando muito ao papel do governo e nomeadamente do presidente”, lamenta a pesquisadora.