Dois adolescentes internos do Dagmar Feitosa se classificam para a segunda fase nacional da Olimpíada de Matemática

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Dois jovens do Amazonas que cumprem medidas de ressocialização no Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa estão na segunda fase nacional da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBEMEP). Alunos da educação de jovens e adultos, eles retomaram a vida escolar na unidade e, mesmo com dificuldades no aprendizado e a rotina de internação, avançaram entre milhares de estudantes e se juntam aos mais de 913 mil no país que fazem a prova neste sábado, 10 de setembro.

Cumprindo o último mês de sua medida socioeducativa, o adolescente C.M.S, 18 anos, recebeu a classificação para a nova etapa da Olimpíada de Matemática com bastante surpresa. Antes da internação, havia abandonado os estudos e não tinha perspectivas de retorno. Agora, depois de frequentar a escola na unidade, afirma estudar no alojamento antes de dormir. “Lá fora eu não conseguia estudar e agora eu estou animado e meu desejo é continuar assim que sair. Não é mais aquele pensamento de moleque, a gente sabe que tem de tentar mudar”, disse.

Resgate educacional

adolescentes-internos-do-dagmar-feitosa-2No Centro Dagmar Feitosa, uma escola especial atende os 60 internos com ensino em diversos níveis. Pelo Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), a reclusão de jovens em conflito com a lei penal deve ser orientada pela reabilitação social. Atuando há 12 anos no sistema socioeducativa, a professora Marta Nery da Silva, 45, diz que a filosofia é a do resgate educacional. “A nossa maior dificuldade é que eles vêm de muitos anos sem estudar. Então, a gente trabalha resgatando”.

Encontrar talentos adormecidos em meio a histórias de criminalidade é algo rotineiro na convivência com os jovens acautelados, afirma a professora. “A gente vê meninos muito bons que muitas vezes não tiveram alternativa. Para mim, é muito gratificante vê o resultado do nosso trabalho com esses dois, do papel que a educação tem na vida deles, e de como ela pode mudar”, disse.

Internado há dois anos no Dagmar Feitosa, R.S.C, 19 anos, de Boca do Acre, diz não ter propriamente facilidade com a matemática. Mas tem se esforçado nas aulas e buscado reforçar conteúdo para a nova fase olímpica. A classificação também foi inesperada para ele, mas não causou temor. “Para mim, serve como exemplo de que não devo desistir dos meus estudos, que tenho capacidade para fazer o que quiser na minha vida. É só eu seguir e me esforçar. Estou focado em ir para a próxima fase”, comentou.

Política social

Para o diretor do Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa, Antônio Lima, o trabalho com adolescentes acautelados é uma política invisível rodeada de grandes preconceitos. A classificação dos jovens para a segunda fase da OBEMEP ajuda a demonstrar que não existe caminho para recuperar jovens em conflito com a lei sem passar pela educação.

“É uma política invisível e rodeada de grandes preconceitos, que vem, via de regra, por falta de conhecimento. Tem uma mídia muito negativa com relação ao adolescente. Todo o trabalho aqui tem viés pedagógico e isso vislumbra a parte educacional e social. Para nós, ver esses adolescentes passando nas olimpíadas, nos sinaliza que estamos no caminho certo. A educação ainda é o caminho mais certo e mais seguro para poder se vencer na vida”, disse.