Dois anos sem Arlindo Júnior: relembre a trajetória do ‘Pop da Selva’

O ex-levantador de toadas do Boi Caprichoso faleceu aos 51 anos, em 2019, após batalha contra o câncer

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Foto: Michael Dantas

Há dois anos o Amazonas perdia  o levantador de toadas Arlindo Júnior, popularmente conhecido como “Pop da Selva”. Nesta mesma data, em 2019, o grande canoeiro não resistiu a uma longa batalha contra o câncer e deixou vários corações partidos e recheados de saudade.

Dono de um carisma inconfundível, Arlindo Júnior foi, por muitos anos, levantador de toadas do Boi Caprichoso, no Festival Folclórico de Parintins, e ganhou notoriedade no cenário da cultura amazonense. Ele eternizou grandes toadas do touro negro como “Vento Norte”, “Pesadelo dos Navegantes” e “Candelabros Azuis”.

Nascido no dia 20 de maio de 1968, o “Pop da Selva” veio de uma família humilde e foi criado no bairro Cachoeirinha, zona Centro-Sul de Manaus. Aos 12 anos de idade, ele ajudava o pai a vender peixe para o sustento da família.

Arlindo iniciou a carreira quando se apresentou em um show de calouros apresentado pelo saudoso Zezinho Corrêa. Sem nunca ter viajado na vida, Arlindo Júnior conheceu Parintins a convite do amigo e músico Jamilson Rossete.

Na época, Arlindo ficou encantado com a cidade e disse que foi “amor à primeira vista”. Ele ficou hospedado na cidade por duas semanas, voltou para Manaus, pediu as contas do antigo emprego e foi ser repórter em um programa de rádio na Ilha Tupinambarana.

Sucesso e revolução

Quando chegou na Ilha Tupinambarana, Arlindo era vocalista de um grupo de pagode chamado ‘Levanta Poeira’, mas ele não tinha nenhuma noção da cultura do boi-bumbá.

Durante o show em um clube da cidade, um grupo de representantes do Boi Caprichoso o convidou para ser levantador de toadas. Sem pensar duas vezes, Arlindo topou e tornou-se levantador de toadas do Caprichoso em 1989.

A partir daquele momento, começava uma nova história não só na vida de Arlindo Júnior, mas também do Festival Folclórico de Parintins. Durante os anos 1990, considerado período de ouro do boi-bumbá, o “Pop da Selva” foi a grande atração do Bar do Boi na TVLândia (onde atualmente é o Plaza Shopping), considerado um point da noite manauara.

Muitos contam que, para tirar uma foto com o cantor, era praticamente uma missão impossível devido a sua popularidade. Em 1996, Arlindo Júnior foi peça fundamental no tricampeonato do Boi Caprichoso com o espetáculo “As Sete Visões de Kaniwá”.

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O “Pop da Selva” no Festival de Parintins de 1996 — Foto: Andreas Valentin

Em 1997, Arlindo Júnior revolucionou as apresentações do Festival de Parintins. O cantor entrou na segunda noite de apresentação em cima do esqueleto de um dinossauro interpretando a toada “Amazônia Quaternária”, de Ronaldo Barbosa, levando a galera azul e branca ao delírio.

Ainda em 1997, o cantor não parou e protagonizou outro momento inesquecível. Pegando a todos de surpresa, Arlindo se vestiu de padre e interpretou a toada “Amazônia, Catedral Verde”, de Ronaldo Barbosa e Simão Assayag.

No ano seguinte, em 1998, Arlindo Júnior passou a defender os itens de apresentador e levantador de toadas ao mesmo tempo. Ele aceitou o desafio e foi campeão nos dois itens.

Repetindo a dose de 1997, Arlindo pegou todo mundo de surpresa na primeira noite de apresentação do Caprichoso, em 2001. Ele entrou na arena interpretando o velho “Pacamão”, ovacionado pela torcida. “E eterno me fez seu criador, sou Tupinambá, sou Tupinambarana, sou Parintins”, declamou Arlindo em sua interpretação.

Na temporada de 2005, retornou para o cargo de levantador de toadas, mas saiu no ano seguinte. Em 2014, ano de Copa de Mundo, Arlindo Júnior retorna ao Boi Caprichoso como apresentador e dividiu espaço com David Assayag.

Carreira política

Com mais de 30 anos de carreira, Arlindo Júnior dedicou boa parte de sua vida à cultura amazonense. Além disso, ele também foi atuante na política, sendo vereador de Manaus por dois mandatos (2009 a 2016).

O “Pop da Selva” também foi dirigente da Fundação Municipal de Eventos e Turismo de Manaus, secretário-executivo de Cultura do Amazonas e secretário de governo de Parintins.

Em 2017, ele recebeu a Medalha de Ouro Cidade Manaus, que representa a maior honraria concedida pela Câmara Municipal de Manaus (CMM) pelos relevantes serviços prestados à sociedade. Na época, a propositura foi de autoria do vereador Rosivaldo Cordovil (PSDB).

Foto: Tiago Corrêa/CMM

Em agosto de 2019, o “Pop da Selva” recebeu a Medalha Ruy Araújo na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam).

Batalha contra o câncer

Arlindo Júnior foi diagnosticado com um câncer na pleura (região do pulmão), em 2016. Com isso, passou a travar uma intensa batalha contra a doença. Constantemente ele fazia viagens para São Paulo na intenção de se curar.

A doença avançou para os ossos e também para o cérebro. Depois de quatro anos de muita batalha, Arlindo Júnior faleceu aos 51 anos em um hospital particular de Manaus, no ano de 2019.

O velório de Arlindo Júnior aconteceu em Manaus e Parintins, e marcado por várias homenagens. Familiares, amigos, fãs e até mesmo políticos se despediram do “Pop da Selva”.

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Em Manaus, o velório aconteceu no Centro de Convenções Vasco Vasques – Foto: Carolina Diniz

Naquele mesmo ano, o “Pop da Selva” ainda fez uma despedida no Bumbódromo cantando as toadas “Pesadelo dos Navegantes” e “Réquiem — Prece aos Espíritos”, clássicos imortalizados em sua voz, e levou a torcida azul e branca ao delírio.

Arlindo Júnior foi sepultado no cemitério São João Batista, localizado na avenida Álvaro Maia, bairro Nossa Senhora das Graças, zona Centro-Sul de Manaus. O canoeiro enfim descansou, mas o legado será lembrado para sempre.