Dois funcionários se dividem para “cuidar” de 122 presos em presídio de Tefé

Foto (DPE-AM): Situação de dentro do presídio de Tefé.

Apenas dois funcionários, sendo um diretor e um subdiretor, se dividem para “cuidar” de 122 presos que estão alocados no presídio do município de Tefé (distante 522 quilômetros de Manaus). A constatação foi feita durante visita do juiz da 1ª Vara da Comarca de Tefé, André Muquy e defensores públicos do Polo do Médio Solimões, no presídio, nessa segunda-feira (15).

A visita no presídio da cidade teve a intenção de mostrar aos novos defensores as condições da cadeia e pedir atenção aos casos que podem ser levados a julgamento com celeridade.

De acordo com a Defensoria Pública do Estado (DPE-AM), o presídio possui 122 detentos (32 condenados e 90 provisórios), sendo 116 homens e 6 mulheres. A DPE disse ainda que a cadeia tem uma dependência para as mulheres e que não há registros de tortura nem de rebelião.

Para dar celeridade nos processo que tramitam na justiça dos detentos alocados no presídio do município, o juizado da comarca de Tefé e a Defensoria Pública farão um mutirão, ainda este mês, para avaliar cada caso.

Participaram da visita os defensores públicos Márcia Mileni, Saelli Lages e Murilo Menezes, que fazem parte do grupo de cinco defensores que vão morar e atuar no polo, além dos colegas Fernando Mestrinho e Arthur Sant’anna Ferreira, que atuam em Manaus.

Durante a visita, o juiz André Muquy e os defensores informaram aos presos sobre a chegada da Defensoria na cidade, o que vai contribuir para agilizar o andamento dos processos daqueles que se enquadram no perfil de atendimento da instituição. Eles também ouviram relatos dos detentos sobre as ações que respondem e sobre as condições da cadeia.

“A primeira vez que visitei o presídio foi realmente por obrigação, já que a 1ª Vara é a responsável pela execução penal. Mas neste primeiro contato, me surpreendi tanto com o local quanto com as pessoas. Percebi que a maioria dos que ali estão são dependentes químicos. Eles realmente ficam felizes de serem notados”, declarou o juiz André Muquy.

De acordo com ele, havia entre os presos um “sentimento de esquecimento”. “Isso com o tempo vai provocando raiva e desespero, o que, para mim, é um dos maiores fatores da violência nos presídios”, comentou. Desde março deste ano, o magistrado visita com frequência o presídio e se dedica a avaliar, com celeridade, os processos de cada detento.

Tratamento

Como alternativa às condições precárias do presídio, que funciona nas dependências de uma casa, com sete celas, algumas no subsolo do prédio, com pouca ou nenhuma ventilação, André Muquy disse que passou a inspecionar com frequência o local e a conhecer os presos e seus próprios familiares por nome.

Foto (DPE-AM): Condições do presídio.

O magistrado também tomou como hábito ter a presença das mães dos detentos no ato de decidir pela transferência dos presos para o regime semiaberto. “Humanizar o preso às vezes se confunde com complacência. São coisas distintas. Não é por aplicar a lei de forma correta que você tem que ser um carrasco. Quem comete um crime sabe que errou, mas mesmo assim merece e quer ser tratado com respeito”, afirmou.

A defensora pública Márcia Mileni, que será coordenadora do Polo do Médio Solimões, sustentou que a visita ao presídio vai contribuir para o planejamento das ações da DPE-AM na região. “Vimos a necessidade de conhecer não só o presídio, mas os diversos espaços da cidade que precisam da atenção e acompanhamento da Defensoria Pública”, comentou.

“Precisamos conhecer a realidade local. Visitamos a delegacia, no domingo, e o presídio, na segunda, justamente porque sabemos que a privação de liberdade é extremamente sensível e, historicamente, o Brasil tem uma situação de precariedade nesses espaços”, comentou ela, acrescentando que a Defensoria fará um mutirão, a fim de analisar os processos dos detentos.

Inauguração

O Polo do Médio Solimões da Defensoria Pública do Estado foi inaugurado nessa segunda-feira (15), com a presença de diversas autoridades do Estado e do município, e vai atender, além de Tefé, as cidades de Jutaí, Maraã, Juruá, Uarini, Alvarães, Japurá e Fonte Boa. Esse é o quarto polo inaugurado pela instituição em menos de dois anos.

“É pelo povo e para o povo que a Defensoria existe. É preciso democratizar, de verdade, o acesso à Justiça. É urgente. Isso deveria ser uma prioridade dos governos no Brasil inteiro. O cidadão desprovido de recursos só tem um refúgio para garantir direitos: a Defensoria Pública”, registrou o defensor geral do Estado, Rafael Barbosa.

O Polo do Médio Solimões da DPE-AM está situado na rua Monteiro de Souza, Nº 629, no Centro de Tefé, onde já funcionou uma unidade do Ministério Público Federal (MPF-AM), fechada no início deste ano. O prédio foi completamente reestruturado. Tem ampla sala de triagem e recepção, cinco gabinetes, 12 guichês, quatro banheiros e uma copa.

Com informações da DPE