Dono de loja de vinhos tenta desmentir Governo, mas confirma venda superfaturada de “respiradores”

Visivelmente nervoso, Fábio José Passos, sócio e proprietário da empresa FJAP Ltda – loja de vinhos que vendeu ventiladores pulmonares ao Governo do Estado pelo valor superfaturado de R$ 2,9 milhões, em março deste ano – afirmou, em depoimento realizado na tarde desta terça-feira (16), aos membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde, que a “Vineria Adega nunca vendeu nada para o Estado”.

A afirmação feita pelo empresário contradiz o que foi dito pelo governador Wilson Lima, por meio de nota, de que a loja de vinhos, embora não fosse do ramo de saúde, vendeu sim ao Governo do Estado, porque era habilitada para isso.

Na ocasião, Fábio explicou, de maneira imprecisa, deixando os deputados confusos, como entrou em contato com a Secretaria de Estado de Saúde (Susam). Segundo o relato, ele foi até o setor de compras da Secretaria, falou diretamente com Alcineide Figueiredo, a qual ele chamou de “Neide” e entregou um cartão para contato, oferecendo serviços. Segundo ele, ela informou que necessitava de 28 ventiladores pulmonares e pediu para que ele fizesse uma cotação.

Fábio, por sua vez, segundo o depoimento, foi em busca dos equipamentos. “Se colocar essa especificação (do equipamento) na internet, vai ser encaminhado para a Resmed. Entrei em contato com a Resmed em São Paulo e eles disseram que tem uma unidade em Manaus e me encaminharam para a Sonoar”, afirmou.

Em seguida, o depoente disse que entrou em contato com a proprietária da Sonoar, Luciane Andrade. “Ai liguei para ela (Luciane), falei que sou Fábio. Perguntei se ela tinha esses respiradores e ela me perguntou quantos eu queria, eu disse que 24 de um modelo e 4 de outro. Ela disse que não tinha isso. A tarde ela mandou outra proposta dizendo que havia conseguido o restante”.

Luciane Andrade e Alcineide Figueiredo também já prestaram depoimento à CPI da Saúde na semana passada. Na ocasião, Luciane falou sobre a empresa FJAP ter entrado em contato para comprar os ventiladores pulmonares, mas que em nenhum momento a Susam foi mencionada.

Ainda de acordo com depoimento de Fábio, nesta terça, ele e a proprietária da Sonoar firmaram contrato e ele comprou os equipamentos à vista, já que, segundo ele, era a condição de Luciane para a compra imediata. “Quando ela (Sonoar) me deu essa segunda proposta, nós firmamos um contrato, no dia 6 de abril. No dia que ela constatou que tinha os 28 respiradores, firmei o contrato e comprei os equipamentos”, disse.

Porém, segundo Fábio, para fazer a compra, ele teve emprestar dinheiro do dono do Big Amigão, Cristiano Cordeiro, que é seu amigo pessoal. “Entrei em contato com o Big Amigão, com o diretor, seu Cristiano. Eu o conheço a 14, 20 anos e ele se sensibilizou com a minha situação, fez contrato e transferiu o valor para minha conta”, afirmou.

As afirmações do empresário também contradizem o que já foi dito pelo Governo do Estado de que a compra de ventiladores pulmonares foi feita por um valor milionário em razão de ter sido importada, quando na verdade foi adquirida na capital amazonense.

A todo momento Fábio parecia bastante nervoso, impreciso e preocupado. Boa parte do relato dele não há certeza sobre datas e cronologia dos fatos e quando questionado, respondia “não sei” ou “não tenho certeza”, o que deixou os deputados membros da CPI irritados. “Preciso que o senhor seja preciso nas afirmações, precisamos dessa cronologia”, afirmou o deputado Delegado Péricles (PSL).

Fábio relatou que comprou os ventiladores pulmonares por R$ 2,4 milhões, vendeu por R$ 2,9 milhões e lucrou cerca de 6%. “É proibido eu ter esse lucro?”. Em resposta, o deputado Delegado Péricles disse: “Esse não é nem o seu ramo, seu Fábio”.

Nome fantasia

Questionado pelo parlamentar sobre a mudança no nome fantasia da empresa FJAP, Fábio desconversou e afirmou, mostrando documentos de anos anteriores em suas mãos, que não houve mudança no nome da empresa.

Entrega

Segundo Fábio, além da compra ter sido feita junto a empresa Sonoar, a entrega dos equipamentos também foi executada por ela. “Quando paguei os equipamentos, eu paguei somente quando ela já tinha todos e ela me afirmou que ia cobrir o que estava no contrato, faz entrega e fazer treinamento. Se ela entregou depois, eu desconheço”, disse

Indignado com a despreocupação do depoente, o deputado Delegado Péricles afirmou que a entrega era de obrigação do empresário que comprou os equipamentos e que por conta disso, muitas pessoas foram prejudicadas.

“A obrigação de entregar era sua. Antes o senhor disse que tinha entregue, agora o senhor está imputando a responsabilidade a um terceiro”, disse o parlamentar.

Operação

A compra feita com dispensa de licitação pela Susam é alvo da Operação Apneia, deflagrada pelo Ministério Público do Amazonas e Polícia Civil (PC) no último dia 10. Na ocasião, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão, entre os alvos da operação, estavam residências particulares e a sede da Susam.

CPI

A CPI da Saúde, também chamada de CPI da Pandemia, foi instaurada na Aleam no dia 14 de maio e tem como objetivo investigar os gastos do Governo do Amazonas no setor da saúde dos anos de 2011 a 2020. Os deputados que compõem a comissão são Serafim Corrêa (PSB), Wilker Barreto (Podemos), Dr. Gomes (PSC), Delegado Péricles (PSL) e Fausto Júnior (PRTB), sendo os dois últimos presidente e relator, respectivamente.