“É um bebê, chefe”, diz Adriano Salan para o prefeito Adail Pinheiro em escuta da PF

cpi da pedofilia do SenadoNo relatório final da CPI da Pedofilia do Senado Federal, estão relatados os interrogatórios feitos pelo presidente da comissão, senador Magno Malta, a partir de escutas telefônicas instaladas pela Polícia Federal durante a Operação Vorax. Uma delas, lida por Magno Malta, enquanto interroga Adriano Teixeira Salan, que ocupou os cargos de Secretário de Governo de Adail Pinheiro e secretário de Administração, soube-se que chocou até mesmo os policiais que participaram da Operação Vorax, pela forma com que meninas eram tratadas como mercadoria nas conversas telefônicas.

SR. PRESIDENTE SENADOR MAGNO MALTA (PRES):

(…) Aí tem um outro diálogo seu com Adail, que você e o prefeito dizem assim…

Que seria muito bom fazer uma acareação do senhor com o prefeito também.

Você fala muito empolgado nesse diálogo em moças novas, provavelmente menores. E aí o senhor fala de uma sobrinha de Lândia. E fala empolgado. E aí o senhor compara essa menina a um bebezinho e diz para o Adail, olha a expressão do senhor: “É o teu número, parceiro. Teu número.”

Adail, no telefone com o senhor: “Fala, Adriano.” E o senhor fala com ele assim: “Meu irmão, a Lândia veio aqui e trouxe a sobrinha dela. É um bebê.”

O senhor sabe o que é um bebê?

SR. ADRIANO TEIXEIRA SALAN: Eu reservo o meu direito constitucional de permanecer calado, Excelência.

SR. PRESIDENTE SENADOR MAGNO MALTA (PRES):

O senhor sabe o que é bebê? Uma criança? A sobrinha dela é um bebê.

Aí o senhor vai em frente com sua linguagem bonita. “Agora que eu olhei direito, puta que pariu, que bebezinho.” Adail, diz compulsivo: “Traga logo aqui para que eu possa ver.” Aí o senhor vai de novo: “Meu irmão, é um bebê, chefe. Que sorriso lindo, branquinho, branquinho. Ela é toda vermelhinha, cabelão.”

adriano salanDemissão

Esse mesmo Adriano Teixeira Salan que está na interceptação telefônica, seis anos depois da Operação Vorax, agora foi demitido de seu cargo de Analista Judiciário II, através de Ato da Presidência do Tribunal de Justiça do Amazonas, assinado pelo desembargador-presidente Ari Jorge Moutinho da Costa. O ato traz apenas número de processo administrativo aberto na Corregedoria do TJAM, que levou a demissão de Salan do cargo efetivo que ocupava. Mas o relatório final da Operação Vorax o define como alguém que tinha as mais diversas funções na “organização criminosa”, atuando em defesa dela até mesmo no Poder Judiciário.

Está escrito no relatório da Vorax: “De acordo com as interceptações telefônicas a seguir transcritas, compreende-se que, de alguma forma desconhecida, ADRIANO TEIXEIRA SALAM, obteve a informação prévia da deflagração da Operação Vorax. Por isso, às pressas, retornou ao município de Coari (estava em Manaus) com o fito de reunir todos os integrantes da quadrilha e operacionalizar a ocultação das provas e de parte do dinheiro obtido. A partir desta reunião, o co-réu ANTÔNIO CARLOS MARIA DE AGUIAR foi chamado para ocultar as malas, envelopes, caixotes, armas de fogo e gabinetes de computador. Após pesquisas, ele resolve ocultar o material ilícito na residência de ADRIANO FERREIRA VIEIRA, irmão de AFONSO FERREIRA VIEIRA, um dos secretários de confiança de ADAIL PINHEIRO.”

Aquele que resolvia

Além de informações privilegiadas, Adriano Teixeira Salan, é apontado no relatório final da Vorax como o homem que resolvia de tudo. “Durante o período em que esteve sendo investigado, observou-se que ele foi constantemente acionado para “resolver” situações, especialmente aquelas que necessitavam de decisões judiciais (a exemplo da situação descrita “Soltura de Presos”), também para viabilizar saques de dinheiro em espécie (Situação “Fraude no pagamento do sistema viário”), bem como para intermediar o agenciamento de “garotas de programa”, inclusive menores de idade (situações Garotas da Andrea, da Jessika, da Landia, do Helio entre outras). As relações espúrias de ADRIANO TEIXEIRA SALAM com o Poder Judiciário Estadual não será tema desta denúncia, devendo ser melhor apurada em Inquérito Policial a tramitar perante a Justiça competente”, está descrito no relatório da Vorax.

No relatório da Operação Vorax também está discriminada a atuação de Adriano Salan em todas as etapas do esquema de prostituição, inclusive de crianças e adolescentes.

Diz no relatório: “Do mesmo modo, as situações envolvendo garotas de programa já vem sendo tratadas, não obstante a conexão instrumental, em inquéritos distintos, consoante se depreende do item 8 do Relatório Policial.

Nesta oportunidade, faz-se remissão a tais situações unicamente com o fito de demonstrar a função do denunciado na Organização Criminosa. ADRIANO SALAM atuava mormente na fase da utilização do dinheiro ilícito desviado dos cofres públicos. Era tal a confiança que desfrutava que, em diversas passagens, aparece escolhendo garotas de programa para serem levadas a Coari, mediante verbas públicas, para satisfazer a lascívia dos seus comparsas. Frise-se: as profissionais do sexo foram pagas através de dinheiro público e pior, transportadas até Coari no avião que deveria ser utilizado para o transporte de doentes.

A título de exemplo, no episódio descrito “Garotas Mega Model” (fls. 557 do Vol. 03 do Apenso XVI do IPL 413/2004) ADRIANO, através de FÁBIO MARTINS MARQUES, selecionou 10 meninas, “de primeira linha”, para trabalharem no evento denominado “Coarifolia”, na cidade de COARI, durante o carnaval de 2008. ADRIANO depositou R$ 5.000,00 (cinco mil reais) na conta indicada por FABINHO, qual seja, de RODRIGO ALBERTO DE ABREU LIMA. Cada menina, conforme citado nos áudios, recebeu R$ 1.000,00 (mil reais). A diferença seria paga posteriormente e o cachê pelos préstimos de FÁBIO MARTINS MARQUES, por agenciá-las, seria pago a parte. No decorrer das conversas gravadas foi possível inferir, como em outras situações já expostas, que as atividades principais dessas jovens seriam satisfazer sexualmente ADAIL PINHEIRO entre outros.”

Leia abaixo relatório da CPI da Pedofilia sobre o abuso sexual de crianças e adolescentes em Coari, inclusive com reproduções em texto das escutas telefônicas:

RELATÓRIO FINAL DA CPI DA PEDOFILIA