Eletricista é vítima de racismo durante corrida de aplicativo (ver vídeo)

Gilson Almeida, de 28 anos, foi vítima de agressão verbal e física durante uma corrida na avenida das Torres

Foto: divulgação

Era pra ser mais uma volta para casa tranquila após um dia de trabalho na vida de Gilson Almeida e de seu irmão, mas durante uma corrida de aplicativo da empresa “99”, no último domingo (18) na avenida das Torres, eles foram vítima de um episódio constrangedor causado pelo racismo. O motorista, mesmo após eles terem informado para onde iriam e o Gilson estar fardado, chamou a polícia e os apontou como possíveis assaltantes. Na ocasião, ele gravou o acontecimento e publicou nas redes sociais.

“Parece que toda vez que entro em uma corrida dessas (de aplicativo) é uma entrevista nova”, revela o homem de 28 anos que é eletricista mecânico industrial.

Em entrevista exclusiva ao Radar, Gilson explicou como ocorreu toda a situação.

Segundo o eletricista, a corrida foi efetuada após a realização de um serviço no bairro Viver Melhor 2, zona Norte da capital. Ele pediu a corrida e assim que entrou o motorista, que não teve o nome revelado, já questionou para onde eles iriam, e mesmo após ter respondido, o condutor diminuiu a velocidade do carro na via e mandou uma mensagem de voz para uma espécie de “rádio dos motoristas de aplicativos” onde ele falou estar com “dois positivos”.

“Após ele dizer isso (‘dois positivos’), ninguém respondeu e aí foi quando ele pareceu estar mais nervoso. Eu achei estranho, mas já desconfiava do que se tratava, ainda assim, fiquei quieto para ver até onde isso iria dar”, relata Gilson.

Passado alguns minutos dessas ações do condutor, que já estavam sendo estranhas, uma viatura chegou encostando no carro e o motorista já foi apontando para Gilson e seu irmão, como se eles realmente tivessem feito algo de errado. Foi aí que começaram as violências verbais e físicas, conta o eletricista.

“Eles já chegaram nos xingando com palavras de baixo calão e após eu colocar minha mão no bolso para guardar meu dinheiro, fui agredido com um chute por um dos policiais. Uma abordagem extremamente inadequada”.

Os policiais que abordaram Gilson e seu irmão ainda não foram identificados /Foto: divulgação

Na mesmo hora, Gilson começou a gravar para ter como provar que estava passando por uma situação de racismo e de violência policial, pois ele não tinha feito nada e mesmo assim o motorista e os policiais estavam agredindo-o e dirigindo xingamentos a ele.

No vídeo, é possível ouvir e ver rapidamente o policial ordenando ele guardar o aparelho celular.

Durante a abordagem, os policiais gritaram com a dupla de irmãos ainda que eles estivessem obedecendo aos comandos dos pm’s / Foto: Divulgação

Após o ocorrido, o mesmo vídeo foi publicado por ele nas redes sociais onde ele lamentou ter passado por todo esse constrangimento e ter sido “abandonado” pelo motorista no meio da avenida no sol quente, mesmo após todo o processo de revista.

“Eles me humilharam, e no final a viatura e o motorista de aplicativo deixou a gente (sic) na avenida no sol”, escreveu em um post que atualmente possui 700 compartilhamentos.

Racismo diário

A situação constrangedora de ser apontado como suspeito de assaltante não é novidade na vida de Gilson Almeida.

“Esse tipo de situação já aconteceu comigo outra vez, mas não tive como gravar”, disse o eletricista que sente que sempre precisa de provas para ter suas palavras validadas.

Além disso, a forma que a abordagem policial de pessoas negras é feita em bairros periféricos também é ressaltada por ele.

“Aqui onde nós moramos na Cidade Nova e outros bairros periféricos, eles já nos abordam como se fossemos bandidos. Mas se eles estão em bairros mais chiques (sic), o tratamento é totalmente diferente”, finalizou.

Posicionamento

Diante dos relatos, o Radar procurou a assessoria de imprensa da empresa 99 para questionar quais seriam as penalidades aplicadas ao motorista. Em nota, eles informaram que:

A 99 lamenta o ocorrido com o passageiro Gilson e seu amigo. Estamos apurando o caso internamente e mobilizamos uma equipe que está em contato com o Gilson para suporte e acolhimentos necessários. A plataforma está disponível para colaborar com as investigações das autoridades, caso seja necessário.

Informamos ainda que temos uma política de tolerância zero em relação a qualquer tipo de discriminação e todos os usuários, sejam eles motoristas ou passageiros, devem se tratar com respeito, boa-fé e profissionalismo. Em comportamentos como esse, que vão contra os Termos de Uso da Plataforma e o Guia da Comunidade, todas as medidas cabíveis poderão ser adotadas — o que inclui o bloqueio do perfil.

Além disso, a empresa também informou que ainda apura o vínculo do motorista com o aplicativo, uma vez que dentro das categorias de viagem, existe a classificação o “motorista parceiro” na qual, conforme aponta a assessora “trabalha de forma autônoma, apenas como parceiros (sic)”.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) também foi questionada devido à conduta violenta dos policiais militares. Em respostas, a pasta informou que não sabia do ocorrido, mas que iria apurar o caso.