Em Coari, num retrato da falta de perspectiva de futuro, cinco adolescentes são apreendidos num só dia cometendo assaltos

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Eles estão sentados no chão, ensanguentados, e não têm mais nem nome (ou sobrenome). São apenas vulgo alguma coisa, tratados por meras alcunhas, apelidos dados pela bandidagem. Um é “Netinho”, 18 anos, que há duas semanas saiu da carceragem da delegacia de Coari onde estava preso por outros delitos. “Ele é velho conhecido da polícia”, diz um dos policiais do Ronda no Bairro que apreendeu os jovens – como pode, né gente, alguém ser “velho” aos 18 anos de idade.  O outro garoto é chamado de “Tabajara” e tem apenas 15 anos. Eles tinham em seu poder uma pistola 765 e, usando a linguagem dos policiais, “estavam em uma moto em atitude suspeita”

assalto-Coari 1Ao serem abordados pela polícia, os jovens fugiram e foram perseguidos. A perseguição pelas ruas de Coari durou cerca de 10 minutos e os suspeitos só pararam quando “Netinho” perdeu a direção da moto e colidiu com um carro que trafegava pelo cruzamento das ruas 02 de Agosto e Eduardo Ribeiro, no centro de Coari.

Os dois garotos – mesmo que muitos não concordem, a idade os faz serem só garotos sim! – ficaram estirados no asfalto, ensanguentados, com uma multidão em volta onde algumas pessoas, quando souberam que eram suspeitos de assalto, ainda queriam aplicar o denominado “corretivo”, na linguagem popular.

assalto-Coari 5Enquanto isso, dentro do Campus da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) de Coari, mais três garotos menores de idade eram apreendidos pela polícia roubando os estudantes universitários. Com eles foram apreendidos cinco celulares. Só depois que os jovens foram detidos é que se notou que a arma usada para praticar os roubos era de brinquedo.

Filhos de quem?

E nesse momento, peço mais uma vez a licença dos leitores do Radar para fugir do texto técnico que se aprende na faculdade, e que muitos repetem quase que mecanicamente dentro das redações dos veículos de comunicação, onde apenas se narra os fatos, e escrever do meu jeito e botar pra fora a indignação em ver tanta juventude perdida, nossos garotos virarem bandidos cada vez mais jovens e todo mundo tratar a situação como mero caso de polícia, nada mais do que isso.

E ainda há quem diga: Mas o que eu tenho a ver com isso, afinal não são meus filhos? Mas, não se dão conta que esses filhos de alguém que são tratados como filhos de ninguém, vão ser cooptados pela “escola do crime” onde ser de menor é receber “nota alta” já que de menor fica preso pouco tempo e neles pode se botar a culpa dos crimes dos mais velhos. E vão repetidamente entrar e sair de instituições para jovens infratores onde, muitas vezes, esses garotos se transformam ainda mais facilmente do que estando livres nas ruas, em presas fáceis da brutalidade de instrutores e de jovens mais fortes fisicamente, e mais violentos. E o ódio deles pela sociedade que os colocou lá vai ficar cada vez maior.

E aos 18 anos, eles vão parar no presídio, desta vez presas fáceis dos traficantes que determinam a “disciplina” dentro da penitenciária – e fora dela também segundo o traficante Zé Roberto do Compaj – e vão virar braços armados de facções criminosas, se drogando para ter “coragem” de matar ou torturar alguém a mando do “chefe”. E aí os filhos de ninguém, aqueles que ninguém quer saber e que ninguém sequer enxerga, vão se transformar em monstros para atacar os filhos de alguém, aqueles das chamadas “boas famílias”. E é aí que muitos dos indiferentes vão ver da pior maneira que eles existem. (Any Margareth)