Em delação, ex-presidente do INC diz que Omar, Nejmi e secretários recebiam dinheiro de propina na “Maus Caminhos”

Em delação premiada, a enfermeira Jennifer Nayara Yochabel Rufino Corrêa da Silva, que contou ter atuado primeiro como “testa de ferro”, de Mouhamad Mustafa na empresa Salvare e depois como presidente do Instituto Novos Caminhos (INC) declarou que o senador Omar Aziz, seus familiares e dois secretários de Estado, recebiam dinheiro de corrupção do empresário Mouhamad Mustafa, apontado na Operação ‘Maus Caminhos’ como líder de uma organização criminosa que desviou cerca de 120 milhões em verbas do Sistema de Saúde Pública do Amazonas.

A enfermeira, que é ré no processo, foi às lágrimas várias vezes durante a audiência. Uma dessas vezes foi quando, segundo ela, teve medo de morrer ao ser avisada, dentro da cadeia, que Mustafa queria conversar com ela, mesmo ele também estando na penitenciaria. “Eu não consigo entender como alguém que está na cadeia consegue mandar”, disse a delatora enquanto chorava.

De acordo com ela, o ex-secretário de Estado da Saúde, Wilson Alecrim, assim como Omar, recebiam vultuosos valores com uma frequência mensal. A declaração foi dada pela enfermeira, durante depoimento prestado na manhã dessa terça-feira (14), na 4ª Vara Criminal da Justiça Federal, no bairro Aleixo, zona Centro-Sul.

Jennifer disse em depoimento, que o empresário mandou um homem que ela disse que se chamar Dílson, para quem ela deveria repassar valores não especificados à ex-primeira-dama Nejmi Aziz, quando ela estava em São Paulo ou em Brasília. Segundo ela, Dílson, à mando de Omar e Mouhamad, organizava tudo para Nejmi e para o assessor pessoal dela, identificado apenas como Gomes. “Ele comprou uma BMW da Nejmi, comprou um terreno que era dela”, disse a delatora ao completar que “ele comprou um carro de Murad Aziz, com quem ele tinha uma sociedade na empresa Total Saúde, uma das envolvidas no esquema”.

Em seu depoimento a enfermeira também relatou que a Secretaria de Estado da Saúde (Susam) nunca fiscalizou os serviços do INC, pois, Mustafá tratava direto com o ex-secretário Wilson Alecrim, “a quem ele também pagava”. Ela declarou que o secretário que sucedeu Alecrim, também recebia favores pagos com dinheiro da corrupção na saúde. Segundo Nayara, Mustafa pagava um apartamento para o filho do ex-secretário de saúde, Pedro Elias.

De acordo com ela, em 2012, quando o Instituto Novos Caminhos nem existia, Mouhamad já afirmava que a abertura do Instituto Novos Caminhos, meio pelo qual os desvios aconteceram, já era algo considerado certo de acontecer, pois, segundo ela, estava tudo acertado com o então governador do Amazonas, Omar Aziz, o qual Jennifer que Mustafa afirmava que era primo.

Mustafá mandava no Amazonas – A enfermeira disse em depoimento que Mustafa sempre afirmava que ‘mandava na p#%%@ toda’. “Ele dizia que mandava no Estado”.

Enquanto relatava o que acontecia no Instituto a enfermeira chorou, por duas vezes, e afirmou que não tinha poder de decisão e que seu nome era usado para a compra de bens sem o consentimento. “Eu fui contratada para fazer a operação funcionar e não um esquema”.

“(…) fui obrigada a assumir o cargo de presidente do INC, mas nunca exerci e o Mouhamad me fez dar uma procuração para ele dando o poder de responder pelo INC. Isso era para não ficar no nome dele, pois ele já tinha dois contratos com o Estado”, afirmou.

Ela ressaltou que não deixava de trabalhar nas empresas de Mustafa, por medo das ameaças que o empresário fazia a ela. E que mesmo chegando a ganhar um salário R$ 46,500, tentou sair do esquema. “Ele dizia que tudo ia cair para cima de mim e que se eu saísse eu ia me f#*&%. Ele se intitulava o dono de tudo no Estado. Ele mesmo dizia que mandava. (…) sempre fazia as reuniões com a arma que ele andava posta na mesa, para nos coagir a fazer o que ele queria (…), ele sempre dizia que tudo o que dinheiro e porrada comprava ele tinha”, afirmou.

Mandava até preso

Jennifer ressaltou que quando ela estava presa, dois policiais identificados por ela como Frank e Nascimento, procuraram por ela na cela, à mando de Mustafa. “Eles transportavam os presos e me procuraram, todos armados, dizendo que o ‘chefe’ – como os policiais chamavam Mustafa – queriam falar comigo no presidio que ele estava”, conta a enfermeira ao afirmar que temia pela vida e que muitas vezes ficou doente, mas preferiu não ir à hospital nenhum pois seria transportada pelos mesmos policiais que, segundo ela, trabalhavam para o empresário.

Serviços superfaturados

A enfermeira também confirmou a existência de notas fiscais com altos valores para a compra de medicamentos. “O INC trabalha com preço fechado, sempre superfaturando os valores”, disse ela, ao destacar que o empresário pagava propina aos diretores das unidades de saúde para que eles assinassem as notas mesmo sem a constatação dos serviços.

Segundo ela, os excedentes das notas eram devolvidos a Mustafa e à sócia dele, Priscila Marcolino. Ela afirmou que os diretores da unidade levavam o dinheiro em bolsas e mochilas para o escritório de Mustafá, ou de Priscila. Conforme o depoimento, os gestores beneficiados recebiam propina para ficarem calados.

Organização criminosa

O procurador da República, Alexandre Jabur disse que os depoimentos dados nessa terça-feira dão “robustez de provas” às investigações da Maus Caminhos que provam ter existido uma esquema criminosa que desviada dinheiro da saúde pública, em detrimento de quem mais precisava desses serviços, a população.