Em fase de testes, vacina da UFMG contra a dengue tem resposta positiva

dengue-vacinaUma vacina contra o vírus tipo 3 da dengue está sendo testada pelo Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no campus em Belo Horizonte. Os primeiros testes, concluídos em dezembro passado, apontam resultados promissores, de acordo com o pesquisador Flávio Guimarães da Fonseca, que coordena o desenvolvimento da vacina. O estudo começou em meados de 2006, e a vacina utiliza o mesmo componente viral que resultou na erradicação da varíola.

A imunização foi testada inicialmente em camundongos. O vírus usado como vacina contra a varíola, que já é um “velho conhecido” da ciência, foi modicado e recebeu um pedaço de DNA do vírus da dengue. Depois disso, foi injetado num organismo vivo, provocando uma resposta imune, que foi memorizada pelas células. Após este procedimento, o vírus da dengue foi inoculado em camundongos, cujo sistema imunológico estava apto a produzir células de defesa, impedindo a infecção.

“Ao final dos primeiros sete anos de pesquisa, é a primeira vez que tenho confiança para prosseguir. Os resultados me indicam que esta linha foi uma escolha acertada”, afirma. O pesquisador explica que, em camundongos, o vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti causa encefalite quando aplicado no cérebro, o que não ocorreu nos testes realizados, porque os animais estavam imunizados. “Houve 100% de proteção”, afirmou.

“A ideia é que, ao ser inoculado em uma pessoa imunizada, ela não vai ter doença nenhuma, porque o vírus é atenuado. Mas, o vírus vai entrar na célula dessa pessoa e vai produzir as proteínas da dengue. O sistema imunológico vai reconhecer as proteínas da dengue e gerar anticorpos e células de defesa contra as proteínas da dengue”, explica.

No país, outras vacinas são testadas, mas, o pesquisador destaca que a produzida pela UFMG tem a vantagem de ser um produto totalmente nacional e com investimento público. “O objetivo é oferecer um produto melhor, tanto em proteção, quanto em custo. Uma vacina gerada aqui não passa por parceiros internacionais, portanto seria mais barata, mas adequada às necessidades da saúde pública brasileira”, ressaltou.

O resultado conseguido em laboratório é comemorado, ainda que de forma contida, pois novas etapas da pesquisa precisam ser cumpridas. O próximo passo será repetir os testes, o que está previsto para ocorrer no final de fevereiro. As experimentações são feitas no Laboratório de Virologia da UFMG, que tem mão de obra e espaço modestos.

Apesar dessas limitações, o pesquisador afirma que o estudo envolve tecnologia de ponta e foge às estratégias clássicas, ao utilizar um vírus transgênico, isto é, que teve uma parte alterada e misturas componentes de dois vírus. “Isso nos coloca numa posição junto com outros institutos do mundo que estão desenvolvendo esta tecnologia”, afirma.

A prevenção à dengue é algo estratégico quando o assunto é saúde pública e motiva constantes campanhas do Ministério da Saúde. É uma doença que ocorre principalmente nos países tropicais, como o Brasil, onde as condições do meio ambiente e as características urbanas favorecem a proliferação do mosquito transmissor. Os casos graves podem levar a óbito.

Dados mais recentes do governo federal apontam que Minas Gerais foi o estado com o maior número de mortes por dengue em 2013, atingindo o número de 116 óbitos. O número de casos notificados da doença no estado chegou a 435.828. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde, foi o maior número de casos e mortes já registrado. Ainda segundo o Ministério da Saúde, no ano passado, o país notificou mais de 1,4 milhão de casos suspeitos.

Para que a imunização funcione será necessário que a pesquisa da UFMG combine os quatros tipos de vírus da doença identificados até o momento. No Brasil, os sorotipos 3 e 4 são os mais circulantes, de acordo com o ministério, mas os demais podem voltar a ser transmitidos.

“Escolhi o tipo 3 para testar, que era o principal quando o projeto começou. Se funcionar, e é o que parece que vai acontecer, a gente vai usar a mesma estratégia para fazer para os sorotipos 1, 2 e 4. Com uma vantagem, eu não preciso provar tudo que eu já provei, consigo pular etapas iniciais de testes”, disse o pesquisador. Dessa forma, a perspectiva dele é que os estudos feitos até agora sirvam de base para a criação da vacina tetravalente.

Fonseca ressalta que é difícil fazer previsões em experimentos científicos, mas ele acredita que os estudos da vacina contra o tipo 3 da dengue ainda levem cerca de cinco anos. Paralelamente a isso, a vacina contra os demais sorotipos vai ser criada e testada em laboratório. Se todas as etapas derem certo, o produto pode estar disponível no mercado em sete anos, isto é, em 2020. “É um previsão extremamente possível, mais muito otimista”. Até o momento, segundo o pesquisador, o estudo recebeu investimentos públicos de cerca de R$ 500 mil.

Outras vacinas em testes

Outra vacina, em estágio mais avançado, é a tetravalente produzida pelo Instituto Butatan, em São Paulo, em parceria com os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH). Ela usa o próprio vírus da dengue modificado por engenharia genética e foi aprovada para testes em humanos. Os voluntários estão em fase de triagem. Segundo o Butantan, a partir dos resultados, será possível solicitar o registro da vacina na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que deve ocorrer a partir de 2018.

De acordo com o Ministério da Saúde, estima-se que sete vacinas estão em pesquisa no mundo. Além do Butantan, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), também está pesquisando uma nova vacina contra a dengue. Ainda segundo a pasta, os estudos são realizados desde 2009, em parceria com o laboratório privado GSK. A previsão é que a vacina seja concluída no prazo de cinco anos.

Fonte: G1