Em Manaus, um em cada dez habitantes já teve Covid-19, diz estudo

Foto: Michel Dantas/AFP

A pesquisa que pretende estimar o tamanho da subnotificação dos casos de Covid-19 no Brasil começa a registrar seus primeiros resultados. Eles vêm de Manaus e indicam que o número real de infectados vai além do sugerido pelas estatísticas oficiais. A estimativa é de que mais de 200 mil pessoas já tenham tido contato com o Sars-CoV-19, vinte vezes maior do que os 10.407 informados pela Secretaria de Saúde do Governo do Amazonas. Com base nesses dados, é possível dizer que um em cada 10 habitantes da capital já tenha sido contaminado pelo novo coronavírus.

Ao todo, 250 testes foram realizados na capital amazonense. Destes, 27 deram positivo. Levando essa proporção para a população total da cidade, representa cerca de 235 mil dos 2,2 milhões de habitantes.

– Esta proporção é comparável a Nova York e Madri. E o dobro (da proporção) registrada pela Espanha de uma maneira geral – compara o epidemiologista Pedro Hallal, coordenador do estudo e reitor da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel).

Os resultados de Manaus foram divulgados porque a cidade foi uma das primeiras do país onde o trabalho já foi realizado. Outras 14 cidades também já passaram da fase de coleta de dados: as capitais Aracaju, Vitória e Palmas, além de Barreiras (BA), Breves (PA), Corumbá (MS), Ijuí (RS), Uruguaiana (RS), Santa Maria (RS), Itabaiana (SE), Lábrea (AM), Parintins (AM), Patos de Minas (MG) e Uberaba (MG).

Dificuldades no interior

Em outras cidades, no entanto, o trabalho tem esbarrado em dificuldades. São municípios do interior nos quais, de acordo com Hallal, a informação sobre a pesquisa não foi repassada pelas secretarias estaduais de saúde.

Em Santarém (PA), por exemplo, a polícia levou a equipe da pesquisa para a delegacia e apreendeu os testes para Covid-19. O mesmo aconteceu em locais como São José dos Campos (SP), São Mateus (ES), Imperatriz (MA), Picos (PI), Patos (PB), Natal (RN), Crateús (CE), Serra Talhada (CE), Rio Verde (GO), Cachoeiro do Itapemirim (ES) e Caçador (SC). Já em Presidente Prudente (SP), Guarapuava (PR) e Cáceres (MT), autoridades municipais alegaram que precisavam liberar a realização da pesquisa, o que gerou atraso no início dos testes.

Problemas como esses foram registrados em 52 dos 133 municípios. Em razão disso, a conclusão do trabalho de coleta de sangue foi adiada duas vezes. Inicialmente, iria até sábado. Em seguida, foi postergada para domingo. Por fim, será concluída nesta terça.

Em três cidades, a coleta não foi iniciada até o momento. São elas Picos (PI), Petrolina (PE) e a capital maranhense São Luís. Em outras sete, os entrevistadores não conseguiram coletar mais do que 15 amostras de sangue. Foi o que ocorreu em Macaé, Bauru (SP), Caçador (SC), Rondonópolis (MT), Barra do Garças (MT), Iguatu (CE) e Caicó (RN).

O planejamento era de que, somente nesta primeira etapa, 33.250 pessoas fossem testadas. Ao todo, a pesquisa será realizada em três rodadas, com um intervalo de duas semanas entre cada uma. O objetivo é traçar uma linha evolutiva dos resultados. No fim, 99.750 brasileiros terão sido submetidos ao teste.

O teste sorológico, utilizado para o levantamento, não detecta a presença do Sars-CoV-2 no organismo, mas sim dos anticorpos produzidos pelo organismo no contato com o vírus. Justamente por isso, seu resultado é questionado por especialistas. Para sua confiabilidade ser maior, é preciso considerar que os resultados retratam uma realidade de até duas semanas antes da realização da coleta.

As 133 cidades visitadas foram escolhidas por serem consideradas satélites das regiões administrativas do IBGE. Em cada um dos municípios, foram sorteados os setores censitários (também estabelecidos pelo IBGE), que contam com 300 residências cada um. As casas e os moradores também foram escolhidos por sorteio, numa escolha que deixa o universo examinado quase que totalmente definido pela aleatoriedade.

O estudo foi encomendado pelo Ministério da Saúde à Ufpel. A universidade gaúcha coordena um projeto semelhante no Rio Grande do Sul. Além de ter providenciado os 100 mil kits de testes, o governo federal liberou R$ 12 milhões para financiar a pesquisa. Com esse dinheiro, foi possível contratar o serviço do Ibope, responsável pelos entrevistadores que estão nas ruas.