Em meio a enchente e pandemia, Prefeitura de Manaus faz festa para reinaugurar ‘Bola das Letras’ (ver vídeos)

No momento em que o Amazonas ultrapassa a triste marca de 13 mil mortos pela Covid-19 e enfrenta uma enchente histórica, a Prefeitura de Manaus promoveu show com música ao vivo e aglomeração durante a reinauguração da rotatória Umberto Calderaro Filho, nesta quarta-feira (2).

Popularmente conhecida como “Bola das Letras”, a rotatória Umberto Calderaro Filho fica situada na avenida Theomário Pinto da Costa, no bairro Dom Pedro, na Zona Centro-Oeste. O local sofreu algumas mudanças estéticas após ações executadas pela Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp).

Enquanto tem família quebrando seus móveis pra fazer maromba porque está faltando madeira, a prefeitura de Manaus fez festa, na noite dessa quarta-feira (2), sob justificativa de reinaugurar a praça e entregar o projeto e fez propaganda do local ter recebido novo paisagismo, iluminação, pintura, implantação de bancos e reconstrução do monumento do alfabeto, na área central da rotatória.

Com música ao vivo e aglomeração, várias pessoas se reuniram na ‘Bola das Letras’, durante reinauguração do local. O evento acontece ao mesmo tempo em que Manaus passa por um período difícil, com o avanço das águas do Rio Negro deixando centenas de famílias sem casa e comerciantes com prejuízos, tudo isso em meio a uma pandemia que tem se agravado com aumento de casos e novas variantes.

O trânsito ficou intenso na Avenida Theomario Pinto, onde fica a Bola das Letras, e também no entorno, nas avenidas Jacira Reis e Pedro Teixeira. Agentes do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (Immu) foram colocados para auxiliar o fluxo de veículos.

Show ao vivo e aglomeração

Com palco montado debaixo de uma tenda, no mesmo momento em que a administração de David Almeida dispensa licitação para gastar mais de meio milhão com tendas, o festejo foi anunciado para comemorar a nova infraestrutura da praça. Algumas cadeiras ficaram dispostas no canteiro central da rotatória e o que se viu, conforme imagens capturadas pelo Radar, foi tumulto e aglomeração de pessoas.

A prefeitura de Manaus disse que recomendou aos presentes o uso de máscaras e um distanciamento social mínimo. Informou também que manteve servidores com borrifadores de álcool em gel e distribuição de máscaras para o público.

A estrutura usada para cobrir o palco – uma tenda – mostra onde foi parar a dispensa de licitação alegando “estado de emergência e calamidade”, no caso foi parar na inauguração de uma praça e não na vacinação contra Covid-19, assim como está especificado no objeto da contratação.

“Aqui não tem dinheiro público”

“Aqui não tem dinheiro público, é tudo fruto de parceria. Nossa gente merece espaços como esse e isso é só o começo. Estamos próximos do verão, um período maravilhoso para executar essas obras. Junto com o David, nós estamos prontos para enfrentar esses desafios”, declarou o secretário da Semulsp, Sabá Reis, em discurso feito durante o festejo. O secretário sequer citou a pandemia.

Em menos de um mês a prefeitura de Manaus fez três dispensas de licitação, duas pela Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), cujo secretário é o vice-prefeito, Marcos Rotta, e uma pela Semulsp, de Sabá Reis.

Em maio, a empresa Mamute foi contratada, com dispensa de licitação feita pela Prefeitura de Manaus através da Semulsp, para a realização dos “serviços emergenciais de limpeza e conservação”, por um período de seis meses, primeiramente no valor de R$ 6,7 milhões. Logo depois, de repente surgiu uma errata no DOM, aumentando o valor para cinco vezes mais, R$ 40,6 milhões. O total das dispensas de licitação feitas em menos de um mês na gestão de David Almeida somam mais de R$ 45,8 milhões.

O drama da enchente

O Radar vem acompanhando o drama de moradores de bairros que foram atingidos pela enchente em Manaus. A falta da manutenção e construção de pontes neste período de cheia do rio Negro é uma constante. Durante live do Radar, moradores denunciaram o descaso da prefeitura e defesa civil.

No São Jorge, uma família moradora do Beco João de Castro precisou desmontar o guarda-roupas para construir marombas. O Radar entrou em contato com a Defesa Civil para questionar quando será realizada a construção de pontes no local, em resposta informou que as obras ainda serão concluídas.