Em meio à guerra, morreram ucraniano e belarusso que articularam fim da URSS

Leonid Kravtchuk, Stanislav Chuchkévitch e Boris Ieltsin aplaudem após assinatura de acordo que na prática pôs fim à União Soviética – 8.dez.1991/RIA Novosti/AFP

Nos primeiros dias de maio, com diferença de uma semana, morreram o ucraniano Leonid Kravtchuk, 88, e o belarusso Stanislav Chuchkévitch, 87, integrantes do trio responsável, numa leitura da obra do historiador Eric Hobsbawm, pelo encerramento do século 20.

Ao lado do russo Boris Ieltsin, eles decretaram o fim da URSS em 1991 e impulsionaram os movimentos independentistas da Ucrânia e da Belarus, à época em um grau de sintonia com Moscou.

Porém, mais de 30 anos depois, a tragédia da Guerra da Ucrânia evidencia o fracasso de tentativas de laços pacíficos entre o Kremlin e algumas das ex-repúblicas soviéticas. Kravtchuk e Chuchkévitch já alertavam para o risco de conflitos, mesmo quando da articulação com o nacionalismo russo de Ieltsin, responsável por desmontar o império bolchevique.

O britânico Hobsbawn amalgamou o conceito de “breve” ao século 20, ao apontar como seu início, do ponto de vista de movimentos históricos e ideológicos, o ano de 1914 e a Primeira Guerra Mundial. Correspondeu aos estertores daquela era a desintegração soviética em 1991.

Naquele ano, em novembro, desembarquei em Kiev para entrevistar Leonid Kravtchuk, primeiro presidente da Ucrânia pós-soviética. Imperavam momentos de profunda efervescência histórica. A URSS, castigada pela inviabilidade de seu sistema e pela maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial, se encontrava à beira do colapso.

Kravtchuk simbolizava a maré histórica. De chefe de ideologia do PC ucraniano, transformou-se em liderança independentista e apontava como referência, em vez de Vladimir Lênin, Mihailo Hruschevski, herói da efêmera Ucrânia independente do século 20, entre 1917 e 1918.

À época da entrevista, as estruturas soviéticas, embora em decomposição, ainda existiam. Circulavam em Moscou, onde eu trabalhava como correspondente da Folha, rumores de um “ataque preventivo” contra o separatismo ucraniano. Perguntei a Kravtchuk se o recém-anunciado plano de criar estruturas militares refletia especificamente o medo de um expansionismo maquinado a partir do Kremlin.

“Estamos criando Forças Armadas porque um Estado independente tem que dispor de forças que possam defendê-lo”, respondeu ele. E, sobre projetos diplomáticos, apontou: a longo prazo, integrar-se a estruturas europeias. A entrevista ocorreu no Parlamento ucraniano, em meio a preparações para o referendo de 1º de dezembro. Naquela iniciativa, 92% dos votos ratificaram a declaração de independência aprovada em agosto pelos parlamentares sediados em Kiev.

O acachapante apoio à separação aplainou o caminho para a reunião, uma semana depois, na Belarus, entre Ieltsin, Kravtchuk e Chuchkévitch. A avalanche separatista fortaleceu os líderes regionais e isolou, no Kremlin, o presidente soviético, Mikhail Gorbatchov.

Empenhado em enfraquecer o arquirrival, Ieltsin (1931-2007) insuflou o separatismo e, a 8 de dezembro de 1991, liderou o encontro responsável por decretar o fim da era soviética. Coube a Chuchkévitch, o anfitrião, telefonar ao Kremlin para comunicar a decisão histórica.

“Gorbatchov estava muito emocionado”, relatou o belarusso em entrevista à Folha, em Minsk, pouco mais de um mês após a dissolução da URSS. O líder contou ter sido tratado sempre de maneira informal pelo interlocutor soviético. “Pela primeira vez, fui tratado de senhor, pelo telefone.”

Perguntei se o império russo se limitaria então aos registros históricos. “Não”, retorquiu. “A nossa história mostra que hábitos e métodos imperiais existiram durante o regime bolchevique como durante o czarismo.”