Em outros países, por muito menos, já teria gente presa

Foto: Junio Matos

Gente, confesso, está difícil até escrever, após o que passamos na redação do Radar Amazônico, ouvindo áudios e vendo vídeos de profissionais de saúde fazendo apelos desesperados por oxigênio para que seus pacientes não continuem morrendo – num preciso nem falar dos depoimentos desoladores de familiares. É um misto de tristeza e de muita, mas muita raiva mesmo! Um sentimento menor que nunca fiz questão de ter ou de alimentar. “Raiva só faz mal pra quem sente”, dizia minha mãe, de pouca instrução formal, mas muita sabedoria.

E o maior motivo da minha raiva é ter certeza que a morte dessas pessoas, dessa forma cruel e desumana, não só deveria, mas poderia ter sido evitada e que, em outros países, por atitudes bem menos criminosas, já teria gente presa.

De um lado tivemos o comandante de um país liderando uma onda negacionista como se tivesse “tocando gado” a caminho do matadouro. No Amazonas era visível a crença de grande parte da população no capitão, de que tudo não passava de invenção da imprensa esquerdista e comunista para prejudicar seu governo e afundar o país economicamente. Ele e sua “tropa” do governo – quem não lembra do ministro Weintraub? – boicotaram o trabalho de governadores e prefeitos, fizeram a população desrespeitar medidas de combate a Covid-19, incentivando aglomerações, desobrigando o uso da máscara, desqualificando o distanciamento social, entre tantas outras atitudes criminosas.

Em qualquer lugar do mundo isso seria crime contra a humanidade, genocídio. Mas no Brasil não! Isso é apenas uma brincadeirinha, coisas de um velhote engraçado, um mito! A culpa é do povo que não obedece seus respectivos governadores e prefeitos. Deixa o velho fanfarrão se divertir!

Por outro lado, como se explica um governo do Amazonas que não tem o menor planejamento para tempos de crise sanitária, que paga uma cambada de xerimbabos a peso de ouro e não tem um cara pra fazer a simples tarefa de ver o que tem em estoque, pra não deixar faltar um insumo básico em qualquer estrutura de saúde como oxigênio? Eu mesma respondo! A questão é que esses xerimbabos e apaniguados do governador, estão lá apenas pra usar o governo como um grande balcão de negócios! O único interesse é por ver onde tem dinheiro pra ganhar! Tão somente isso e mais nada.

E como se num bastasse, nessa mesma história revoltante, temos a White Martins, nada menos que a maior empresa global de fabricação de gases que, após cidadãos do Amazonas morrerem sem oxigênio, vem com uma conversa em nota oficial para a imprensa de que a explicação para a falta de oxigênio foi o agravamento da pandemia e o aumento do uso de oxigênio nas unidades de saúde. Segundo a empresa, ela “só consegue produzir 25 mil metros cúbicos por dia, mas a demanda atual é de 70 mil metros cúbicos”. E o pior é que até os veículos de comunicação nacional ficam reproduzindo essa explicação da empresa, mas não perguntam como a maior empresa de gases do mundo não prevê que isso pode acontecer e não traça um plano emergencial para não faltar o produto e causar a morte de seres humanos. Por que, imediatamente, a White Martins com sua grandiosa estrutura de logística, que conta com centenas de carretas pelo Brasil não tratou de trazer mais oxigênio para o Amazonas?

E num quero nem acreditar nas informações que chegaram ao Radar de que houve um problema na chamada planta fabril de produção de oxigênio na White Martins e, ao invés de ter avisado imediatamente o governo do Amazonas para que fosse feita a contratação de empresas em outros Estados, por pura ganância de não perder dinheiro, a empresa teria ficado tentando dar um jeito em seus equipamentos, sem pensar na tragédia que poderia acontecer com a falta de oxigênio nos hospitais. E a tragédia aconteceu…

E tem mais “atores” nessa ópera do absurdo onde um ministro-general vem em Manaus e permanece aqui há dias, receitando e exigindo o uso da cloroquina a torto e a direita, enquanto faltou o básico, simplesmente oxigênio. E, enquanto morre um monte de gente todos os dias no Amazonas, o general ainda trouxe a tiracolo um cara lá do extremo sul do Brasil para dar palestra pros manos aqui do norte como entupir o povo de cloroquina. Mas nada de querer saber do oxigênio que ia faltar né mesmo?

E o que me mata de raiva é saber que esse tempo vai passar e suspeitar que ninguém vai ser responsabilizado pela morte do nosso povo e nem por nada que tem acontecido no Brasil e no Amazonas.