Em protesto, pais de vítimas da Kiss pedem esmola para pagar limpeza

vitima kiss

Em meio à limpeza do prédio onde funcionava a Boate Kiss, familiares de vítimas do incêndio que causou 242 mortes na casa noturna em 27 de janeiro de 2013 realizaram um protesto na tarde desta quinta-feira (4) em Santa Maria, na Região Central do Rio Grande do Sul. Com as bocas cobertas com fita adesiva, eles estendiam um chapéu a quem passava, como quem pede esmolas. O ato simbólico faz alusão ao pagamento da descontaminação para reaver os objetos dos filhos encontrados dentro da construção.

O juiz responsável pelo processo criminal referente à tragédia, Ulysses Louzada, havia afirmado na última quarta (3) que familiares teriam de contratar uma empresa especializada para fazer a limpeza dos objetos, o que causou a contrariedade dos manifestantes. No entanto, o magistrado disse nesta quinta que não é o responsável pela decisão de quem vai arcar com os custos. Parentes das vítimas vão pedir na Justiça que a empresa dona do prédio pague as despesas.

Na quarta-feira (3), no primeiro dia de limpeza, foram encontrados 366 peças de calçados das vítimas, peças de roupas, bolsas, carteiras e celulares. Segundo a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), a maior parte estava concentrada perto da porta de saída da boate.

A limpeza do prédio e dos objetivos tem como objetivo eliminar as mais de 200 substâncias tóxicas que ficaram no interior da casa noturna depois do incêndio. No segundo dia de trabalhos, foram carregados dois contêineres com destroços do local. A fachada da casa noturna está sendo pintada de branco e os buracos abertos na parede na madrugada do incêndio foram tapados com madeira.

Até o início da noite desta quinta, técnicos ainda removiam objetos como móveis, geladeiras e restos de escombros. O trabalho não será interrompido no final de semana e nem na segunda-feira, dia de feriado em Santa Maria, e deve ser concluído na terça-feira (9).

Apenas oito pessoas entraram no interior da boate: cinco funcionários da empresa que faz a limpeza e três técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Todo o trabalho está sendo registrado em um inventário.

Na sexta-feira (12), Louzada fará uma visita para fiscalizar o trabalho e deverá entrar na casa noturna. Os pais de vítimas que passaram a madrugada de terça para quarta-feira no local foram embora após o fim do primeiro dia de trabalho.

Entenda

O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, ocorreu na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. A tragédia matou 242 pessoas, sendo a maioria por asfixia, e deixou mais de 630 feridos. O fogo teve início durante uma apresentação da banda Gurizada Fandangueira e se espalhou rapidamente pela casa noturna, localizada na Rua dos Andradas, 1.925.

O local tinha capacidade para 691 pessoas, mas a suspeita é que mais de 800 estivessem no interior do estabelecimento. Os principais fatores que contribuíram para a tragédia, segundo a polícia, foram: o material empregado para isolamento acústico (espuma irregular), uso de sinalizador em ambiente fechado, saída única, indício de superlotação, falhas no extintor e exaustão de ar inadequada.

Ainda estão em andamento dois processos criminais contra oito réus, sendo quatro por homicídio doloso (quando há intenção de matar) e tentativa de homicídio, e os outros quatro por falso testemunho e fraude processual. Os trabalhos estão sendo conduzidos pelo juiz Ulysses Fonseca Louzada. Sete bombeiros também estão respondendo pelo incêndio na Justiça Militar. O número inicial era oito, mas um deles fez acordo e deixou de ser réu.

Entre as pessoas que respondem por homicídio doloso, na modalidade de “dolo eventual”, estão os sócios da boate Kiss, Elissandro Spohr (Kiko) e Mauro Hoffmann, além de dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, o vocalista Marcelo de Jesus dos Santos e o funcionário Luciano Bonilha Leão. Os quatro chegaram a ser presos nos dias seguintes ao incêndio, mas a Justiça concedeu liberdade provisória a eles em maio do ano passado.

Atualmente, o processo criminal ainda está em fase de instrução. Após ouvir mais de 100 pessoas arroladas como vítimas, a Justiça está em fase de recolher depoimentos das testemunhas. As testemunhas de acusação já foram ouvidas e agora são ouvidas as testemunhas de defesa. Os réus serão os últimos a falar. Quando essa fase for finalizada, Louzada deverá fazer a pronúncia, que é considerada uma etapa intermediária do processo.

Fonte: G1