Em um ano, número de homicídios no bairro Jorge Teixeira aumenta 332%

Crescimento de homicídios no bairro é superior a 300%; jovens cuja raça não é identificada são as principais vítimas. Foto: divulgação

Entre janeiro e julho de 2021, 82 homicídios foram registrados no bairro Jorge Teixeira, na zona Leste de Manaus. No mesmo período do ano passado, o número de casos era de apenas 16. Com isso, o indíce de homicídios no bairro aumentou  332%. A informação chama atenção para o crescimento da incidência de morte violenta na localidade em um curto período de tempo.

Sendo o segundo bairro mais populoso de Manaus, com 112.879 moradores – conforme aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) – o Jorge Teixeira ocupa um espaço de destaque em reportagens e manchetes de jornais com notícias frequentes de homicídios.

Em uma pesquisa rápida à lupa do Radar Amazônico, se colocarmos a palavra “Jorge Teixeira”, aparecem diversas matérias envolvendo o bairro e a maioria delas tem algo em comum: as notícias falam sobre mortes violentas ligadas a ações criminosas de atiradores.

Um dos casos recentes chocou a população e retrata a morte de um adolescente inocente durante uma ação criminosa. João Vitor, de 14 anos, estava trabalhando em um estabelecimento comercial quando foi surpreendido com um tiroteio. Na mesma ocasião, outra pessoa morreu e duas ficaram feridas.

Além desse, um caso com característica de execução também chamou atenção no bairro. Um jovem de 18 anos, identificado como Vander Souza, foi morto com nove tiros na manhã do último dia 1° deste mês. Na ocasião, ele foi perseguido por homens que estavam em um carro. Ele tentou fugir e se esconder em um beco do bairro, mas foi alcançado pelos criminosos e alvejado com tiros nas costas, braços e peito.

Com a série de mortes de caráter tão violento, levantam-se dúvidas sobre quais motivos e circunstâncias levam a tantos crimes. A falta de ações eficazes da polícia e a ausência de políticas públicas são algumas das mais expressivas.

Cenas de crime, viaturas e ambulâncias já compõem a rotina de diversas famílias que moram no bairro.             Foto: reprodução/ilustrativa

Além disso, analisando superficialmente as matérias, percebe-se que os “alvos” dessas mortes possuem um perfil comum: homens pretos. E de fato, eles compõem a maior parte da população que habita o bairro. Eles representam 72,2% (87.190) da população, seguidos de:  brancos com 21,2% (23.899), amarelos com 1,3% (1.442) e, por último, os indígenas com 0,3% (349).

Dados do IBGE (Censo 2010) também apontam que, dos 112.879 habitantes do Jorge Teixeira, 50,17% são homens (56.634) e 49,83% mulheres (56.245).

Entretanto, para ter comprovação do perfil das vítimas de homicídio é preciso ter as informações registradas pela Secretária de Segurança Pública (SSP-AM). Por isso, a assessoria de comunicação da pasta foi procurada pela reportagem, que solicitou  quais eram as faixas etárias, gênero e raça das pessoas que haviam sido vítimas de homicídios no bairro.

Os dados disponibilizados apontam que a maioria das mortes de 2020 e 2021 ocorreram, com homens da faixa etária juvenil, entre 18 e 24 anos. Em 2020, dez homens foram mortos nos primeiros sete meses do ano. Já em 2021, esse número saltou para 46.

Gráfico: Renato Oliveira/ Radar Amazônico

No que diz respeito à raça, não há tanta precisão, tendo em vista que a maioria das mortes registradas pelo banco de dados da SSP-AM recebe a classificação “N.I (Não Identificado)”. Em 2020, foram 18 mortes classificadas como N.I e este ano já são 51.

Gráfico: Renato Oliveira/ Radar Amazônico

Questionada sobre quais critérios seriam aplicados para que as vítimas de homicídio recebessem tal classificação, a SSP afirmou que se baseia nos boletins de ocorrência (B.O’s), mas não especificou como isso é feito.

Motivação

Indo além dos números, o cientista social Fábio Candotti, levanta uma reflexão sobre as possíveis motivações das mortes e seu respectivo crescimento. Uma das linhas de investigação está ligada ao tráfico de drogas.

“É preciso saber como essas mortes ocorreram. Caso tenha sido por conta do tráfico de drogas, infelizmente, só prova o que já se sabe há muito tempo: ou legaliza-se o comércio dessas mercadorias ou a situação só tende a piorar. Quem morre no mercado de drogas são pessoas pobres, negras, indígenas, descendentes de indígenas, porque a guerra é contra elas. Se morressem os grandes empresários e seus descendentes, a história seria outra”, pontuou.

A raça das vítimas de homicídio no Jorge Teixeira, em sua maioria, são classificadas como “Não Identificadas (N.I)”          Foto: Luiz Mendes/Radar Amazônico

Tal situação levanta outra discussão: qual o motivo de tantos jovens se perderem para o mundo das drogas? É falta de programas sociais? Tendo isso em vista, a reportagem procurou a Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc) para questionar se há a presença de algum programa ou atividade voltada para crianças e jovens com o objetivo de tirá-los das ruas e, por consequência, evitar que estes se envolvam com atividades criminosas ou sejam “recrutados” pelo tráfico. Até a publicação desta matéria, a demanda não foi respondida.

A cobertura de segurança na localidade também foi questionada à SSP e em nota eles responderam que:

“A SSP determinou reforço de operações policiais ostensivas na área e a Polícia Militar intensificou o patrulhamento e operações para apurar denúncias. Todos os casos de homicídios estão em investigações pela Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS)”

Todavia, a SSP não especifica de que maneira essa intensificação funciona na prática.

No que diz respeito aos projetos realizados com o objetivo de tirar os menores das ruas, a mesma secretária apontou a existência das iniciativas, como o “Projeto Suçuarana”, que oferece aulas de jiu-jitsu para 63 crianças e adolescentes do bairro. Além disso, há ainda o Programa Formando Cidadãos, que não é voltado especificamente para o bairro, mas também alcança escolas do bairro Jorge Teixeira.

Apesar de apontarem tais atividades, não foi informada a existência de uma ação com grande alcance e adesão dos menores que vivem no bairro e convivem de perto com a criminalidade.