“Espalharam pro Brasil que havíamos matado 11 pessoas de propósito, porque éramos do PT”, diz pesquisador do AM sobre ineficácia da cloroquina

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Um dia depois do Ministério da Saúde emitir orientações técnicas para prescrição da cloroquina e do sulfato de hidroxicloroquina para pacientes com covid-19 sem especificar estudos científicos ou experiências positivas, o infectologista e pesquisador do Amazonas, Marcus Lacerda, afirmou que estudos demonstram a ineficácia da droga. (Veja a publicação na íntegra no final do texto)

Ele foi o responsável pelo primeiro ensaio clínico controlado no mundo com uso da cloroquina, para formas graves de covid-19, em Manaus.

“Após a publicação dos dados, em que demonstramos que a droga não elimina o vírus, e que não se devem tentar doses mais altas, fomos vítimas de uma terrível fake news oriunda de algum gabinete do ódio”, afirmou o pesquisador em uma publicação em sua rede social.

Segundo ele, que atualmente responde a inquéritos civis para apontar dados do estudo, os pesquisadores que participaram do ensaio clínico no Amazonas foram acusados de matar pessoas durante os trabalhos.

“Espalharam pro Brasil que havíamos matado 11 pessoas de propósito, porque éramos do PT e porque queríamos derrubar a menina dos olhos do presidente (Bolsonaro). O poder dessa notícia impregnou a sociedade leiga, médica e científica”, disse o pesquisador Marcus Lacerda.

Uso indiscriminado

Ele – que é um dos maiores especialistas brasileiros em doenças infecciosas e parasitárias, com doutorado em malária, consultor da Organização Mundial de Saúde (OMS), com mais de 250 publicações científicas – alertou para o risco do uso indiscriminado da cloroquina e a defesa do uso da substância pelo Governo Federal.

“Quem cala consente, quem cala apoia o novo regime. Uma pena que não haverá responsáveis pelas mortes de idosos com Covid-19 usando cloroquina em casa, de forma indiscriminada. A eles nosso mais profundo respeito, por pagarem o preço das escolhas erradas de uma nação. Nosso luto será ainda maior”, disse o pesquisador Marcus Lacerda.

O Radar tentou contato com o pesquisador para que ele pudesse esclarecer, em uma entrevista por vídeochamada, os resultados dos estudos realizados no Amazonas e os riscos da cloroquina. Ele nos encaminhou para a assessoria de comunicação da Fiocruz Amazônia – entidade a qual ele é vinculado – que informou ao Radar que os pesquisadores não darão entrevistas até o término de todos os estudos.

“À sociedade amazonense, minha gratidão pelo que me proporcionaram até aqui, e um pedido de que conheçam melhor suas instituições, seus filhos de ‘bravos que doam’, e aqueles que pra cá migraram por opção. Como quis dizer o governador Eduardo Ribeiro, ao colocar uma bandeira na cúpula de seu teatro: ‘aqui também somos Brasil’”, finalizou o pesquisador Marcus Lacerda na publicação em sua rede social que, até esta sexta-feira (22), já contabilizava 3.372 curtidas e mais de 500 comentários.

Veja a publicação na íntegra

Há dois meses nos lançamos na aventura de ajudar a humanidade, fazendo o primeiro ensaio clínico controlado do mundo com cloroquina, para formas graves de Covid-19, em Manaus. Após a publicação dos dados, em que demonstramos que a droga não elimina o vírus, e que não se devem tentar doses mais altas, fomos vítimas de uma terrível fake news oriunda de algum gabinete do ódio. Espalharam pro Brasil que havíamos matado 11 pessoas de propósito, porque éramos do PT e porque queríamos derrubar a menina dos olhos do presidente. O poder dessa notícia impregnou a sociedade leiga, médica e científica. Mesmo após todas as manifestações de apoio das sociedades científicas, esse grupo se vê ainda hoje intimidado por inquéritos civis e explicações a todo tipo de órgãos que deveriam também defender os pesquisadores, que são antes de tudo cidadãos, no exercício de sua profissão. As fake news encontraram terreno fértil na ignorância e no conceito popular de que: ‘onde há fumaça, há fogo.’ Quem acreditou na notícia deve ter o hábito de julgar os outros pelo que ele próprio teria coragem de fazer. A sociedade amazonense se calou, e perdeu a oportunidade de defender um dos seus patrimônios: a pesquisa clínica em doenças infecciosas, que aqui tem mais de 40 anos de excelência. Quem cala consente, quem cala apoia o novo regime. Uma pena que não haverá responsáveis pelas mortes de idosos com Covid-19 usando cloroquina em casa, de forma indiscriminada. A eles nosso mais profundo respeito, por pagarem o preço das escolhas erradas de uma nação. Nosso luto será ainda maior. À sociedade amazonense, minha gratidão pelo que me proporcionaram até aqui, e um pedido de que conheçam melhor suas instituições, seus filhos de ‘bravos que doam’, e aqueles que pra cá migraram por opção. Como quis dizer o governador Eduardo Ribeiro, ao colocar uma bandeira na cúpula de seu teatro: ‘aqui também somos Brasil’. #covid_19 #covid19 #cloroquina #hidroxicloroquina #clorocovid_19 #clorocovid #clorocovid19. .Foto: Fábio Nutti para Revista Exame

Leia a nota de orientação do Ministério da Saúde