“Esses caras tiraram tudo dele, até a vida”, diz o amigo de André que ateou fogo ao corpo na Cidade das Luzes

Rapaz que ateou fogo com detalhe

Tiago Augusto não espera nem que o Radar vá ao seu encontro para que ele bote pra fora sua revolta sobre o que aconteceu com seu amigo André Junior Oliveira, de 32 anos, o morador da comunidade Cidade das Luzes, no Tarumã, que se acorrentou a sua casa e ateou fogo ao corpo durante a retirada dos moradores da área, após mais uma decisão do juiz Adalberto Carim, da Vara Especializada de Meio Ambiente e de Questões Agrárias (Vemaga) em favor da Prefeitura de Manaus que alega que os moradores estariam cometendo crime ambiental. O terreno é reclamado também pelo empresário Hélio de Carli. André entrou em coma na madrugada deste sábado por falência múltipla dos órgãos e veio a falecer pela manhã.

Rapaz que ateou fogo 5“André tem mulher e sete filhos. Ele é muito batalhador e muito sofredor. Ele veio de Maués, sem nada, com um colchão debaixo do braço, foi lá pra invasão do Detran, fez uma casinha pra ele, pegou porrada da polícia, destruíram a casa e expulsaram ele de lá com a família. Ai ele foi pra Cidade das Luzes. André praticamente não dormia. Ele chegava do trabalho às oito horas (ou 20hs) e ia trabalhar na construção de sua casa até as três da madrugada, quando era quatro e meia saia pra trabalhar de novo. Quando a casa só tinha telhado, nem parede ainda tinha, ele dormia com os dois filhos pequenos no chão, no barro”, conta Tiago, acrescentando: “Eu morava em frente à sua casa. Eu via tudo isso”.

Tiago se mostra revoltado até mesmo com a imprensa. “A casa dele era uma das melhores. Era de madeira, mas era muito grande, toda bem dividida, o chão todo na cerâmica, cozinha na cerâmica. Era de madeira por fora, mas toda bem pintada, uma casa muito bonita que ele ralou muito pra fazer, tipo aquelas casonas do interior. Tem gente na imprensa colocando a foto do André em frente a um barraco velho, todo caindo aos pedações, em chamas, a casa dele nem pegou fogo. É como se o André fosse um qualquer que não cuidava do bem estar da família, que morava num barraco velho. Isso é uma mentira, uma maldade. Já passei fotos de como era o André, da sua casa, de como ele vivia, não colocaram nada. É como se André verdadeiro não existisse”, revolta-se.

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Rapaz que ateou fogo 3Tiago manda a foto da casa de André, coincidentemente ele pintou de um lado do telhado, “paz no mundo da desigualdade humana”, e do outro lado: “paz na terra”. Ele também envia foto de André em um momento de alegria com os amigos, fazendo um churrasco em frente à casa de um deles (de braços abertos na churrasqueira) e trabalhando na construção da igreja da comunidade. Em outra imagem, André está trabalhando na construção do piso de sua casa. Tiago quer que o amigo seja visto como realmente era. “Ele era um homem de bem, não fumava, não bebia, ajudava os amigos, amava a família. Imagina o que ele sentiu ao ser chamado de traficante, de bandido”, diz Tiago com raiva na voz, e arremata: “Dá pra imprensa que publicou o secretário dizendo que lá só tinha bandido perguntar porque não prenderem ninguém quando nos expulsaram, cadê os traficantes que moravam lá, os ladrões e estupradores?”

Em um momento dos mais emblemáticos nas fotos repassadas pelo amigo, André está no sinal em frente à Prefeitura de Manaus, com um apito na boca e balançando, uma bandeira do Brasil, na companhia dos dois filhos pequenos. “Foi quando acampamos na frente da Prefeitura de Manaus, tentando falar com o prefeito sobre o problema da Cidade das Luzes. Nos dez dias que ficamos acampados, André foi o que mais lutou, ia lá pro sinal com um apito pra chamar a atenção das pessoas pro nosso problema, ficava debaixo de chuva e sol, balançando a bandeira do Brasil, agarrado com os dois filhos”, conta Tiago, dizendo ainda: “Ele chegou no limite, cansou de lutar e perder tudo. Esses caras, prefeito, governador, esse empresário que mandou nos tirar de lá, tiraram tudo dele, até a vida”, desabafa. (Any Margareth)

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André ajudando na construção da igreja da comunidade

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Horta construída por André