Estudo de agência nacional aponta que facções criminosas é que mandam dentro e fora dos presídios do AM

Facções coagem membros do regime semiaberto a voltarem para o mundo do crime

Foto: Divulgação

Um estudo feito pela Agência Pública – Jornalismo Investigativo, com sede em São Paulo, fez um estudo sobre o poder das facções dentro e fora dos presídios de Manaus, onde têm ocorrido, nos últimos anos, os maiores massacres de preso numericamente do País. O estudo junto ao  sistema prisional mostrou a dura realidade dos presídios do Amazonas.

Segundo o “diagnóstico” feito sobre o sistema prisional do AM, as facções criminosas tomaram o controle das unidades prisionais enquanto o estado assiste tudo isso parado. Isso faz lembrar um fato que se tornou um escândalo nacional durante as eleições de 2014, quando em áudio gravado supostamente dentro de um presídio de Manaus, o então subsecretário de Justiça e Cidadania do Amazonas, major PM Carliomar Brandão foi flagrado visivelmente negociando com o “xerife” da cadeia, José Roberto Fernandes Barbosa, o Zé Roberto da Compensa, apoio do crime organização para a reeleição do então governador José Melo.

No áudio, Ze Roberto diz algo muito parecido com o resultado desse estudo feito pela Agência Pública sobre o poder das facções criminosas dentro e fora dos presídios. “Quem manda na cadeia e no Estado é nós (sic) mano!”, diz Ze Roberto para o oficial PM.

O estudo mostro isso seria verdade já que, segundo a agência, poder das facções já ultrapassa o muro dos presídios. Ex-detentos revelaram que a saída da unidade prisional é monitorada pelas facções, afirmando que membros que se recusam a voltar para o crime organizado, ou começam a ser membros assíduos de igrejas ou são mortos.

De acordo com a investigação, uma mulher que pertence atualmente ao regime semi-aberto identificada como Amanda* detalhou que as facções coagem pessoas assim que elas deixam o presídio. “Após o cumprimento das penas, a pessoa só consegue se afastar da facção se comprovar que se tornou frequentador assíduo da igreja evangélica. Caso contrário, ou ela volta para a facção ou é morta pelos membros”, revela ela.

Ainda segundo a denunciante, eles monitoram a vida da pessoa durante um determinado período. “É a única forma que eles permitem. Aí o que acontece, a pessoa entra num regime. ‘ah tu queres servir [servir à Deus]? Beleza, tu vais entrar no regime’. Eles passam a acompanhar aquela pessoa por um bom tempo, passam a verificar se ela está indo para a igreja mesmo, se ela mudou de vida, passam a visitar a casa dela, a fazer perguntas para os vizinhos”, comentou a ex-detenta.

Para Amanda*, hoje os presídios são comandados pelas facções. “A força é enorme. Eu vou te falar porque eu vi. Vou te falar por pessoas que estavam comigo na cela e eram [presas por] tráfico. Se o cara tá lá dentro e é [preso por] tráfico, ele tem um comandante aqui fora. Independente de ele estar preso, ele [o comando da facção] passa a ordem pela boca do advogado”, contou Amanda. Ela se classifica como uma exceção entre os presidiários por ter conseguido escapar da pressão das facções para o cometimento de crimes. “No masculino [pavilhões masculinos] é mais difícil [escapar da coação]”, relatou ela.

Durante o estudo, foi revelado ainda que as facções obrigam o detento a escolher um lado. “Por que se tu falas que tá neutro eles podem entender que tu estás do outro lado. A pessoa nem quer, mas é a forma de sobreviver no sistema”.

De acordo com a esposa de um detento do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), os agentes penitenciários também não ajudam lá dentro. “Eles juntam as facções no mesmo presídio e dizem para eles se matarem, que se eles [presos] não se matarem, quem vai matar são eles [agentes]”, disse a esposa –  que teme um novo massacre como o visto em 2019, quando 55 presos foram mortos em presídios no estado.

Presos durante rebelião em 2019 | Foto: Chico Batata/Divulgação

A Seap alegou, em nota, não haver “nenhum registro ou indício que agentes de ressocialização estimulem confronto criminoso” e que não compactua com atos contrários aos princípios do órgão. A instituição disse utilizar equipamentos avançados para atuar nos presídios e que trabalha no isolamento de lideranças criminosas. No ano de 2021, o Amazonas registrou a maior taxa de mortes violentas do país, com 36,8 vítimas para cada 100 mil habitantes, de acordo com dados do Monitor da Violência.