Estudo sobre a pandemia faz MPE alertar que relaxamento do distanciamento social pode causar mais mortes por Covid

O Ministério Público do Amazonas (MPE-AM) concluiu uma Nota Técnica na qual pelo menos nove pesquisadores apontam que o afrouxamento de medidas de distanciamento social, neste momento ou nas próximas quatro semanas, pode levar a um novo crescimento das infecções e óbitos por Covid-19 em Manaus, considerando o elevado número de pessoas contaminadas. (veja o documento no final da matéria)

“O trabalho desenvolvido pelos pesquisadores só confirma aquilo que o MPE-AM sempre defendeu, que é o isolamento social, ainda como medida necessária para preservação de vidas, para a tutela da saúde pública no nosso Estado. Lamentavelmente, o interior do Estado, sobretudo, vem demonstrando ainda, pelos números apresentados de contaminação e de óbitos, a necessidade do isolamento social. Eu sei que há uma discussão em torno da importância da retomada dessas atividades não essenciais por conta do desenvolvimento social e econômico do Estado mas, no momento, para o MPE-AM, é a preservação da vida que está em primeiro plano e é assim que o Ministério Público vai continuar trabalhando”, afirmou a procuradora-geral de Justiça, Leda Mara Nascimento Albuquerque, em texto divulgado pela assessoria de comunicação do MPE-AM.

A nota técnica foi assinada por nove pesquisadores, ligados a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e outras instituições de ensino e pesquisa, com formação em diversas áreas.

Os resultados das análises demonstraram que tanto o isolamento social ocasionado pelo fechamento do comércio, quanto a interrupção dos transportes intermunicipal e interestadual contribuíram para a redução dos casos e óbitos em Manaus.

Os pesquisadores afirmam que a reabertura dos comércios, igrejas e templos, prevista para 1º de junho, medida anunciada nesta quarta-feira pelo governador Wilson Lima, e a retomada dos transportes intermunicipais e interestaduais, podem causar um aumento no número de infectados e óbitos. Antes do anúncio à sociedade, o governador participou de uma videoconferência com representantes do Poder Legislativo e Judiciário. Na ocasião, a procuradora-geral de Justiça disse ser contrária a reabertura gradual do comércio e serviços não essenciais. 

Caso o número de óbitos e internações não diminuam expressivamente nestas quatro semanas, serão inevitáveis ações rigorosas como o lockdown, devido a necessidade de controle da pandemia.

Subnotificações das causas de óbitos

Na Nota Técnica, os pesquisadores afirmam, também, que existem indicações fortes de uma elevada taxa de subnotificação de óbitos decorrentes da Covid-19, com pelo menos metade do valor total tendo causa atribuída a outras doenças.

Os pesquisadores afirmam que os resultados da pesquisa mostraram um aumento significativo de óbitos na cidade de Manaus no mês de abril, com 2,6 mil óbitos registrados, cerca de 1,7 mil acima da média dos meses anteriores em 2020 e dos mesmos meses em 2019.

“A matemática é o estudo dos padrões. Se você tem um padrão que se repete milhares de vezes como numa pandemia, nós podemos estudá-lo. Uma vez que você tem parâmetros numéricos desses casos, você consegue montar um estudo para entender o que está acontecendo em larga escala. Por isso é importante a participação de um estudo como esse de profissionais de diversas áreas científicas”, afirmou o matemático Wilhelm Steinmetz, Doutor em Matemática (Université Paris/França) e chefe do Departamento de Matemática da UFAM, um dos autores da NT.

Sobre a suposta imunidade adquirida por pessoas que tenham contraído a doença, os dados estudados apontam que não existe, atualmente, uma imunidade de rebanho (efeito de proteção que surge em uma população quando uma percentagem alta de pessoas adquire imunidade mesmo sem ter tomado vacina).

Se nenhuma ação for tomada para conter o avanço da pandemia em Manaus, diz a NT, muitas vidas ainda serão perdidas, pois de 85% a 90% da população ainda é suscetível a COVID-19. “Nossos resultados indicam que entre 10 e 15% da população de Manaus contraíram o SARS-CoV-2, o que contrapõe pseudo-estudos que indicariam que a população estaria adquirindo imunidade de rebanho”, apontam os pesquisadores.

Testagem da população

Como medidas a serem adotadas, os cientistas apontam que a determinação das taxas de mortalidade e da proporção de infectados é de grande importância para a estimação dos parâmetros da epidemia, pois permitiria uma calibração mais precisa dos modelos epidemiológicos e sua utilização mais efetiva como instrumento de gestão de saúde pública. Os dados poderiam orientar as autoridades de saúde para a tomada de decisões quanto ao nível de isolamento que deveria seria buscado, ao número de leitos que seriam necessários, e ao investimento desejado em pessoal e equipamentos para conter a Covid-19 de forma mais eficiente.

“Neste exato momento, precisamos intensificar as medidas de prevenção. Enquanto isso, precisamos acompanhar a difusão do vírus através de uma testagem regular de população, com um método científico que considere, por exemplo, diferenças de renda, gênero, local de moradia, raça e etnia, dando atenção a populações mais vulneráveis como indígenas e pessoas encarceradas”, afirmou o cientista social da Ufam, doutor em Sociologia pela Unicamp, Fabio Magalhães Candotti, também autor da NT.

Os pesquiadores defendem que como medida unânime e geral, dada a ausência de medicamentos e vacinas para o controle da pandemia, o isolamento social é a única forma viável para conter o escalonamento progressivo de casos positivos, com agravo e mortes, e o colapso do sistema de saúde.

Leia a nota na íntegra.

(*) Com informações da assessoria do MPE-AM