EUA vão deixar um dos principais acordos que levaram ao fim da Guerra Fria

Os Estados Unidos anunciaram que deixarão neste fim de semana um dos principais acordos de desarmamento nuclear da história, o INF (sigla inglesa para Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário), assinado com a então União Soviética em 1987 e que foi um marco do fim da Guerra Fria.

A decisão política havia sido tomada pelo presidente Donald Trump no ano passado, quando ele acusou a Rússia, Estado sucessor do império comunista desmontado em 1991, de violar o acordo ao desenvolver um novo tipo de míssil de cruzeiro.

O anúncio foi feito durante um encontro de segurança nuclear em Pequim pela subsecretária de Estado para Controle de Armas, Andrea Thompson. Ela e o vice-premiê russo, Serguei Riabkov, se reuniram para discutir o ultimato americano dado à Rússia no fim do ano passado, que expirará no próximo dia 4.

Riabkov atacou a colega, dizendo que a Rússia não reconhecia o ultimato. “Eu concluo que os EUA não esperavam nenhuma decisão e que isso foi um jogo para encobrir sua decisão doméstica de deixar o INF”, afirmou à agência russa Sputnik.

Os EUA afirmam que a Rússia tem uma nova arma, o 9M729, que rompe as definições do tratado de 1987, que baniu a instalação em território europeu mísseis de cruzeiro com capacidade nuclear e alcance de 500 km a 5.500 km, lançados do solo.

Os russos dizem que seu míssil é lançado do ar ou de navios, não violando assim o tratado. Mísseis de cruzeiro são “inteligentes”, voando a velocidades subsônicas próximos do solo, desviando do terreno e sendo de difícil detecção por radares.

De uma forma ou de outra, o rompimento é importante politicamente, não do ponto de vista militar. O INF foi fundamental para restaurar alguma sensação de segurança na Europa, que era a linha de frente da Guerra Fria com forças da Otan lideradas pelos EUA posicionadas contra o colosso soviético e seus aliados comunistas do Pacto de Varsóvia.

No fim dos ano 1970, os soviéticos desenvolveram um pesadelo para as populações europeias, o míssil SS-20, de alcance intermediário, que atingiria facilmente as capitais pró-EUA do continente. A resposta dos EUA foi o anúncio da instalação de armas semelhantes, os Pershing-2, o que quase levou a uma guerra de fato no tenso ano de 1983. Eles eram armas balísticas, não de cruzeiro.

O INF levou à eliminação de 1.846 ogivas soviéticas e 846 americanas até 1991. Na prática, contudo, os dois países seguiram desenvolvendo armas com capacidades análogas às dos mísseis proibidos. Não só eles: vários países, incluindo a potência nuclear China, operam tais foguetes.

O próximo passo de Trump deve ser a não renovação do Novo Start, tratado importante de redução de mísseis balísticos intercontinentais, que transportam ogivas nucleares. O acordo para limitar as principais e mais poderosas armas atômicas do mundo foi assinado em 2010, dando sequência a dois acertos similares, e vence em 2021.

Com tudo isso, o presidente russo, Vladimir Putin, acusou os EUA no fim do ano passado de colocar o mundo em um ambiente semelhante ao da Guerra Fria, com um risco mais elevado de um conflito nuclear.

De fato, a administração Trump reformulou sua política de emprego de armas atômicas, na prática facilitando seu uso. A primeira medida prática já ocorreu: nesta semana começaram a ser produzidas as ogivas W76-2, que possuem baixa potência – apenas 5 kilotons, um terço da bomba de Hiroshima.

Os americanos alegam que isso reduziria o impacto do uso da arma, que ficaria centrada em alvos como tropas ou centros de controle. Por outro lado, porém, especialistas argumentam que isso significa admitir o uso de armas nucleares com mais facilidade, e a escalada no confronto com outra potência atômica é evidente: você começa com 5 kilotons e logo estará trocando fogo de 5 megatons.

Contra Putin há a acusação de que ele já havia dado os passos americanos antes, ao revisar sua doutrina nuclear em 2009. De todo modo, concorda com ele o prestigioso Boletim dos Cientistas Atômicos, organização americana que todo ano desde 1947 acerta os ponteiros do Relógio do Juízo Final em janeiro.

Criado para alertar o mundo sobre o risco da extinção por uma guerra nuclear, neste século o relógio adicionou aos fatores apocalípticos a mudança climática. Na semana passada, ele foi mantido na nada confortável posição de dois minutos para meia-noite, o horário simbólico do fim do mundo.
Um dos motivos para tanto é justamente a renovada tensão nuclear entre EUA e Rússia, países que detêm 92% das cerca de 14,5 mil ogivas atômicas do mundo.