Ex-presidentes voltam à cena em meio a crises sob Bolsonaro e debate de 2022

Roberto Stuckert Filho/Reuters

Os seis ex-presidentes da República vivos têm muitas diferenças entre si e evocam períodos distintos do Brasil pós-redemocratização, mas convergem em um aspecto: não saem do debate político nacional nem do noticiário.

A preservação dessa relevância reflete características históricas brasileiras, mas se acentuou nos últimos três anos em razão da balbúrdia institucional e das fissuras democráticas abertas pelo atual titular do Executivo, Jair Bolsonaro (PL).

Diante da sucessão de crises, antigos ocupantes do Palácio do Planalto têm sido convocados para apagar incêndios -como no acordo de pacificação costurado por Michel Temer (MDB) após o 7 de Setembro- ou se apresentado para concorrer de novo -caso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Analistas e acadêmicos ouvidos pela Folha relacionam o protagonismo inédito dos ex-presidentes à época atípica que se vive sob Bolsonaro, mas também dizem se tratar de uma consequência natural do espaço que a figura do presidente ocupa no imaginário nacional, com o sistema presidencialista.

Pesam ainda fatores como a continuidade da carreira eleitoral mesmo após a saída da Presidência, casos de Fernando Collor de Mello (PROS), que é senador, e de José Sarney (MDB), que frequentou por 60 anos os espaços de poder e só há seis anos se recolheu, ao sair do Senado.

Collor e Sarney ainda mantêm capital político regional e por isso são cortejados em fases pré-eleições. O primeiro, eternamente marcado pelo processo de impeachment que o derrubou em 1992, ganhou proximidade com Bolsonaro, trocando conselhos e elogios mútuos.

Já o segundo, que chefiou o primeiro governo civil após a ditadura militar (1964-1985), foi procurado pelo atual mandatário, mas também por Lula, que busca apoio de setores do MDB à sua campanha –o petista lidera a disputa para 2022.

Em seu périplo de pré-candidato, Lula conversou ainda com Fernando Henrique Cardoso (PSDB), encontro que gerou uma célebre foto em maio. FHC depois precisou explicar que se tratou de um encontro cordial e que apoiaria o presidenciável tucano –em novembro o partido escolheu João Doria.

Dilma Rousseff (PT) vira e mexe retorna à cena para revelar mágoas com o processo de impeachment que a tirou do Planalto em 2016 e fazer a defesa de políticas de seu governo, constantemente atacado por legados de inflação e desemprego que têm ecos até os dias atuais.

Dos presidentes que assumiram após a reinstalação da democracia, só Itamar Franco (1992-1994) morreu, em 2011.

“Ver vários desses ex-presidentes se unindo de alguma maneira para ressoar mensagens de defesa da Constituição é uma prova inequívoca de que nunca a democracia esteve tão em risco quanto no governo Bolsonaro”, diz o cientista político Fernando Abrucio.

Para o professor da FGV-SP, o atual mandatário “não é um presidente qualquer” e age como “fator desestruturador” da teia institucional. Com isso, afirma, foi preciso recorrer a líderes políticos que, tendo se desvencilhado da Operação Lava Jato, sobreviveram às intempéries.

Ao comparar a situação com a dos Estados Unidos, onde tradicionalmente ex-presidentes adotam perfil mais discreto após passarem pela Casa Branca, Abrucio lembra que em 2020 Bill Clinton, Barack Obama e George W. Bush endossaram críticas a Donald Trump e seus seguidores.

“Bolsonaro e Trump são parte desse populismo de extrema direita que está colocando democracias em risco”, afirma o docente.

A antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz diz que, como o Brasil atravessa “um momento de crise da imagem do presidente”, com os arroubos de Bolsonaro e sua má gestão da pandemia, “antigos chefes políticos são enxergados sob novas lentes”.

“Como a política é também um espaço do imaginário, essas figuras voltam com mais força, às vezes até superior à que tiveram nos seus próprios contextos”, avalia a professora da USP e da Universidade Princeton (EUA).

Para Lilia, o debate fundamental é sobre os personalismos que marcam a política brasileira. “Por termos instituições políticas, inclusive partidos, mais fracas e menos consolidadas, o presidente não é um representante do seu partido ou do grupo a que dá voz, mas de si mesmo.”

“Nosso regime dá importância extrema à figura do presidente. Quando estudei dom Pedro 2º, no livro ‘As Barbas do Imperador’, destaquei essa ideia de que não só damos um espaço de muito poder ao presidente, como também, historicamente, reservamos esse lugar simbólico do pai”, ressalta.

A historiadora diz que essa combinação acaba fortalecendo ex-presidentes no pós-mandato.

“A maneira como nós traduzimos a figura do presidente, colocando-o mais próximo da aura do imperador, é determinante. Por isso eu acho que alguns dos ex-presidentes resistem no tempo, inclusive de maneira discrepante com a sua real importância”, observa, sem citar nomes.

Segundo Lilia, o correr da história permite também que fatos e reputações possam ser “vistos sob outras luzes e interpretações”.

A visibilidade de Dilma e Lula, exemplifica a pesquisadora, é beneficiada pelo ambiente geral de revisão crítica da Lava Jato e do direcionamento do aparato jurídico contra o PT, que impulsionaram o impeachment da presidente e a retirada do petista das eleições de 2018.

A cineasta Carla Camurati, que se debruçou sobre o pós-redemocratização para dirigir o documentário “8 Presidentes 1 Juramento”, diz que a tendência de parte do eleitorado de vincular o ocupante da cadeira ao lugar de pai ou herói deveria ser substituída por uma visão mais crítica.

“Menos emoção e um pouco mais de razão nos ajudariam a enxergar melhor esse posto”, afirma a diretora do filme recém-lançado.

Carla conta que, ao assistir a mais de 1.500 horas de gravações, encontrou disparidades entre os mandatos, mas muitas semelhanças. “Essa coisa sistêmica do centrão em todos os governos é algo impressionante. É um elemento comum, sempre na mesma situação.”

Apesar das críticas, ela diz que uma ala dos ex-governantes tem sido útil para manter de pé “a nossa democracia tão jovem, ainda em construção”.

“De alguma maneira, quem passou por aquele caminho e sabe como as coisas são feitas acaba se sentindo na obrigação de interferir, falar, se pronunciar. Porque o que a gente está vivendo é totalmente fora da curva, né? Faz três anos que vivemos dificuldades, muitas delas causadas por nós mesmos, como país.”

E completa, sem personificar a análise: “Acho que eles [ex-mandatários] buscam de alguma maneira não deixar que a gente perca um equilíbrio mínimo, que a gente não ande para trás em excesso”.

Com a experiência de quem vive o dia a dia de Brasília há 40 anos, o cientista político e consultor Murillo de Aragão diz que é difícil padronizar o papel dos ex-presidentes, embora aqueles sem atividades muito significativas fora da Presidência tendam a prosseguir embrenhados na política.

“FHC e Temer são exemplos daqueles que têm carreiras para além do cargo, enquanto Lula, Sarney e Collor se mantêm na vida partidária direta e abdicam de certa forma do protagonismo ligado exclusivamente à credencial de ter sido líder da nação. Lula, inclusive, quer voltar”, avalia.

Professor-adjunto na Columbia University, onde dá aulas sobre a política latino-americana, Aragão afirma que a diferença do Brasil para os Estados Unidos é que lá “ser ex-presidente é uma atividade que remunera muito bem”, com a venda de livros, palestras e outras atividades.

“No Brasil, uma parte deles termina voltando para o jogo eleitoral, o que dificulta uma demonstração de maior institucionalidade, acima das disputas partidárias. Esses momentos acabam ficando restritos a situações ou interesses específicos, enquanto, na verdade, deveriam ser a tônica”, opina.

Nas discussões em torno de 2022, além da participação direta ou indireta de ex-presidentes vivos, está em voga também o resgate do nome de líderes nacionais já mortos, como Getulio Vargas (que teve dois mandatos, 1930-1945 e 1951-1954) e Juscelino Kubitschek (1956-1961).

Filiados do PT conjecturam, em diálogos internos, que um eventual retorno de Lula -depois de ter sido condenado e preso em meio ao declínio de seu partido- seria equivalente à volta de Vargas à Presidência em 1951, após o isolamento político que sobreveio com a deposição no primeiro mandato.

Vargas também é lembrança recorrente na campanha de Ciro Gomes, marcada pela retórica trabalhista que compõe o DNA do PDT. Ciro o considera o maior líder brasileiro do século 20 e faz referências a ele ao defender o crescimento econômico e o combate à desigualdade.

JK vem aparecendo em discursos do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que ensaia uma candidatura ao Planalto. A comparação, baseada no fato de que ambos fizeram carreira em Minas Gerais, é explorada por entusiastas, que recorrem aos motes de conciliação e equilíbrio.

“É um chavão, mas as situações nunca se repetem exatamente como foram”, comenta a historiadora Lilia. “Contextos e seus entornos se diferem muito. São comparações menos no âmbito de projetos e mais na chave do personalismo.”

Ex-presidentes da República vivos José Sarney, 91
(1985-1990)
Sem mandato desde 2015, é filiado ao MDB e foi procurado nos últimos meses tanto por Bolsonaro quanto por Lula, que sondaram seu apoio. Assumiu a Presidência em virtude da morte de Tancredo Neves (1910-1985), que morreu antes de tomar posse

Fernando Collor de Mello, 72
(1990-1992)
Senador pelo PROS-AL, tem mandato até 2023 e se aproximou de Bolsonaro em suas movimentações para tentar se reeleger. Alvo de impeachment, renunciou em 1992, foi substituído por Itamar Franco (1930-2011) e voltou a disputar eleições em 2002

Fernando Henrique Cardoso, 90
(1995-2002)
Fora das corridas eleitorais desde que deixou o Planalto, é presidente de honra do PSDB e teve seu apoio disputado nas prévias para escolha do candidato presidencial. Mantém agenda de entrevistas e palestras, sobretudo na fundação que leva seu nome

Luiz Inácio Lula da Silva, 76
(2003-2010)
Viveu certa reclusão após deixar o cargo, mas voltou a aparecer com a crise de sua sucessora. O petista foi preso pela Operação Lava Jato, mas teve as condenações anuladas na Justiça, reabilitou-se eleitoralmente e pode retornar à cadeira em 2023

Dilma Rousseff, 74
(2011-2016)
Após o impeachment, tentou se eleger senadora pelo PT em Minas Gerais em 2018, mas saiu derrotada. Ressurge no debate público sempre que vê chance de rebater o processo que a vitimizou e de defender políticas econômicas e sociais de sua gestão

Michel Temer, 81
(2016-2018)
Após a passagem pelo posto deixado por Dilma, o líder tradicional do MDB manteve as articulações políticas nos bastidores, chegou a ser preso pela Lava Jato e ganhou prestígio ao mediar o acordo de pacificação que salvou Bolsonaro pós-7 de Setembro