Exame em motorista de caçamba foi feito no Pará porque no Amazonas cromatógrafo de meio milhão está encaixotado há cinco anos

cromatógrafo

O aparelho da foto é semelhante ao que está parado há cinco anos na perícia do Amazonas

Peritos do Instituto de Criminalística do Amazonas denunciaram, neste sábado (19) ao Radar que o exame toxicológico que determinou a presença de álcool e cocaína na urina do motorista da caçamba, Ozaías Costa de Almeida, 36 anos, que perdeu o controle do veículo e se chocou com micro-ônibus, ocasionando a morte de 15 pessoas, foi realizado no Pará, porque um aparelho denominado cromatógrafo a gás, que há cinco anos foi entregue pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) ao Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Amazonas, está sem uso por falta de instalação. O equipamento custa R$ 500 mil, enquanto a instalação a gás para funcionamento do cromatógrafo custa pouco mais de R$ 3 mil – conforme um dos orçamentos para instalação do equipamento ao qual eles tiveram acesso.

A denúncia fica ainda mais séria quando eles contam que esse exame apenas foi realizado devido à repercussão do acidente junto à opinião pública, com grande pressão popular para que fossem apuradas as responsabilidades para a tragédia. “Mas, em cinco anos, quantas pessoas não morreram em acidentes de trânsito que poderiam ser seu irmão, seu pai, seu filho, cidadãos do Amazonas, e o exame que poderia apontar o culpado não foi realizado por falta da mera instalação de um equipamento?”, questionam os peritos, explicando ainda que o cromatógrafo detecta não só substâncias como álcool e cocaína, mas várias outras substâncias que indicam, por exemplo, se uma pessoa foi envenenada.

Ilegalidade do Instituto

Segundo os peritos, o problema da falta de estrutura no Instituto de Criminalística do Estado, onde a impossibilidade de um gasto de apenas R$ 3 mil reais impede a instalação de um equipamento de R$ 500 mil, estaria ligada diretamente a falta de autonomia do órgão que não possui orçamento nem para pequenos gastos e, vão além ao dizerem que, inclusive, o Instituto de Criminalística está atuando ilegalmente. “O artigo 3°, da Lei n° 2875/2004, que instituiu o Plano de Cargos, Carreiras e Remunerações dos Servidores da Polícia Civil do Estado do Amazonas determina que o Instituto de Criminalística seja dirigido por um perito, coisa que não é”, diz um dos peritos, acrescentando ainda que o sindicato da categoria inclusive já entrou com ação na Justiça na tentativa de mudar essa situação. “Não temos nada contra sermos subordinados à Polícia Civil. Temos orgulho da instituição, mas nada melhor do que um perito para entender o que é necessário para desenvolvermos o nosso trabalho”.

Ele acredita que um perito na direção do instituto, assim como repasse de recursos,   evitariam que faltassem coisas básicas para o órgão. “Se tivéssemos autonomia, se tivéssemos condições, se tivéssemos orçamento, não ficaríamos implorando por uma impressora colorida, ou até mesmo por cartucho de tinta para essas impressoras. Você já imaginou o que é ter que expedir um laudo de um homicídio, em preto e branco, por não ter cartucho de tinta colorida? Não dá pra identificar determinados detalhes de um crime em preto e branco. Isso é uma vergonha”, desabafa o perito.

Ele comenta que, quanto a material humano a perícia do Amazonas está muito bem servida. “Temos peritos pós-graduados, que não ficam nada a dever para as principais perícias de grandes universidades do País. Temos peritos que fizeram curso no CSI (Crime Scene Investigation), nos estados Unidos. Já elucidamos crimes por baganas de cigarro, onde identificamos que tinham duas mulheres na cena do crime. Já elucidamos crime por comparação balística, determinando que a bala saiu daquele determinado revólver. Se com tão pouca estrutura conseguimos tantos resultados, que dirá se nos derem condições de trabalhar. É o perito que dá voz a que sofreu uma violência, a quem já não pode falar porque está morto. Qualquer pessoa poderia me responder: “Tem crime mais importante a ser resolvido do que crime contra a vida? Então, como não fazer isso por falta de um simples cartucho de tinta?”, questiona. (Any Margareth)