Fake news bolsonaristas nas igrejas são ‘coisa do diabo’, diz pastor

Expoente de esquerda no segmento diz haver bolha de produção de mentira que está pegando líderes

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O pastor Ariovaldo Ramos, da Comunidade Cristã Reformada – Bruno Santos – 7.mai.2018/ Folhapress

Não são só os “pastores falastrões”, não. Tem muito líder evangélico sério cooptado pela rede de fake news que ajudou a emplacar Jair Bolsonaro (PL) em 2018 e que fará de tudo para reelegê-lo em 2022.

A avaliação, em tom de alerta, é de uma das maiores vozes à esquerda no segmento.

“Nós, pentecostais, diríamos de alma rasgada: é coisa do diabo, de espírito maligno, igual o nazismo foi na Alemanha. Uma possessão coletiva. Esse é o poder da fake news. Aí tem o cara que vai se levantar e ser ouvido por milhares, e ele tá preso dentro de uma bolha”, disse o pastor Ariovaldo Ramos.

Ele participou de debate sobre o combate a notícias falsas no meio evangélico, realizado na noite de segunda-feira (30), no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em parceria com o Instituto Lula.

A fala do bispo parte de uma experiência pessoal.

Ramos contou que participou de um programa de rádio sobre a possibilidade de um cristão ser de esquerda, hipótese negada por igrejas como a Universal (que já apoiou o PT no passado).

Depois de afirmar o “óbvio ululante”, que claro que era possível, dado que ele é evangélico e progressista, foi almoçar com pastores que conhece há tempos. Lá estava o cabeça de uma ala importante da Assembleia de Deus, que lidera milhares de fiéis.

Sem revelar nomes, ele disse que o colega lhe garantiu que Bolsonaro ganharia de Lula (PT) no primeiro turno. Hoje, todas as pesquisas eleitorais relevantes apontam uma boa dianteira do petista sobre o presidente.

Uma coisa é “quando isso é dito por um falastrão que todo mundo conhece”, afirmou Ramos, de novo sem nomear desafetos. “Mas quando você ouve de um cara que você pessoalmente conhece, conhece a força moral dele, aí você dá um passo pra trás e diz: ‘Jesus, essa briga é mais feia do que eu esperava’.”

“O que nós estamos enfrentando é uma bolha de produção de mentira que está pegando grandes líderes”, continuou o pastor da Comunidade Cristã Reformada, que coordena ainda a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Duas figuras da proa petista, Gilberto Carvalho (que comanda as agendas de Lula na campanha) e Paulo Okamotto (presidente do Instituto Lula), estavam na mesa quando Ramos disse que “nossos companheiros de esquerda” não são capazes de travar essa luta contra distorções e inverdades que levam muitos evangélicos a torcer o nariz para o pré-candidato do PT.

Para o pastor, o campo progressista teve pouquíssima disposição para entender o segmento no passado. Não entendeu nada quando Karl Marx disse que a religião é o ópio do povo, diz. “Não é religião por si, e sim o uso que se faz dela.”

Agora, a esquerda tem que digerir a proporção que esse bloco cristão ganhou. Evangélicos, afinal, eram menos de 10% da população quando o Brasil voltou a votar para presidente, no pós-ditadura militar. Triplicaram de lá para cá.

“Nossos companheiros de esquerda não vão conseguir fazer, eles ainda estão assustados com o tamanho do negócio. Estão aprendendo agora, vai levar tempo. Nós que temos que fazer, irmãos.”

Magali Cunha, a outra debatedora, começou sua participação explicando como funciona o Coletivo Bereia, que ajudou a fundar. Trata-se de uma agência de checagem de notícias, com um diferencial: só confere o noticiário religioso, que transita sobretudo por sites gospel e mídias digitais.

O Bereia, recentemente, classificou como enganoso um conteúdo viral que mostrava um suposto casal fazendo sexo numa igreja, para ser abençoado com a fertilidade (na verdade eram duas mulheres, e uma se deitou sobre a outra por acreditar que isso lhe transferiria saúde, já que a fiel se queixava de dores nas costas).

Em compensação, algumas notícias que de tão absurdas pareceriam falsas são enquadradas como verdadeiras, disse Cunha. Caso da igreja que anunciou uma rifa de espingarda para investir em um ministério infantil.

Bereia é o nome de uma cidade, que hoje ficaria na Grécia, por onde o apóstolo Paulo passou, conforme a Bíblia. Os bereianos tinham o costume de recorrer às escrituras antigas para conferir se as pregações do apóstolo eram verdadeiras.

Daí o nome do coletivo contemporâneo, fundado após uma pesquisa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) revelar que a circulação de fake news no WhatsApp era particularmente alta entre grupos religiosos. Boa parte era de materiais falsos sobre saúde, como curas milagrosas.

O estudo, ela frisou, precede a pandemia da Covid-19 e a eleição de Bolsonaro. Ali já se detectava que evangélicos “eram não só alvo, mas veículo propagador” de inverdades.

Mentiras existem desde o livro um da Bíblia, Gênesis, mas “nos últimos tempos isso está mais evidente por causa deste aparelhinho que todo mundo tem na mão”, afirmou Cunha, segurando um celular. “Vai como rastro de pólvora.”

Fake news colam nas igrejas por mexerem com a emoção, o que faz com que o fiel pratique o que Wilson Gomes, professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e colunista da Folha, chama de tráfico de conteúdo falso.

Cunha contou que, certa vez, seu marido, um professor universitário, alertou uma aluna que ela tinha propagado uma lorota viral. “Ela respondeu: ‘Professor, sei que é mentira, mas as pessoas precisam saber disso’. Não dá pra dizer que quem passa inverdades é pobre, não estudou. Existe esse preconceito.”

Cunha também apontou o que vê como fake news estruturais sobre o segmento do qual faz parte. A ideia de que existe cristofobia no Brasil, onde há plena liberdade de culto para evangélicos e no máximo “casos pontuais de intolerância”, é uma delas.

Outra: a de que existe porta-voz desse nicho religioso. “Pastor X, pastor Y, alguém que diga ‘evangélicos falam assim’.”

A Igreja Católica tem papa, no Brasil existe a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Não há nada parecido para evangélicos, então chega dessa história de líderes cravando que o crente de verdade é assim ou assado, afirmou Cunha. Ela lançou no evento o livro “Evangélicos na Política Brasileira”.

Os representantes do PT na conversa mais ouviram do que falaram. Gilberto Carvalho disse que naquele dia mesmo havia conversado com Lula sobre a forma como ele vai se dirigir aos evangélicos na campanha, para quebrar “o muro que construíram falsamente entre nós”.

O ex-presidente, afirmou seu assecla, “está totalmente convencido dessa importância”. Na plateia estava Paulo Marcelo Schallenberger, pastor pentecostal encarregado de tentar derrubar a tal muralha entre PT e a parcela religiosa que mais cresce no país.