Anúncio

Fila da morte continua: cerca de 150 pacientes renais crônicos morreram esse ano

Quem pensou que a chamada “fila da morte” dos pacientes renais crônicos da época do ex-governador José Melo tinha chegado ao fim, se enganou redondamente. As notícias que chegaram ao Radar são alarmantes e dão conta que os problemas enfrentados pelos pacientes renais crônicos para receberem tratamento de saúde pública no Estado continuam. Segundo levantamento da Associação dos Pacientes Renais Crônicos do Amazonas (Arcam), de janeiro a junho deste ano, só no Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto, cerca de 80 pacientes que faziam sessões de hemodiálise já morreram. Juntando isso aos pacientes que fazem o mesmo procedimento no hospitais Platão de Araújo e João Lúcio, esse número sobe para 150 pessoas.

A presidente da entidade, Renata Carvalho conta que pelo menos 2.650 pessoas em todo o Estado precisam do tratamento para sobreviver e afirma que a chamada “fila da morte” ainda é realidade para esses pacientes. “A situação desde o governo de Melo está terrível e só piorou quando o Hospital Getúlio Vargas paralisou a hemodiálise devido a contaminação no sistema de água do local, em outubro do ano passado”, lamentou.

Um dos problemas mais graves enfrentados por pacientes com problemas renais é a dificuldade de realizar o procedimento de hemodiálise. Atualmente a Clínica Renal em Manaus atende 250 pacientes crônicos e a direção não quis renovar o contrato com o Estado para ampliar o número de atendimento. Também existem cinco clínicas particulares que prestam serviços para o SUS (Sistema Único de Saúde), nas quais são atendidas pelo menos, 2.200 pessoas.

“Mas como a demanda é cada vez maior, sobram cerca de 200 pessoas que dependem dos três prontos socorros para atendimentos emergenciais ou enfrentam a fila da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), onde só conseguem atendimento contínuo quando, infelizmente, morre um paciente nessas clínicas”, disse.

Hoje no HPS 28 de Agosto existem apenas 2 (duas) máquinas para o procedimento, sendo uma para uso exclusivo da UTI do hospital e outra fica para dialisar uma quantidade enorme de pacientes. Já o Platão Araújo e o João Lúcio não funcionam 24 horas por dia, o que aumenta a demanda em outras unidades de saúde. Com isso, muitos pacientes realizam as sessões uma vez a cada 15 dias, quando o certo seria fazer três sessões na semana, cada uma com 4h.

Para tentar buscar uma solução para o problema, houve várias tentativas de marcar reuniões por parte da associação com o secretário de Estado da Saúde, o médico Francisco Deodato, mas sem sucesso, contou Renata Carvalho. O Radar bem sabe disso, já que inúmeras vezes tentou falar com o gestor da pasta mas a assessoria de comunicação diz que não é possível e que a Susam só responde questionamentos por e-mail.

Diante da situação alarmante dos pacientes renais, a própria entidade tem encaminhado casos para a Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM) ou para o Ministério Público Estadual (MPE-AM). “Infelizmente só através da Justiça muitos doentes têm conseguido realizar o procedimento contínuo e adequado, senão morrem”, sentencia Renata.

Defensoria Pública

O defensor público titular da Defensoria Especializada em Saúde, Arlindo Gonçalves confirmou que nos últimos anos, tem aumentado a demanda de sentenças obrigando a Susam a oferecer a pacientes com insuficiência renal crônica, a realização de sessões de hemodiálise. “Mas infelizmente há casos que a pessoa vem a óbito sem conseguir o atendimento, devido a demora do Estado em atender a decisão”, afirma.

Para ele, o ideal é que a Justiça determinasse de imediato a diálise na rede privada. “Não estamos tratando mercadorias, isso pode fazer a diferença entre a vida e a morte do paciente”. Essa avaliação é na esfera individual, já na coletiva, o aumento da oferta de vagas nos hospitais e clínicas reduziria o número alarmante de mortes no Estado.

Além da dificuldade de realizarem o procedimento de hemodiálise, os pacientes enfrentam sérios problemas referente aos transplantados. “O Acre e Ceará fazem transplantes e o Amazonas deixou de fazer há anos, devido dívidas de contratos contraídas em gestões passadas. Já foi visto a possibilidade do Hospital Delphina Aziz fazê-la por possuir uma estrutura moderna, mas até agora nada. O fato é que o Amazonas deveria investir mais de 20% do dinheiro do Estado para a saúde e precisa ser visto com o que está sendo gasto esse recurso, porque muitas pessoas estão morrendo”, finalizou Arlindo Gonçalves.

Resposta da Susam ao Radar

A Susam informa que, ao assumir, em outubro do ano passado, a atual gestão identificou, por meio de diagnóstico, a precariedade no atendimento ao paciente renal crônico na rede pública de saúde, com aumento progressivo no número de pacientes na fila da diálise. Com base nesse diagnóstico, foi elaborado o Plano Estadual de Atenção ao Paciente com Doença Renal Crônica, já em fase de implementação, após aprovação pela Comissão Interventora Bipartite (CIB) .

O Plano está sendo desenvolvido em três frentes – 1. A implantação, até setembro, de dois ambulatórios pré-dialíticos, para acompanhamento dos primeiros estágios das doenças renais crônicas, antes que evoluam para a fase crítica que necessita de diálise ou transplante; 2. Aumento da oferta de diálise, com o lançamento de edital para contratar novos serviços e ampliar a oferta de hemodiálise, assim como a aprovação de recursos estaduais para aumentar, na rede de saúde, a oferta de diálise peritoneal (processo que não usa máquina); 3. Recente credenciamento, junto ao Ministério da Saúde, do Hospital da Zona Norte para realizar transplantes de rins, que estão suspenso no Estado desde 2016. Todas estas ações devem estar totalmente concluídas neste semestre.

O Plano Estadual de Atenção ao Paciente com Doença Renal Crônica também prevê a contrapartida dos municípios no fortalecimento da atenção básica para melhorar a assistência ao paciente hipertenso e diabético, garantindo, dessa forma, o retardamento de complicações renais.