Gêmeos de Jutaí: médico quebra o silêncio, contesta Susam, e revela ao Radar uma rotina exaustiva pra fazer medicina no interior

Bebê Pet 4

“As pessoas não entendem a realidade na saúde do interior, quem não trabalha na saúde desconhece as dificuldades, fazemos aqui de tudo para salvar vidas, mesmo sabendo que nada é tão comum e fácil”. Essa declaração é do diretor do Hospital de Jutaí, enfermeiro Miriney de Oliveira, com quem o Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam) conseguiu contato, após várias tentativas em falar com os médicos que trabalham no município. O diretor disse ainda que ficou satisfeito com as declarações dadas pelo presidente do Simeam sobre a real situação da saúde no interior do Estado.

Um problema hospitalar que ocorreu em Jutaí tomou conta inclusive do noticiário nacional quando o médico usou garrafas pet em dois bebês gêmeos no lugar de máscaras de oxigênio porque o hospital não tinha, um dos bebês morreu. O médico Alailson Ferreira, responsável pelo procedimento nos bebês gêmeos de Jutaí quebrou o silêncio, na tarde desta quarta-feira 03), e falou sobre as dificuldades de se fazer saúde no interior do Amazonas “Eu nunca imaginei que essas máscaras improvisadas seriam noticiário no Brasil inteiro, é comum no interior trabalharmos em condições que temos que improvisar para salvar vidas, e o que for preciso nós faremos” afirmou o médico.

Ele afirmou que as máscaras feitas com PET foram o melhor procedimento para que pudesse estabilizar a o quadro dos bebês “As máscaras de Venturi são como capacetes e precisam dar suporte de oxigênio em um espaço reduzido para que fosse oxigenado corretamente o pulmão dos recém-nascidos, essa foi a melhor conduta que tomamos para tentar estabilizar e salvar a vida dos bebês, infelizmente um deles não resistiu, mas salvou a vida do outro” declarou Alailson.

O médico contestou ainda a informação lançada em nota pela Secretaria de Saúde do Amazonas (Susam) de falta de pedido de remoção “O apoio aeromédico foi solicitado mas a nossa prioridade era estabilizar o quadro daqueles bebês, a transferência deles tanto por balsa ou por aeronave seria prejudicial e poderíamos ter perdido os dois no transporte até a capital” afirmou o médico.

Alailson disse ainda que o Hospital de Jutaí possui sim uma incubadora para recepção de recém nascidos prematuros mas que, há anos, estão aguardando uma resposta para a solicitação da ida de um técnico para instalação do equipamento e esse serviço nunca foi prestado ao Hospital “Desde a gestão da outra diretora que solicitamos um técnico para instalação da incubadora, esse novo diretor já está um tempo a frente do Hospital e também vem solicitando o mesmo serviço e nunca foi atendido” denunciou o médico.

Ainda sobre o serviço de remoção, o médico afirma que por muitas vezes solicitou em casos críticos a transferência de pacientes para a capital e a resposta da secretaria era de impossibilidade “Em alguns casos cheguei a pegar o telefone e perguntar porque a remoção não viria e a resposta era de que tinham pacientes de Tabatinga e São Gabriel para serem removidos. Uma das vezes questionei se o interior do Amazonas era formado apenas por esses dois municípios porque a desculpa era sempre a mesma, e apelei dizendo que meus pacientes estavam morrendo e eu precisava da remoção deles” lamentou  Alailson.

Alailson também se queixou que para transferir um paciente em qualquer interior a equipe do município precisa ter garantido um leito no Hospital de Manaus e essa é uma das maiores dificuldades enfrentadas também nesse contexto “Os hospitais deviam ter leitos reservados para as transferências do interior, conseguir um leito já é difícil, imagina a essa distância e com toda essa dificuldade de comunicação” complementou o médico que salientou a exaustão que é fazer saúde no interior do estado do Amazonas com essas condições.

Simeam

A assessoria de comunicação do Simeam informou que após as declarações do presidente da entidade à imprensa recebeu algumas ligações de médicos que trabalham no interior do Amazonas se queixando das condições precárias dos Hospitais nos municípios e parabenizando a conduta do profissional de Jutaí em busca de salvar a vida dos bebês.

O presidente do Simeam, Dr. Mario Vianna, rebateu ainda as críticas feitas pelo Governador, José Melo “A telemedicina não funciona nos interiores como deveria por conta da falta de acesso à internet que é deficitária nos municípios, assim como a comunicação por telefone celular também é deficitária e sabemos que o transporte aeromédico também está passando por dificuldades pois o Estado se encontra em débito com a empresa contratada que está sem repasse há meses dos valores contratados” afirmou Mario.

O médico de Jutaí reforçou a informação do presidente do Sindicato informando que o serviço de telemedicina não funciona para esse tipo de serviço “A telemedicina não funciona para urgência, quando conseguimos que ela funcione por falta de internet é para questões de laudos e diagnósticos” concluiu Alailson.