Governador faz marketing com a combalida saúde do povo e Judiciário rouba a cena

Em pleno feriadão de Carnaval e em meio ao sofrimento do povo com o caos na saúde pública, o governador Wilson Lima (PSC) decidiu fazer marketing pessoal fazendo visitas ao Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio, Hospital Platão Bezerra de Araújo e Hospital da Criança, na zona Leste, acompanhado do vice-governador e secretário de Saúde, Carlos Almeida (PRTB). A dupla fez pose pras fotos e barulho em parte da imprensa, garantindo à população que o abastecimento de medicamentos e insumos estava normalizado – isso dá manchete em A Crítica. Mas, quem roubou a cena durante o feriadão, obrigando o Governo a dar atendimento de saúde a uma paciente de 63 anos que está correndo risco de vida foi um dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) – isso não dá manchete em A Crítica.

As notícias sobre as visitas tomaram conta das redes sociais do governador e até dos sites da Susam e do Governo – e os textos acabaram deixando claro exatamente o contrário do midiático governador: os hospitais e unidades de Saúde do Amazonas não têm medicamentos e insumos suficientes para atender à demanda. Esse cenário de caos é fácil de ser constatado até mesmo pelas “falas” de Wilson Lima nos textos distribuídos pela Secretaria de Comunicação do Estado (Secom).

Em trecho de um texto distribuído pela Secom, no último domingo (3), a Secretaria diz que durante a visita ao João Lúcio, “o governador identificou a necessidade de melhorar o abastecimento de insumos na unidade”. Como jornalista Wilson Lima deveria saber que não dá pra fazer marketing com a necessidade de melhorar o abastecimento de medicamento, algo que vem sendo repetido desde a época em que era candidato ao Governo e que a tal comissão de transição disse que “diagnosticou” e iria apontar solução para o problema. Agora resta apenas parar com o ‘lari lari’, o ‘nhem nhem nhem’ e a conversa fiada e resolver o problema, simples assim.

Diz Wilson Lima, na matéria divulgada pelo Governo: “Todo mundo sabe que recebemos um passivo muito grande na área de saúde – lá vem o óbvio ululante de novo! O João Lúcio é referência nessa área da cidade – algo que Deus e todo mundo sabe! Algumas situações foram constatadas, em especial o abastecimento de medicamentos que ainda precisa melhorar, e estamos trabalhando para garantir que não haja falta de itens essenciais – vão ficar apenas na “garantia” que vão resolver, até quando governador ?”.

Já na visita ao Platão Araújo, afirma Wilson Lima que 70% dos remédios já estão disponíveis para a população – queira Deus que seja verdade, né meu povo? Na matéria divulgada pelo Governo e intitulada “Em visita ao Platão Araújo, governador Wilson Lima constata melhoria no abastecimento”, o governador volta ao velho discurso repetitivo que já virou uma espécie de mantra e bota culpa de tudo no “governo velho”, dizendo que “apagou incêndios nos dois primeiros meses do seu governo” – posa de bombeiro, mas não explica que incêndios são esses.

Os “incêndios” que o Radar captou, quem teve que “apagar” foram cidadãos como o pai da pequena Anna Júlia, que precisa de insulina para sobreviver e o medicamento não tinha no estoque da Central de Medicamentos do Amazonas (Cema) ou Bruno da Costa Silva que foi diagnosticado com cálculo renal e está há mais de um ano com cateter no seu corpo que deveria ser trocado há cada três meses, sem falar de Alana Eva Peres e Oliveira que corre o risco de perder a perna e já nem anda mais, aguardando uma cirurgia ortopédica, além de outros milhares de pacientes que têm sofrido, a cada dia, em busca de algo aparentemente simples: ao menos um remédio -esses casos chegam ao Radar através de denúncias diárias.

A “melhora no abastecimento” foi tão grande – pra não dizer o contrário né gente? – que o desembargador Elci Simões de Oliveira teve que determinar, em pleno plantão judicial, no final de semana, que a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) fornecesse um cateter da marca Permcaht à Sarah Cury Dias, de 63 anos. Ela é diabética e paciente renal crônica, mas está impossibilitada de fazer hemodiálise porque os médicos alegaram que o procedimento não faz mais efeito por conta da troca do cateter. Na decisão, o desembargador lembrou ao governo de Wilson Lima que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado

O governador também visitou o Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto – aquele que o deputado estadual Wilker Barreto (PHS) foi barrado e que flagrou, na última terça-feira (5), a alteração de um documento que mostrava falta de medicamentos – além do Instituto da Mulher – aquele que o Judiciário determinou que o Governo adote medidas urgentes para garantir o funcionamento -, e das Maternidades Ana Braga e Balbina Mestrinho – onde faltam leitos e a Defensoria Pública do Estado (DPE) abriu procedimentos para apurar casos de violência obstétrica. 

O que as visitas midiáticas do governador deixaram bem claro é que contra fatos, não há argumentos e que belos discursos não se sustentam diante da realidade cruel de quem precisa da rede pública de Saúde.