No governo do “bondoso e humilde filho de seringueiro”, faltou dinheiro pra pagar despesas com a saúde, mas sobrou pra pagar as empreiteiras

João Lúcio - Placa

Na Fundação Cecon continua faltando determinados medicamentos para o tratamento do câncer. Nos hospitais cirurgias são desmarcadas por falta de material cirúrgico. Isso é fruto do não pagamento de gastos com a saúde pública pelo Governo do Estado. Sem pagamento, os fornecedores deixam de entregar aquilo que é necessário para o funcionamento da rede hospitalar. Ontem, o deputado estadual Chico Preto (PMN) apontou dados financeiros que explicam o que é visível para o cidadão comum que precisa do sistema de saúde pública: “Os números das finanças da saúde, divulgados no site Transparência do Governo do Estado, dão conta de que foram disponibilizados R$ 2,8 bilhões para saúde em 2014. No entanto, só foram pagos R$ 1,9 bilhão em saúde pública”. Segundo o parlamentar, atualmente a diferença entre o valor autorizado e o pago é de cerca de R$ 1 bilhão.

E, na contramão do que se pode considerar como um governo bom e humano, se faltou dinheiro para tratar o cidadão doente, sobrou pra gastar com asfalto que teria sido comprado pelas empreiteiras contratadas (e pagas) pela administração do professor José Melo em pleno período eleitoral. Levando-se em conta o que foi escrito pelo colega jornalista Luciano Falbo, do jornal A Crítica, o governo Melo utilizou o aval que tem sido dado, ano após ano, por seus deputados aliados – quase maioria absoluta na Assembleia Legislativa do Estado – para mexer como bem entende no Orçamento público – um percentual de 40% dos recursos públicos – e remanejou R$ 1 bilhão para a pasta de obras, coincidentemente (?) o mesmo valor que faltou para pagar gastos com saúde pública. Os gastos com obras que eram de R$ 1,2 bilhão passaram para R$ 2,2 bilhões em 2014.

Entre os contratos pagos está o de recuperação e ampliação das ruas do município de Tabatinga. O contrato firmado é de R$ 18 milhões entre a Secretaria de Infraestrutura do Estado (Seinfra) e a empresa KPK Construções Ltda e R$ 12,4 milhões já foram pagos. Outra empresa que fechou contrato com a Seinfra é a Império Construções e Serviços que cobrou R$ 8,4 milhões para “recuperar o sistema viário do município de Codajás” – imaginem que sistema viário gigantesco com apenas 28 ruas. A empresa já recebeu quase a totalidade do contrato, R$ 7, 4 milhões. E apesar de eu não saber – quem souber me diga, por favor – cadê os corredores exclusivos de ônibus na Avenida das Torres, a empresa responsável pelas obras, a Construtora Etam, já recebeu R$ 36,3 milhões.

Pelo que se tem conhecimento o Governo só paga (ou deveria) após técnicos da Seinfra terem constatados que as obras foram feitas. Nos municípios do interior citados anteriormente na matéria, Codajás e Tabatinga, leitores do Radar insistem em dizer que a recuperação de vias (e muito menos ampliação) não existiu e nas poucas ruas onde houve algum serviço foi tão mal feita a “maquiagem” que, com a primeira chuva, o asfalto desapareceu. Mas, para o Radar não ser de alvo novamente de ataques de advogados do Governo nos acusando de publicar inverdades e sermos levianos, desta vez, temos emissários que vão checar as ditas obras que o Governo diz terem sido feitas. Apesar de que esses pagamentos deveriam ser alvo de investigação do Ministério Público do Estado e do Tribunal de Contas, que ainda não fizeram isso, não custa nada colocar na mira do nosso Radar, afinal não dá pra valorar mais o asfalto do que medicamentos e a cirurgias que salvam vidas, não é? Mesmo que, pra nosso desalento tenha ficado a impressão durante esse período eleitoral que pagar empreiteiras dá mais voto do que investir em saúde pública. (Any Margareth)