Governos de matar

No jornal da TV, em mais um boletim diário sobre o número de infectados pelo coronavírus e de mortos por Covid-19, sabe-se que morreram 548 pessoas nas últimas 24 horas. Agora no Brasil são 594.246 (quinhentos e noventa e quatro mil e duzentos e quarenta e seis mortos) por Covid-19.

Em frente à televisão, o que se vê são pessoas que ouvem aqueles números de mortos sem esboçar qualquer reação, como se fosse a coisa mais normal do mundo. O estardalhaço que se viu quando o Brasil ultrapassou a marca de meio milhão de mortos já não se vê mais. Há até quem comemore dizendo que morreram “apenas pouco mais de quinhentas pessoas”, já que no Brasil já morreram mais de três mil pessoas em apenas 24 horas.

Pessoas passaram a ser apenas números e a morte agora se tornou nada mais que um percentual de queda ou de aumento de vidas perdidas para a Covid-19. A morte se tornou tão somente mais um fato do cotidiano.

As ruas não estão lotadas de gente exigindo a imediata vacinação em massa do povo brasileiro para, em nome do Deus que todos dizem adorar, nos tirar do vale da sombra da morte.

O povo que apoia o governo de Messias Bolsonaro está nas ruas em defesa de “coisas mais importantes”, como a favor do tratamento precoce com remédios que o mundo inteiro já sabe que não servem pra porcaria nenhuma de Covid-19, contra uns tais comunistas que ninguém sabe quem são, ou pra fechar o STF e o Congresso Nacional que não deixam o Governo do Messias fazer mais cocô do que já faz, principalmente cocô de boi, e coisas do gênero. Causas “nobres” para se lutar que me fazem pensar que a morte também atingiu o cérebro de muita gente no Brasil. Será que foi o coronavírus também?

Mas nem só de morte por Covid-19 vivem os noticiários. É difícil um dia no Amazonas que não tenha um ou mais assassinatos. É visível a ação de matadores de aluguel, onde uma vida muitas vezes equivale à um aluguel barato de alguns poucos reais e um punhado de drogas. Se mata por tudo – ou seria melhor dizer por qualquer coisa? Traição que era motivo de choro, cachaça, tema de canção de sofrência que virava sucesso e até motivo de piada daqueles que não estão nem aí pra ser chifrado ou chifrar, agora é motivo pra crime de encomenda.

Na lista dos mortos se encontra até mesmo mulheres e crianças. Nos tempos em que fui repórter policial, o que se sabia pelos quatro cantos da cidade, é que até bandido tinha “código de ética” e que no “tribunal do crime” era proibida a sentença de morte para mulheres e crianças. Mas, tudo mudou, e agora os bandidos até filmam mulheres sendo executadas.

Os assassinatos se concentram nas periferias, nas comunidades pobres, e atingem os mais jovens. Meninos de 19, 17 anos e até 14 estão sendo executados. E o que se nota é que o povo parece conviver com essas mortes como algo banal e até justificam os assassinatos como sendo culpa de “vagabundo que foi se meter com a criminalidade”. Na linguagem de parte da população e até de apresentadores de programas que ganham milhões com a desgraça alheia, são “galerosos” e “maconheiros”.

Enquanto isso, se vê o governo de Wilson Lima, se resumir a trocar um coronel da PM, Louismar Bonates, por um general do Exército, Carlos Alberto Mansur, no comando dos órgãos de segurança e a fazer operações que dão muita mídia para o governo e pouco resultado pra prender os comandantes do crime.

Não se vê ações para tirar esses jovens das mãos dos criminosos e mantê-los ocupados com esporte, cultura, educação, lazer e formação profissional.

Estamos em tempos de governos que nos fazem conviver com a morte todos os dias, governos que matam, seja por doença, pela criminalidade e até de raiva.