Halterofilismo não compete, mas sonha com medalha em Tóquio

Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

A partir do início de 2020, Fernando Reis, 31, foi o único atleta brasileiro do levantamento de peso a ter algo a comemorar na modalidade.

No último dia 20, a IWF (federação internacional) desqualificou por doping o uzbeque Djangabaev Rusta, terceiro colocado no Mundial de 2018. A medalha de bronze na categoria superior a 109 kg ficou com o brasileiro, a primeira da história do país.
Não que a IWF tenha feito qualquer esforço para anunciar a decisão. Apenas a publicou em seu site, sem avisar a CBLP (Confederação Brasileira de Levantamento de Pesos) ou Fernando.

“Foi um técnico que viu e me mandou mensagem para contar. Eu telefonei para a CBLP e pedi para confirmarem. A IWF disse que era verdade. Até agora não recebi a medalha. Deve demorar alguns meses”, relata ele à reportagem.
A modalidade não tem competições oficiais há mais de um ano. A pandemia cancelou todo o calendário, que deverá ser retomado neste mês.

A CBLP espera mandar cinco atletas do país para a Olimpíada de Tóquio, a partir de 23 de julho. O único nome considerado certo é o de Fernando Reis, sétimo no ranking mundial e primeiro no da América do Sul, colocações que o qualificam para ir aos Jogos.
As vagas serão decididas no Pan-Americano da categoria, marcado para Santo Domingo, na República Dominicana, de 7 a 21 de abril.

“Eu não perdi nenhum dia de treino, mantive a atividade, mas em horário reduzido. Não é a mesma coisa. Você treina sozinha e fica preocupada com os companheiros de equipe. Tempo para preparação existiu, mas o que atrapalha foi não ter competido. Você perde o ritmo e isso é bem ruim. Acredito que vai afetar um pouco, porque estar no ritmo de competição é muito importante”, afirma Jaqueline Ferreira, que tentará vaga na categoria até 87 kg.

Para tentar manter atletas em atividade, a CBLP recebeu sugestões de realizar competições online, em que cada atleta faz a sua prova a distância, transmitida por vídeo. Nos EUA e Canadá foram realizadas algumas, mas não consideradas oficiais porque não havia possibilidade de fiscalização dos pesos, da estrutura usada pelos atletas ou realização de exame antidoping.
Fernando Reis participou de torneios assim, mas disse ter sido apenas para manter um espírito de competição. Não levou muito a sério, mesma posição do presidente da confederação brasileira.

“Quem assistiu, viu pessoas competindo em garagens, lajes de casas e outras em centro de treinamento. É possível realizar pelo aspecto tecnológico, mas há questão de barras e discos homologados, balanças serem auferidas… Várias regras a serem cumpridas e que precisam ser analisadas. Tivemos atletas que nos reportaram preferirem nem competir. Se fosse assim, preferiam levantar peso, gravar e postar no Instagram”, diz o presidente da CBLP, Enrique Montero Dias.

O único brasileiro que manteve o mesmo ritmo pré-Covid foi Fernando Reis. Morador de Miami, nos Estados Unidos, ele é dono de uma academia que sempre esteve à sua disposição, mesmo quando a cidade da Flórida sofreu restrições na pandemia. Ele acredita por isso que estará 100%, assim como atletas do leste europeu. Estes, segundo Fernando, “estarão voando”.

“Os países que têm centros de treinamento das equipes nacionais vão levar muita vantagem sobre os outros. Nações como Geórgia, China e Rússia, por exemplo. Eles conseguem deixar o atleta recluso, sem sair de lá, mas com toda a infraestrutura. Países com menos estrutura, como o Brasil, têm dificuldade”, constata Edmilson Dantas, 57, hoje instrutor, mas com cinco Olimpíadas no currículo: três como atleta, uma como técnico e outra como chefe de equipe.

Fernando Reis concorda: “Tenho acompanhado os principais atletas pelas redes sociais. O Lasha Talakhadze, da Geórgia, postou vídeo quebrando recorde mundial [no treino]. Se você ver o vídeo e analisar como ele fez o movimento, percebe que vai [para os Jogos] muito forte. Atletas de países da antiga malha soviética não pararam e têm envolvimento com o governo. Também estarei muito forte. Vai ser uma briga”, projeta, com a voz animada, a esperança brasileira da primeira medalha olímpica no esporte.
Seria um resultado histórico para o garoto que aos 11 anos começou a praticar levantamento de peso no Pinheiros –clube paulistano que representa até hoje em competições– apenas como apoio para o judô. Quando o viu praticando, seu pai Horacio, 65, que hoje mora na Espanha, previu que o filho seria atleta olímpico.

Ter mantido o mesmo ritmo de treinamento de seus concorrentes será chave para uma competição que ele confessa encarar como uma “responsabilidade”. É raro o Brasil estar em condições de obter medalha na modalidade.
Há também a lembrança da medalha de bronze no Mundial. Fernando ficou feliz, claro, mas sente que deveria ter subido ao pódio. O doping do rival fez com que a 3ª posição viesse por decisão administrativa, quase três anos depois. “Isso me dá mais vontade ainda de chegar 100% na Olimpíada.”