Histórias de desespero num hospital com orçamento de mais de R$ 80 milhões (ver vídeo)

“Doutor, eu lhe peço pelo amor de Deus, me coloque pra eu trocar o cateter. Eu estou há mais de ano (com o cateter) e estou preocupado porque eu fui lá na diretoria, a diretoria já falou que não tem previsão pra compra do material (cirúrgico), mas que eu viesse aqui com o senhor pra que pelo menos eu fizesse a troca do cateter”. Apelar para um médico em nome de Deus é a orientação dada por uma pessoa da administração da Fundação Hospital Adriano Jorge para o paciente Bruno da Costa Silva. Ele foi diagnosticado com cálculo renal, mais conhecido como pedra nos rins, em setembro de 2017.

Antes disso, essa mesma pessoa da administração do hospital fica horrorizada ao saber que Bruno está com um cateter enfiado no corpo há mais de um ano, quando o prazo máximo para a troca desse cateter é de apenas três meses. Ao saber da situação do paciente a mulher grita bem alto: “Meu Deus!” A reação dela faz sentido já que a permanência desse cateter no corpo do paciente por tanto tempo pode provocar uma infecção que, inclusive, pode levá-lo a morte. (ouvir áudio 1 no final da matéria)

A cirurgia de Bruno estava marcada para agosto de 2018. No áudio 2, as funcionárias da administração do hospital dizem que não existe previsão para a chegada do material cirúrgico. Sentindo muita dor há meses, Bruno fez uma solicitação à administração para ele mesmo possa comprar o material cirúrgico, mas o hospital não autoriza. As funcionárias chegam a mandar Bruno pedir autorização do governador. O rapaz se diz desesperado e elas, mais uma vez, ao invés de resolver, mandam ele mesmo estando com dores e debilitado, procurar a Defensoria Pública ou o secretário de Saúde (ouvir áudio 2).

Bruno desabafa ao Radar sobre as humilhações e o descaso pelos quais tem passado no Adriano Jorge.

Mas, não é só Bruno que está nessa imensa fila do Adriano Jorge. Alana Eva Peres e Oliveira diz que corre o risco de perder a perna. Ela diz que, no começo, seu problema parecia ser simples, mas após quase dois anos de espera sua perna começou a inchar e ela nem consegue ficar mais de dez minutos em pé.

Algo que chamou a atenção do Radar foi o fato dos pacientes contarem que há três mil pessoas esperando por cirurgias ortopédicas e algo em torno de 400 pacientes esperando por uma cirurgia de pedra nos rins. Mas, no Portal da Transparência do Governo do Estado, os números mostram um orçamento autorizado de mais de R$ 80 milhões para o Adriano Jorge no ano passado, sem contar com os convênios feitos pela unidade de saúde já que o hospital é uma fundação. Esses recursos entram na conta do Fundo Estadual de Saúde (FES) e só depois são repassados para a Fundação Hospital Adriano Jorge, mas não estão discriminados no site da Transparência do Governo do Estado.

E enquanto o Adriano Jorge recebeu só de verbas repassadas pelo Estado mais de R$ 80 milhões, o hospital Platão Araújo recebeu um orçamento quase três vezes menor (R$ 29,9 milhões) e o Hospital João Lúcio teve um orçamento no valor de quase a metade (R$ 48,4 milhões). Mas isso é uma história que o Radar ainda vai captar e contar!

áudio 1

áudio 2