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Índios da etnia ‘Kulina’ vivem na rua e catam alimentos do lixão para sobreviver no interior do AM (ver vídeo)

A falta de assistência do poder público municipal, estadual e federal para atender o processo de migração de indígenas da etnia ‘Kulina’ para as áreas urbanas do município de Ipixuna (a 1.364 quilômetros de Manaus) tem feito com que os indígenas passem a viver nas ruas da cidade e tenham que catar alimentos no lixo para sobreviver.

As denúncias chegaram ao Radar nesta sexta-feira (10), por um morador que não quis se identificar por medo de represálias. Segundo ele, o conflito social cresceu nos últimos dois anos e um dos principais problemas é a falta de programas de acolhimento para os indígenas.

“Os indígenas chegam à cidade e ficam nas ruas, muitos deles alcoolizados, alguns vivem nas beiras dos rios e para se alimentar vão até o lixão da cidade para catar comida”, disse o morador.

Segundo o morador, cerca de 200 indígenas estão espalhados por Ipixuna. “Como eles não têm suporte do poder público, estão saindo das aldeias e vindo para a cidade em busca de atendimento médico ou alguma assistência. Chegando na cidade, eles não têm atendimento de ninguém, acabam ficando nas ruas”, disse.

Os Culinas ou Kulina são um grupo indígena que habita o sudoeste do estado brasileiro do Amazonas, nas Terras Indígenas Cacau do Tarauacá, Deni, Juruá, Kulina do Médio Juruá, Kulina do Médio Jutaí, Kumaru do Lago Uala, Riozinho e Vale do Javari, e o centro do Acre, nas Terras Indígenas Alto Rio Purus, Kulina do Igarapé do Pau e Kulina do Rio Envira.

Ambiente coletivo

Para o pesquisador e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Renan Albuquerque, a vinda dos indígenas para os espaços urbanos é algo natural. “No passado, essas terras baixas da America do Sul, que vivem e dividimos, eram das sociedades originárias. Não é espaço nosso que está sendo invadido pelos indígenas, mas, um espaço que devemos entender como coletivo, um ambiente solidário e de todos”, disse o pesquisador.

Em relação aos problemas que acontecem nas saídas das aldeias para os espaços urbanos, segundo o pesquisador, são situações relacionadas a quatro fatores: a questão da moradia, a saúde publica (atendimento na Saúde), questões relacionadas à educação e acolhimento.

“Todos eles dependem do último fato (acolhimento), na medida em que as populações ou sociedades indígenas não são acolhidas na cidade, elas começam a sofrerem o que chamamos de ‘sofrimento mental’, que está relacionando a ‘medos’, tais como, medos de sair à rua, de falar com outros, medo de ir para o atendimento público, de sentar num banco de escola, de faculdade ou universidade, pelo fato de não ser acolhida”, disse Albuquerque.

Segundo o pesquisador, esse conflito em Ipixuna, com os Kulinas, é mais um, dos vários conflitos em várias localidades, seja no Alto Rio Negro, no Baixo Amazonas, no Médio Madeira, no Médio Rio Negro, no Baixo Rio Negro. “São conflitos que se dão a partir do momento que a população urbana se sente dona do ambiente e não quer dividir o ambiente com sociedades indígenas”, explicou.

Como exemplo, Renan Albuquerque citou os argumentos levantados pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), que passou a criminalizar as práticas indígenas. “Se o presidente do Brasil criminaliza, a população acaba incentivada a criminalizar também. Se tivéssemos um Estado, como já tivemos no passado, que buscasse o diálogo, seria um cenário diferente”, disse.

Renan Albuquerque destacou que os estopins de revolta de conflitos só deverão aumentar com o novo governo. Para o pesquisador, os conflitos com as sociedades indígenas só irão aumentar, que não se pode observar um horizonte positivo.

“A liberação do uso de arma para os pequenos produtores rurais vai implicar em um conflito armado no campo. Esse discurso da violência contra as populações indígenas, contra os negros, o publico LGBT e contra os pobres em geral, só vem a agravar os conflitos”, disse Albuquerque.

Acolhimento

De acordo com o pesquisador, o acolhimento para os povos indígenas são programas de políticas públicas mediadas pelos órgãos federais, estaduais e municipais, além de um trato com autoridade, de pessoa a pessoa.

“Além das políticas públicas que devem ser apresentadas pelo Governo, Estado e Município, é preciso que haja uma educação popular, para que as pessoas que vivem na área urbana entendam que a população indígena não é inimigo nem adversário”, destacou Albuquerque.

Sem contato

O Radar entrou em contato com a prefeitura de Ipixuna, pelo contato fornecido no site da Associação Amazonense dos Municípios (AAM), sem resposta. A Fundação Nacional do Índio (Funai), também foi procurada, mas ainda não se posicionou sobre os questionamentos.

Veja o vídeo dos indígenas no lixão: