Isso é caos? Ou sabotagem?

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Hospital Lotado 3O horário marcado no relógio era 23hs45m, desta quarta-feira (13) quando as imagens foram enviadas por um leitor do Radar. Elas teriam sido feitas, no Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto, para mostrar o caos instalado naquela unidade. As macas estão por todos os lugares, em corredores, ou em enfermarias, onde mal tem espaço para circulação de pacientes, médicos e enfermeiros – isso quando aparece médico e enfermeiro, tá gente? Os pacientes com as mais diversas enfermidades dividem o pouco espaço, sob o risco de um contrair a doença do outro.

Os familiares que acompanham os pacientes sequer têm um banquinho pra sentar. Quando não suportam mais ficar de pé, sentam no chão mesmo, vencidos pelo cansaço nem ligam se o chão está sujo ou não, se estão expostos a contrair alguma infecção.

Hospital Lotado 4E há quem possa dizer, o que não deixa de ser verdade, que essa situação de superlotação dos hospitais já foi vista antes. Mas, mensagens enviadas ao Radar mostram que há agravantes nessa história e que nunca se instalou tamanho caos na saúde pública do Estado. Segundo os depoimentos, a situação torna-se pior porque há falta de equipamentos para exames, o que faz com que pacientes tenham que permanecer no hospital esperando um diagnóstico. E, quando é diagnosticada uma doença, aí falta o medicamento para o paciente.

A superlotação também é agravada pela falta de atendimento médico nos hospitais. No 28 de Agosto, por exemplo, os pacientes contam que, o mesmo médico, tem que atender os doentes que dão entrada no hospital, assim como o chamado retorno – pacientes que foram encaminhados para exames e depois têm que passar pelo médico novamente para avaliar os exames e dar o diagnóstico. Isso seria fruto do corte nos plantões médicos, feito pelo Governo do Estado sob alegação de “que há gastos demais com plantões desnecessários”.

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Peregrinação com dor

Contando apenas um dos casos que teria acontecido na noite de ontem, quarta-feira (13), a menor T.K.F.A., de 16 anos, a caminho da reunião da célula de sua igreja evangélica, se machucou ao enfiar o pé num daqueles buracos causados pelo serviço “porco” de tapa-buraco – mas que aparece perfeito na propaganda da Prefeitura de Manaus -, na rua Custódio Carneiro, no Morro da Liberdade. Gemendo de dor, a garota foi socorrida por irmãos da igreja e levada para o Serviço de Pronto Atendimento (SPA) – que de Pronto Atendimento não tem nada – na Colônia Oliveira Machado. “Eles disseram que não tem mais ortopedista no SPA e nem raio-x”, contou ao Radar um dos irmãos evangélicos que estava acompanhando a menor – o Radar postou matéria onde os ortopedistas contam que foram retirados dos SPAs.

A paciente, sentindo cada vez mais dores no pé, foi encaminhada para o hospital 28 de Agosto, às 20hs40m. “Eu tinha que carregar nossa irmã no colo porque não tinha cadeira de rodas. A enfermeira ainda fez foi rir quando eu perguntei pela cadeira. Mesmo com ela quase gritando de dor tivemos que entrar numa fila imensa pra fazer uma ficha de atendimento. Aí chegou um enfermeiro, acho até que ele não fez por mal, e disse que pra agilizar o atendimento já que estava muito lotado no 28 de Agosto, era melhor ela ir pro Pronto-Socorro da Criança, no bairro da Compensa, já que tinha apenas 16 anos”, conta o rapaz, acrescentando: “Não deu pra não notar gente por todo lado no hospital. No corredor um homem se tremia tanto que só faltava cair da maca, acho que de frio e de dor”.

E lá se foram eles para o Pronto Socorro da Criança, na Compensa, com a menina sentindo dor. “Chegando no hospital, tivemos que fazer a ficha de atendimento, passar pela triagem, esperar ser atendida e, quando chegamos na frente de um médico, ele diz que lá só se atende pacientes até 14 anos de idade, mesmo vendo o estado em que ela estava”, conta o acompanhante da menina, relatando ainda que eles voltaram para o 28 de Agosto quando, depois de muito sofrimento, ela foi atendida. “Saímos do 28 de Agosto às 3h30m, na madrugada de hoje. Pelo amor de Deus, nossos irmãos estão sofrendo. Alguém tem que fazer alguma coisa. Isso é falta até de espírito cristão. Que saúde pública é essa?”. A pergunta fica pro governador José Melo que nega o caos, e alega “sabotagem” contra sua administração. Afinal, ou uma coisa, ou outra, ele que tem a responsabilidade – ou devia ter – de dar uma resposta. (Any Margareth)