“Justiça atrasada não é Justiça; senão injustiça qualificada e manifesta”, dizia Rui Barbosa

Ao ver a entrevista dada pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado Amazonas (TJAM),  desembargador Ary Moutinho, a primeira coisa que me veio á mente foi esta frase de Rui Barbosa que define com clareza o que representa a Justiça tardia, principalmente para quem sofre pela ausência dela para garantir seus direitos. “Os processos dele (Adail), pelo que eu imagino, estão tramitado de forma muito rápida”, disse o desembargador-presidente Ari Moutinho sobre os 70 processos contra Adail na Justiça, dos quais nem se houve falar. E lá se vão seis anos sem que a Justiça se manifeste, seis anos em que meninas poderiam ter sido protegidas e não teriam se tornado vítimas. “Por medo, eu não quero ser apenas mais uma pessoa falando, pedindo socorro e nada acontecer”, diz uma das vítimas, entre soluços. E agora, quem vai recuperar o tempo perdido, os sonhos destruídos e a vida dessas meninas que jamais será a mesma? Isso é Justiça? Ou injustiça qualificada e manifesta? (Any Margareth)

Forma Dispersa

E dois pequenos trechos da entrevista dada pelo desembargador à repórter do Fantástico chamam a atenção pela forma dispersa com que ele trata as acusações de pedofilia feitas a um agente público que, exatamente por essa função pública, tem ao seu dispor todos os meios para cometer os crimes e ainda calar suas vítimas.  As expressões usadas pelo magistrado foram: “pelo que eu imagino” (falando sobre a tramitação dos processos contra o prefeito) e “não que eu saiba” (falando de uma possível rede de proteção na Justiça ao prefeito Adail Pinheiro).

E a sindicância?

Vale lembrar que a presidente da CPI da Câmara Federal que apura casos de abuso sexual contra crianças e adolescente no País, Érika Kokay, esteve com o desembargador-presidente Ari Moutinho no dia 24 de setembro do ano passado – o encontro foi título da coluna Na mira do Radar do dia 25 de setembro. Na época, o desembargador garantiu que abriria uma sindicância para apurar responsabilidades pela morosidade na tramitação dos processos. E nunca mais se ouviu falar em sindicância, nem na entrevista do Fantástico, ficando apenas nas expressões vagas “imagino” e “não que eu saiba”.

Fiscal da Lei

O Procurador-Geral de Justiça do Estado do Amazonas, Francisco das Chagas Santiago Cruz, disse à repórter do Fantástico: “Essa gente não sabe viver em sociedade. Essa gente precisa ser presa pra que a gente possa dar uma resposta pra sociedade”. Essa resposta bem que poderia ter sido dada nesses seis anos, não é mesmo? O Ministério Público, fiscal da Lei, bem que poderia ter investigado porque os processos sequer têm relator , segundo informações dadas pela deputada federal Érika Kokay, no dia em que esteve no Tribunal de Justiça.

Triste Episódio

Foi triste ver o advogado Alberto Simonetti Neto dar entrevista como advogado de Adail Pinheiro. Como advogado, é explicável que tenha o direito de colocar seus serviços profissionais à disposição de qualquer cliente, até mesmo de Adail Pinheiro. Mas, será que é justificável, ver um advogado que tem sua imagem relacionada à Ordem dos Advogados do Brasil, onde é presidente, uma instituição que tem uma histórica luta em defesa dos direitos humanos, dar entrevista defendendo alguém de denúncias tão monstruosas como abuso sexual de crianças?

Bancando a banca

E após ver o presidente da OAB/ AM, Albert Simonetti Neto, colocar sua imagem em defesa de Adail Pinheiro, em plena Rede Globo, não foi difícil lembrar que na defesa de Adail Pinheiro atua também o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Marcus Furtado Coelho, e dois ex-ministros Fernando Neves e José Eduardo Alckmin e, no final do ano passado, chegou informações que nesse corpo jurídico reunindo as bancas advocatícias mais caras do Pais, estaria atuando até mesmo  Antonio Carlos de Almeida, o Kakay, apontado pela imprensa nacional e internacional como o advogado “mais caro e poderoso do País”, o único que conseguiu inocentar seu cliente, o publicitário Duda Mendonça, no Escândalo do Mensalão”. E o pessoal aqui do Radar volta a perguntar: “De onde será que está saindo tanto dinheiro para o pagamento desses advogados? Fácil deduzir, não é mesmo?