Loja de vinhos comprou ventiladores pulmorares em Manaus e vendeu por meio milhão mais caro para o Governo; Susam sabia de tudo

Em depoimento feito à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde nesta sexta-feira (12), Luciane Andrade, sócia-proprietária da Sonoar, revelou que os ventiladores superfaturados vendidos pela empresa FJAP – loja de vinhos – ao Governo, em março deste ano, foram comprados da Sonoar e vendidos quase meio milhão mais caro ao Estado.

Embora a empresa Sonoar, representante da marca importada Resmed em Manaus, tenha apresentado proposta mais barata, de cerca de R$ 2,5 milhões, o Governo decidiu comprar da empresa FJAP por R$ 2,9 milhões, sem licitação.

O caso foi denunciado pelo Radar no dia 14 de abril e ganhou repercussão local e nacional. Além disso, ocasionou em uma operação do Ministério Público do Amazonas (MP-AM) e da Polícia Civil deflagrada na quarta-feira (10). Entre os alvos da operação, estavam residências e a sede da Susam. O material apreendido pertence a empresários e servidores públicos da Secretaria, incluídos ex-secretários de Estado.

O depoimento de Luciane Andrade durante reunião da CPI nesta sexta vai na contramão do que alegava a titular da Secretaria de Estado de Saúde (Susam) Simone Papaiz, de que os ventiladores pulmonares comprados na loja de vinhos foram adquiridos pelo valor milionário de R$ 2,9 milhões por terem vindo do exterior.

Sobrepreço

De acordo com o depoimento da proprietária da Sonoar à CPI, no dia 27 de março, a Susam havia solicitado, por e-mail, locação de 100 ventiladores pulmonares. Porém, segundo Luciane Andrade, a empresa não possuía os equipamentos para locação e informou à Susam, que por sua vez, não retornou mais até então.

Dez dias depois, conforme depoimento de Luciane Andrade, a Sonoar recebeu solicitação da empresa FJAP para compra de ventiladores pulmonares. A Sonoar enviou a proposta à FJPA, que aprovou, providenciando a compra dos 28 equipamentos, pagos à vista.

“No dia 6 eu recebi ligação de uma empresa que me perguntou se nós tínhamos os ventiladores para venda. A empresa é a FJAP. O senhor Fábio ligou, ele não falou quantidade e perguntou quantos aparelhos eu tinha. Ele passou o e-mail e eu respondi a proposta, cotei exatamente o mesmo valor”, revelou a empresária.

Os ventiladores pulmonares foram vendidos pela Sonoar à FJAP, que por sua vez, vendeu à Susam por R$ 472 mil mais caro. Questionada pelos deputados da CPI se a FJAP – loja de vinhos – havia mencionado para que seriam utilizados os equipamentos comprados, Luciane Almeida informou que a empresa “não entrou em detalhes” e que “nunca tinha ouvido falar” da FJAP.

Na última quarta (10), mesmo com a secretária afirmando ao Radar, durante coletiva de imprensa, que não houve sobrepreço na compra dos equipamentos, no dia 13 de maio, o TCE-AM já havia atestado a ocorrência de sobrepreço na compra dos ventiladores, além de ter recomendado o afastamento de Simone Papaiz da pasta e suspensão do pagamento milionário à loja de vinhos.

“Não houve sobrepreço. O que há, não só no Estado do Amazonas, é o desequilíbrio do mercado para esses equipamentos. O enfrentamento da pandemia, o equipamento emergencial e necessário é o ventilador, seja ele evasivo ou não evasivo. O que posso afirmar e isso estará nos autos é que não houve sobrepreço. O valor que era praticado no mercado nacional e internacional antes da pandemia, é totalmente diferente dos atuais”, tentou justificar Papaiz, que estava nitidamente nervosa e chegou a gaguejar durante a coletiva de imprensa realizada no final da manhã desta quarta, minutos depois do cumprimento dos mandados de busca e apreensão na sede da Susam.

No entanto, após o depoimento da sócia-proprietária da Sonoar, ficou claro que o Governo via Susam preferiu, sem justificativa, comprar os ventiladores pulmonares, sem licitação, por um preço acima do que estava sendo praticado pela representante da marca dos equipamentos em Manaus.

A CPI da Saúde é composta pelos deputados Serafim Corrêa (PSB), Wilker Barreto (Podemos), Dr. Gomes (PSC), Delegado Péricles (PSL) e Fausto Júnior (PRTB), sendo os dois últimos presidente e relator, respectivamente. Ainda nesta sexta, deverá prestar depoimento a gerente de compras da Susam, Alcineide Figueiredo.