Macunaíma, o herói sem caráter!

Há dias que os textos que li em Macunaíma, livro considerado a obra-prima de Mario de Andrade, não me saem da cabeça toda as vezes que leio os diálogos divulgados pelo site The Intercept Brasil entre o então apenas juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o procurador da República, Deltan Dallagnol. O que parecia ser apenas uma transgressão passou a ser crime onde vale mentir para forçar acusações. Isso é muito Macunaíma, gente!

No começo, a coisa já estava no mínimo esquisitona diante de diálogos em que, alguém que vai julgar, orienta o acusador em como fazer pra “pegar” acusados. “Mas isso é comum acontecer”, disse-me uma pessoa do Direito, ao que eu respondi: “Mas isso é ilegal!”. Porém, pelo que tenho visto e ouvido nos últimos dias, em nome do que chamam de “combate à corrupção” passou a valer tudo!

Imagine a seguinte situação: você é acusado de um roubo e o cara que vai te julgar orienta os teus acusadores em como agir pra te botar na cadeia mesmo que as provas não sejam suficiente para tal Ou seja, está na cara que o juiz tem algo contra você e que tu vais parar na cadeia de qualquer maneira e não interessa o que tenha que ser feito.

Quando dou este exemplo, imediatamente, esse alguém que se sente nessa situação lembra que isso não pode, que é inconstitucional e totalmente reprovável. Mas, quer dizer que quando é com os políticos, então pode?

E a cada momento, a situação vem ficando pior. A cada publicação do The Intercept, os atos do herói brasileiro Sérgio Moro vêm ultrapassando os limites de legalidade e da moralidade e parecendo muito mais uma perseguição do que a busca por justiça.

As últimas publicações trazem um diálogo de Moro determinando “simular” que houve uma denúncia anônima para forçar uma pessoa a depor e ainda “formalizar” essa mesma mentira.

E a cada nova divulgação de diálogos, Moro fica mais parecido com Macunaíma, um herói brasileiro sem nenhum caráter.