Maioria é a favor de cotas raciais em universidades; 34% são contra, diz Datafolha

Apoio é maior entre quem tem filhos em escola privada

Foto: Pedro Ladeira

Metade da população é a favor das cotas raciais nas universidades públicas, mostra pesquisa Datafolha. O apoio é maior, de 60%, entre as pessoas com filhos em escolas particulares —que, teoricamente, seriam preteridos com a ação afirmativa.

Quanto mais jovem, escolarizada e de maior renda a pessoa, maior é o apoio a essa ação afirmativa. Também há aprovação levemente superior entre a população preta (53%) e parda (52%) do que entre brancos (50%).

A pesquisa Datafolha foi feita em parceria com o Cesop-Unicamp sob a coordenação da Ação Educativa e do Cenpec. O levantamento, realizado em março, aborda várias agendas educacionais.

“Esse apoio é significativo porque as cotas raciais mostraram o potencial de democratização do ensino superior brasileiro”, diz Denise Carreira, da Ação Educativa.

Posicionam-se contrários às cotas raciais 34%. Outros 3% se mostraram indiferentes e 12% disseram não saber responder.

A pesquisa ouviu 2.090 pessoas a partir de 16 anos em 130 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

A primeira universidade de grande porte a reservar vagas foi a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em 2003. No mesmo ano, a UnB (Universidade de Brasília) seria a pioneira a ter cotas raciais. Foi com a Lei de Cotas, de 2012, que todas as federais passaram a adotar a política.

As cotas passaram a ser implementadas de forma escalonada até chegar, em 2016, à reserva de 50% das vagas para a escola pública. A legislação exige separação de cadeiras para pretos, pardos e indígenas de acordo com a proporção da população de cada estado, além de preconizar corte de renda.

A lei prevê revisão do programa de acesso para este ano, dez anos após seu início. O recorte racial das cotas sempre esteve no centro dos debates mais intensos: fruto de intensa mobilização do movimento negro, enfrentou resistências de vários setores da sociedade e de dentro do mundo acadêmico. Essa pesquisa Datafolha não traz perguntas sobre as cotas sociais.

Evidências têm se acumulado sobre o efeito positivo da inclusão com as cotas ao transformar o retrato racial e social das universidades para algo mais próximo da realidade da sociedade —que financia a universidade pública.

Estudos e análises também indicam que não houve, como alardeavam os críticos, prejuízos de qualidade no desempenho do alunado, o que também quebrou barreiras. A USP (Universidade São Paulo), com histórico de rejeição às cotas, decidiu em 2018 adotar a reserva também com critérios raciais.

A instituição tomou a decisão depois de insistir por anos em uma política de bonificação que, com algum efeito na inclusão de egressos de escolas públicas, não foi efetiva para negros. Pesquisa mostrou que a diferença de notas entre cotistas e não cotistas é pequena e cai durante o curso.

Um estudo recente do pesquisador Adriano Sekenvics, do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), mostrou que a a participação de pretos, pardos e indígenas nas instituições federais de ensino superior vindos da escola pública passou de 27,7%, em 2012, para 38,4% em 2016.

Dados de 2019 mostram uma proporção de 39% desse público nas universidades, segundo pesquisa da Ação Educativa e Lepes (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação Superior) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Pretos, pardos e indígenas somavam naquele ano 56% da população com idade entre 18 e 24 anos.

“Nossa avaliação a partir das pesquisas é que as cotas são um programa muito bem sucedido, e que de fato contribuiu para mudar a cara das universidades, dos nossos campi, e principalmente nas instituições e cursos mais seletivos. Isso é a grande diferença”, diz Rosana Heringer, coordenadora do Lepes-UFRJ.

“Em 2016, começa a se sentir fortemente o processo de democratização, com inclusão de negros e indígenas”, diz a professora Dyane Brito, da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia). “É um crescimento nunca antes visto no Brasil”, completa.