Mais de 5 mil crianças de até 9 anos já foram infectadas com a Covid-19 em Manaus e 36 morreram desde o início da pandemia

No Amazonas, o total de casos chega a 18.175 mil

Crianças de até 5 anos são as mais afetadas pelos sintomas da doença.
Foto: Reuters/reprodução

Os casos crescentes e “recém-reclassificados” da covid-19 entre crianças vêm mudando o senso comum de que a doença afeta somente os mais velhos, e, principalmente idosos. No estado do Amazonas, já foram registrados 18.175 mil casos da nova doença em crianças de até nove anos, de acordo com dados da Fundação de Vigilância em Saúde Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP). Na capital, o número também desperta alerta entre pais e responsáveis, já são 5.019 pequenos infectados com a nova doença desde o início da pandemia em março de 2020 até junho deste ano.

Dos infectados em Manaus, mais de 590 crianças até nove anos foram internadas e mais de 30 morreram.

A ideia de que crianças não pegariam a Covid-19 se desenvolveu ainda na primeira onda da pandemia, em meados de março a maio. Naquela época, apesar da maioria das mortes se concentrarem entre idosos e pessoas com comorbidades e praticamente não se pensar em infecções entre menores, já havia casos entre crianças. Um deles aconteceu com a filha da vendedora Allana Gama.

A criança, que não teve seu nome revelado para ser preservada, foi infectada no final de abril de 2020 após ter contato com uma tia infectada que estava assintomática. Os primeiros sintomas sentidos pela menina, que tinha seis anos na ocasião (e agora tem sete), foram os de febre e dor no corpo.

A menina de apenas 6 anos à época que ficou doente teve mais da metade da capacidade pulmonar comprometida. 
Foto: arquivo pessoal

Entretanto, a mãe dela conta que ao longo dos dias a situação foi se agravando e os sinais mais fortes da doença foram se manifestando, chegando a comprometer metade da capacidade pulmonar de sua filha.

“Com o passar dos dias ela chegou ao extremo da doença e começou a apresentar falta de ar e cansaço. Levei ela para o hospital infantil e lá foi feito uma ressonância e mostrou que ela já estava com 50% do pulmão comprometido.”, afirmou Allana.

E justamente por estar em contexto totalmente novo onde ninguém sabia como lidar com o vírus e principalmente a manifestação dele em crianças, a mãe conta que o medo foi constante.

“Eu fiquei extremamente assustada, pois, era uma doença nova, não sabíamos se ela iria sobreviver (sic.), pois eu vi meus parentes padecerem da doença”, revelou em entrevista ao Radar.

Mais de 500 crianças internadas com covid

A filha da vendedora é uma das 597 crianças que ficaram internadas pela doença em Manaus. Os dados da Fundação de Vigilância em Saúde apontam que, a maioria dessas internações ocorre entre menores de cinco anos, com total de 384, seguido das de cinco a nove anos, que acumulam 214 hospitalizações.

O número de casos e hospitalizações são maiores entre crianças de 0 a 5 anos. Fonte: Sivep-Gripe/Esus-Ve/ FVS-AM

Mas diferente da pequena de sete anos, muitas outras crianças não têm a sorte de sobreviver e superar a doença. Em Manaus, já são 36 mortes confirmadas pela covid-19 e dentro desse número, as crianças menores de cinco anos também lideram. O número de crianças de até cinco anos que morreram pela doença é o dobro do que é registrado entre pequenos de cinco a nove anos. Enquanto o primeiro grupo acumula 24 mortes, o segundo registra 12.

Alerta para os sintomas e sequelas

A maioria das internações, conforme aponta a FVS-AM são causadas, em crianças de até cinco anos, em pelos sintomas de febre (80%), tosse (13%) e desconforto respiratório (4%). O “ranking” de primeiro e segundo lugar é ocupado pelos mesmos sintomas (80% e 14%, respectivamente) na faixa de cinco a nove anos e só muda a terceira posição, que é ocupado pelo sintoma de diarréia (2%).

A febre é o sintoma mais recorrentes entre as crianças com Covid-19.                                                   Fonte: Sivep-Gripe/Esus-Ve/ FVS-AM

Entre as mortes, a presença de febre é o sintoma mais comum. As crianças menores de cinco anos também lideram o número de mortes pela doença.

A febre também está presente entre os sinais e sintomas ligados a mortes.                                                      Fonte: Sivep-Gripe/Esus-Ve/ FVS-AM

Indo além dos sintomas que acontecem durante o período que o vírus está ativo no corpo da criança (14 dias), especialistas do mundo todo estão alertando para os perigos das sequelas deixados pelo novo coronavírus no organismo das crianças.

Pediatras de vários países europeus alertaram, no início deste ano, para o surgimento de casos de crianças com um quadro clínico de inflamação multiorgânica grave que poderia estar relacionado com o coronavírus. Os primeiros a dar o alerta foram os cientistas britânicos, baseado na morte de vários menores que não tinham condições patológicas ocultas. Dor abdominal e outros sintomas gastrointestinais como diarreia e/ou vômitos “podem evoluir em poucas horas para um choque, com taquicardia e hipotensão, inclusive na ausência de febre”, segundo o alerta distribuído pela Associação Espanhola de Pediatria (AEP), que cita casos no Reino Unido, Itália, França e Bélgica.

Além disso, há a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), que está associada com a Covid-19 e já registrou, até fevereiro desse ano, 17 casos no Amazonas. Crianças recém-nascidas e adolescentes são mais afetados.

Dos 17 infectados, três morreram em decorrência de complicações da doença. A atualização foi divulgada pela FVS (Fundação de Vigilância em Saúde), no dia três de fevereiro deste ano.

De acordo com o órgão, dois casos foram registrados este ano, um de Manaus e outro de Iranduba. O primeiro caso é o de um bebê de 12 meses, sexo masculino, e o segundo de uma adolescente de 14 anos, residente de Iranduba.

Uma problemática parecida com essa é vivida pelo cinegrafista Jamerson Silva, que tem um filho de 5 anos. Ele revela que suspeita que o filho esteja passando pelo processo de pós-covid, ainda que não tenha um diagnóstico da doença em mãos, pois a criança tem apresentado quadros clínicos que nunca tinham ocorrido antes e foi bastante exposto ao vírus dentro de casa quando a família ficou doente.

“Apesar de não ter feito o exame de covid, tenho praticamente certeza de que ele ficou com a doença, mas foi assintomático porque passamos por uma série de casos dentro de casa ao mesmo tempo e ele acabou sendo exposto ao vírus”, conta.

“Atualmente ele tem tido problemas respiratórios e já fomos ao médico e agora estamos investigando”, finalizou.

Estrutura e atendimento nos hospitais infantis

Allana revelou ao Radar a falta de suporte na unidade hospitalar Hospital e Pronto Socorro da Criança Zona Oeste.
Foto: reprodução

E em meio a incertezas da capacidade da doença afetar os pequenos, os pais e responsáveis dessas crianças esbarram em outros problemas, como a falta de suporte e preparo das unidades de saúde voltadas para o atendimento infantil.

Allana Gama revelou que passou por muitos problemas no Hospital e Pronto Socorro da Criança – Zona Oeste. De acordo com ela, o principal problema foi a falta de informação sobre a doença.

“Como foi no início, a falta de informação e a falta de preparo foi o que mais pesou. Eu chegava lá e eles não sabiam o que responder. Mandava voltar pra casa e tratar como um gripe, usar álcool em gel. E receitaram remédios pra gripe”, disse a mãe.

E para tentar lutar pela vida da filha, Allana precisou pagar pelo serviço privado.

“Eu só consegui um bom suporte quando levei a neném (sic.) em um hospital particular”.

Ainda que a quantidade de infecções, internações e mortes entre crianças seja lido, por grande parte da sociedade, como algo pequeno em comparação com outras idades o que se vê é um aumento de casos e complicações.

Nesse contexto, os pais das crianças que passam por esse período delicado esperam poder contar com políticas de saúde que atendam essa parcela da população.