Mais quatro ex-alunas de colégio da Aeronáutica no Rio fazem denúncias de assédio contra professores

Quatro ex-alunas do Colégio Brigadeiro Newton Braga, na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, buscaram na última terça-feira (10) a Comissão de Direitos Humanos da OAB para apresentarem novas denúncias de assédio sexual contra dois professores da instituição subordinada à Força Aérea Brasileira (FAB).

Os novos relatos de possíveis abusos praticados contra menores de idade dentro do ambiente escolar foram encorajados pela divulgação, na última terça, do encontro de um grupo de alunas e ex-estudantes da escola com a Comissão de Direitos Humanos da OAB.

Na ocasião, o g1 divulgou com exclusividade prints de trocas de mensagens, áudios e relatos que, segundo alunas, famílias e advogados, indicam um comportamento abusivo constante dos professores Eduardo Silva Mistura e Álvaro Luiz Pereira Barros, responsáveis pelas aulas de História e Educação Física, respectivamente.

As novas denúncias devem ser incluídas no documento que a comissão está preparando para levar ao Ministério Público Federal (MPF), uma vez que a instituição é ligada a uma das forças militares brasileiras.

Para a coordenadora do Grupo de Trabalho da Criança, Adolescente e Juventude da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Patrícia Félix, essas novas denúncias devem continuar encorajando que outras meninas procurem as autoridades em casos de assédios. Ela acredita que a comissão também deve trabalhar na garantia de direitos de crianças e adolescentes.

“É importante que essas meninas encorajem outras crianças e adolescentes que passam por situações parecidas, em outros ambientes. Que elas saibam que terão apoio dos órgãos de proteção e de garantia de direitos”, completou a advogada.
Em relação ao colégio da Ilha do Governador, o objetivo do grupo de advogados da OAB é que os professores sejam investigados fora do ambiente militar, visto que até o momento o Inquérito Policial Militar que apura as denúncias não foi concluído, mesmo após quase dois anos de trabalho

“A questão agora é o acolhimento dessas jovens que passaram por um momento de dificuldade no passado, mas que hoje precisam de atenção e precisam que suas denúncias sejam ouvidas. Nós vamos tomar todas as medidas cabíveis dentro do processo legal para que as investigações continuem”, comentou Patrícia.

Segundo a direção do Colégio Brigadeiro Newton Braga, a Justiça Militar ordenou que as investigações só teriam sequência depois de uma avaliação interna da escola, através de Processos Administrativos Disciplinares (Pads). Essa investigação interna também não foi concluída até o momento e os dois professores seguem dando aula para menores de idade.

Ex-aluna diz que assédio gerou trauma

O g1 conversou com uma das ex-alunas que procuraram a Comissão da OAB para relatar os possíveis assédios praticados pelo professor Eduardo Mistura.

Com medo de revelar sua identidade, a jovem contou que estudou na instituição militar entre os anos de 2001 e 2012. Segundo ela, Mistura foi seu professor em 2008 e em 2012.

Hoje com 29 anos, a ex-aluna revelou que as mensagens que ela classificou como ‘inapropriadas’, e que recebia com frequência do professor de história, começaram em 2008. Ela afirmou, inclusive, que eles chegaram a trocar dois “selinhos” dentro do ambiente escolar.

“Em 2008, foi quando ele começou a se aproximar de mim e rolou dois selinhos que ele disse ter sido sem querer, já que ele tinha o costume de abraçar e dar dois beijos no meu rosto”.
“Também em 2008, eu costumava ficar (conversando) em frente à escola com ele, sentadas nos bancos após a aula aguardando a minha condução. Foram anos de conversas inapropriadas. Eu não tinha essa noção (se aquilo era assédio). Eu me apaixonei por ele”, comentou a jovem.

Na época dos primeiros encontros, a denunciante cursava o 9º ano e tinha 15 anos de idade. Já o professor, tinha 31 anos. Ela contou que a aproximação aconteceu quando Eduardo Mistura ficou sabendo que ela tinha um relacionamento abusivo.

Segundo a jovem, eles passaram a conversar sobre o problema pessoalmente e por e-mail. Para ela, o professor se apresentava com a ‘intenção de me salvar’.

“Em 2011, eu matava as aulas de educação física pra ficar conversando com ele nos bancos que existiam dentro da escola, em frente a sala de História”, contou.

“Eu me senti usada. Ele fazia eu me sentir especial e única. Eu acreditava que por mais inadequado que tivesse sido nosso envolvimento, eu acreditava ser um caso isolado. Quando eu vi os “Exposed Newton” no Twitter, entendi que ele agia assim com várias outras alunas e foi muito difícil lidar com isso”, relembrou, citando uma campanha nas redes sociais feita em 2020 para expor professores do colégio acusados de assédio.

“Anos depois eu sinto que tudo que aconteceu virou um trauma. Virou uma questão minha na terapia”, disse ela.
O evento que ficou conhecido como ‘Exposed Newton’ aconteceu em 2020 em uma rede social, onde os alunos e ex-alunos denunciaram possíveis práticas abusivas de professores da escola.

“Eu me senti usada”, disse ex-aluna

De acordo com os relatos da jovem, os assédios não pararam quando ela deixou a escola, em 2012. Na verdade, segundo ela, os dois chegaram a ficar posteriormente.

“Mantivemos contato e chegamos a ficar em 2014. Nesse ano, já fazia dois anos que eu não estudava mais no Newton Braga”, comentou.
A jovem afirma que ficou apaixonada pelo ex-professor na época, mas que a relação com Eduardo até hoje provoca sentimentos ruins.

“Eu me senti usada. Nosso último contato aconteceu em 2014. Mas em 2020, antes do ‘Exposed Newton’, ele me procurou. Fiquei muito balançada porque, como eu disse, eu fui muito apaixonada por ele. Mas com a ajuda da minha psicóloga percebi que o que aconteceu foi errado e cortei o contato”, comentou.

Perguntada por que decidiu denunciar o ex-professor de história agora, a jovem disse que seu objetivo é evitar que outras meninas passem pelo que ela passou e que saibam identificar o assédio logo nos primeiros contatos.

“Sinceramente, eu não acredito que ele vá ser punido. Mas eu espero que o meu relato e o relato de outras meninas, fortaleça outras meninas que passaram por isso, para elas saibam que não estão sozinhas e também para evitar que novas meninas passem pelos abusos que eu passei. Que outras meninas não caiam no canto dele, ou se apaixonem”, concluiu.

Professor de história nega as acusações

Por telefone, na última sexta-feira, o professor Eduardo Mistura rebateu acusações feitas contra ele e negou qualquer abuso sexual contra estudantes. Segundo ele, todas as denúncias surgiram no ‘exposed’ realizado por alunos em uma rede social, onde o seu nome teria aparecido junto com outros professores.

“Até agora não aconteceu nenhuma constatação de que houve qualquer coisa relacionada a abuso sexual”, disse Eduardo.
Mistura afirma ainda que as mensagens atribuídas a ele foram retiradas de contexto. Já em relação aos abraços apertados que ele daria nas alunas mulheres, o professor de história afirma que esse é um tratamento que ele tem com todos que dão intimidade a ele. O professor disse também que espera ser inocentado de todas as acusações.

O que dizem os outros citados

Os responsáveis pelo Colégio Brigadeiro Newton Braga (CBNB) disseram que os casos citados ocorreram há aproximadamente dois anos e que não foram denunciados formalmente à instituição.

“Ainda assim, diante da gravidade da suspeita, a administração instaurou imediatamente, em 23 de junho de 2020, uma apuração por meio de Inquérito Policial Militar (IPM), o qual, após concluído, foi encaminhado ao Ministério Público Militar, em 27 de agosto do mesmo ano. Na ocasião, os supostos envolvidos ficaram também, por medida de cautela, afastados de suas funções por até 120 dias, prazo máximo previsto em lei”, dizia um trecho da nota.

“Como desdobramento, foi determinada, ainda, a abertura de Processos Administrativos Disciplinares (PAD) para apurar também a existência de faltas disciplinares por parte dos servidores”.

“A Força Aérea Brasileira reitera que atua para coibir irregularidades e que repudia condutas que não representam os valores, a dedicação e o trabalho do efetivo em prol do cumprimento de sua missão Institucional. Na mesma esteira, trabalha para manter o CBNB entre as melhores Instituições de Ensino do Rio de Janeiro, reconhecido por sua excelência e respeitado por sua tradição de ensino”.

Já o professor Álvaro Barros não retornou as mensagens e ligações feitas pela reportagem.