Melo e seu Frankenstein

frankenstein PM

Você conhece o efeito Frankenstein? Para entender melhor o que isso significa bom lembrar primeiro da estória do monstro Frankenstein, aquela criatura que, segundo o livro de ficção da escritora britânica Mary Shelley foi feita com partes de outros corpos e foi trazida à vida pelo seu criador, o cientista Victor Frankenstein. Depois de criada, a criatura se voltou contra o criador.

E como a vida imita a arte, e vice versa, há pessoas – sejam elas políticos ou não – que não medem seus atos e transformam seres humanos, instituições, organizações que estão a sua volta em verdadeiros monstrengos, espantosos, incontroláveis, por vezes violentos. Esse é o efeito Frankenstein e é esse mesmo efeito que vimos com assombro ter surgido durante as eleições de outubro do ano passado, em atos perpetrados pelo governador do Estado quando se tratava da polícia do Amazonas.

Coronéis respondendo a processos criminais até por homicídio, acusados de participarem de grupos de extermínio, foram parar em postos de comando num ato claro de que o Estado de Direito pesa menos que as relações pessoais, e que as Leis sobre a não contratação de servidores públicos “fichas-sujas” não tem a menor importância diante das preferências de um chefe de Governo. “Eu preciso deles na segurança pública e vou mantê-los”, disse o governador em entrevista à TV Amazonas respondendo a questionamento se manteria esses coronéis em postos de comando caso fosse reeleito governador. Disse que manteria, mas não manteve.

Esses mesmos coronéis foram flagrados em áudio e vídeo fazendo tudo que é atividade de campanha eleitoral, menos as atividades que realmente deveriam fazer, as ações de Segurança Pública, e davam um exemplo nada saudável para uma tropa que já vinha mostrando sinais visíveis de indisciplina e quebra de hierarquia. A greve dos praças da polícia militar foi o menor dos exemplos, isso na nossa opinião, de quem apoia a luta de qualquer trabalhador por melhores salários e condições de trabalho. Tomaram na marra viaturas de outros colegas de farda, sumiram com chaves das portas de unidades policiais, não responderam a ocorrências policiais, desfizeram ordens de comando, e depois que conseguiram aquilo que queriam, se tornaram cabos eleitorais do governador, ou seria melhor aumentar a patente, já que eles não aceitavam – e tem gente que diz que ainda não aceitam – ordens e punições nem mesmo de coronel.

Eles assumem o discurso de que não suportam a maioria dos oficiais, a quem chamam de perseguidores dos Praças. Assim como os oficiais parecem estar à beira de um ataque de nervos com praças que só faltam mandar oficial “bater” 100 flexões e ainda com um pé nas costas. E, diante de qualquer insatisfação, esses Praças ameaçam fazer nova paralisação, afinal eles dizem saber “fazer política” já que tinha um cabo como seu representante no Parlamento estadual (deputado cabo Maciel), e agora conseguiram eleger um soldado (Platiny Soares), que até expulso da corporação estava e retornou com um simples decreto do Governador José Melo, a quem por acaso eles batem no peito e dizem que elegeram também.

DECO

Um por um dos homens da polícia do Amazonas que se expuseram como profissionais de Segurança Pública, em nome de fazer o governador ser reeleito, foram sendo postos à margem desse mesmo Governo. “Eles estão se sentindo enganados e traídos”, diz uma fonte do Radar na polícia, acrescentando de forma jocosa: “Foram jogados no Deco, Departamento de Escada e Corredor”. Foram exonerados e postos de lado. A fonte cita os exemplos do ex-delegado Geral de Polícia Civil, Josué Rocha, o ex-secretário de Segurança Pública, coronel Vital, o ex-comandante do Ronda no Bairro, coronel Roosevelt, o ex-chefe do Estado-Maior da PM, coronel Marcos César Moreira, e o ex-comandante e o subcomandante da PM, coronéis Eliezer Almeida e Aroldo Ribeiro. “Esses homens foram até mesmo afastados de suas funções na corporação – coronéis Eliézio e Aroldo – acusados de crime eleitoral. Foram expostos publicamente, e o que ganharam com isso?” questiona a fonte.

O Troco

E as informações são de que o perigo reside no fato de que esses homens decidam não mais pagar o preço em defesa do governador e, caso sejam chamados a depor nos processos por crime eleitoral tirem de si qualquer responsabilidade sobre a campanha ostensiva feita com o uso do aparato policial.“Um deles já me disse que se for chamado pela Justiça Eleitoral vai dizer que fez a reunião com policiais sim, mas que não sabia que o governador iria usar pra fazer campanha”, diz a fonte do Radar, arrematando: “E estaria dado o devido troco”. Será?

Licença

E numa polícia onde homens desrespeitaram quase todas as normas de conduta sem punição, quem vai dizer a um policial que ele não pode, só porque um moleque correu, atirar pelas costas, com o claro intuito de matar? E quem diz pro policial que a farda e o distintivo não lhe dá direito de aplicar o chamado “corretivo” nos filhos dos cidadãos que pagam seus salários, espancando primeiro pra investigar depois se o garoto, acusado de estar envolvido com o tráfico, é culpado ou inocente? – e o fato de ser culpado ainda não lhe daria o direito de espancar ninguém, não é mesmo? E agora José (Melo)? Como lidar com homens que acham que tem licença pra tudo, até pra matar? Como lidar com essa “coisa”, esse “monstro” fabricado com tantos pedaços de desrespeito, indisciplina, ilegalidade, desumanidade e que acham que mandam no voto e até na vida dos seus semelhantes? E agora José, o que vai fazer com seu Frankenstein? (Any Margareth)

Colaboração: Elcimar Freitas