Ministério da Saúde negou autorização excepcional a argentinos 51 minutos antes do jogo

Lionel Messi (esq.), Neymar e outros jogadores em campo depois da interrupção da partida por agentes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) Rubens Cavallari/Folhapress

O Ministério da Saúde negou nesse domingo (5) um pedido de autorização excepcional para que quatro jogadores argentinos pudessem ser liberados do período de quarentena, previsto nas atuais normas sanitárias do país, e atuassem contra a seleção brasileira.

O requerimento foi rejeitado 51 minutos antes de o jogo entre Argentina e Brasil começar na Neo Química Arena, em São Paulo, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. A partida foi interrompida por agentes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) com 6 minutos de bola rolando.

“Considerando todos os apontamentos realizados após a investigação epidemiológica, entende-se que houve omissão de informação por parte da delegação argentina em relação ao ‘histórico de viagens’ de quatros jogadores, incorrendo, assim, em infração sanitária”, diz ofício da Saúde, ao qual a Folha teve acesso.

Segundo a Anvisa, os atletas argentinos descumpriram regras de quarentena contra a Covid-19. A Polícia Federal também foi acionada.

Quatro jogadores da seleção argentina deram informações falsas e ocultaram que estiveram no Reino Unido nos últimos 14 dias: Emiliano Martínez, Emiliano Buendia, Giovani Lo Celso e Cristian Romero. Eles jogam em equipes de futebol da Premier League.

Mesmo que tenham embarcado com exame de Covid-19 negativo, diz o documento da Saúde, ainda havia risco de apresentarem infecção e só manifestarem sintomas após o desembarque no Brasil, “podendo contaminar e disseminar a doença”.

“Em atenção ao princípio da precaução, medidas de entrada excepcional no país devem ser adotadas antes do embarque, o que foi ignorado para o caso em tela”, afirma o documento.

O pedido dos argentinos foi feito no sábado (4). O ofício do secretário-executivo adjunto da Saúde, Alessandro Glauco dos Anjos de Vasconcelos, que rejeitou a solicitação, foi assinado eletronicamente às 15h09 de domingo.

O documento é endereçado ao presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez. O pedido da delegação argentina não chegou à Casa Civil. A partida começou às 16 horas.

“Portanto, recomendamos que os quatro atletas permaneçam em quarentena no hotel, atendendo às regras sanitárias vigentes no Brasil”, escreveu Vasconcelos.

Segundo interlocutores do governo, houve uma sucessão de equívocos por parte dos argentinos.

Além de terem omitido a passagem pelo Reino Unido, ignoraram as orientações por quarentena e os contatos no hotel, antes de irem para o jogo. No estádio, ficaram trancados no vestiário, sem permitir a entrada dos agentes da Anvisa.

O Ministério da Saúde fundamentou a decisão em manifestação técnica da Secretaria de Vigilância e Saúde da pasta, e em parecer da Anvisa, subsidiado pelo Centro de Vigilância Epidemiológica, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Neste domingo, a pasta afirmou, após a interrupção da partida, apoiar a decisão da Anvisa de tentar retirar os jogadores da Argentina da Neo Química Arena.

“O Ministério da Saúde informa que apoia e reconhece as recomendações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), autoridade em saúde responsável pelas ações de vigilância sanitária do país”, afirmou a pasta, em nota.

Relatório da Vigilância Epidemiológica de São Paulo, também obtido pela Folha, mostra que a delegação argentina recebeu, em ao menos dois momentos diferentes do sábado (4), a recomendação de que os jogadores argentinos deveriam ficar em quarentena nos quartos do hotel onde estavam hospedados.

A medida deveria ser respeitada “até que fosse solicitado formalmente o pedido de excepcionalidade de circulação no país, e que o mesmo pudesse ser analisado pelo Ministério da Saúde e houvesse um posicionamento final da Casa Civil”.

O documento diz ainda que as “declarações de saúde dos viajantes” dos atletas, exigidas para se entrar no país, omitiam passagem pelo Reino Unido no campo “histórico de viagens”.

As declarações, aponta o relatório, foram preenchidas por uma única pessoa, Fernando Ariel Batista, da AFA (Associação de Futebol Argentina). É o mesmo nome do técnico da seleção sub-20 da Argentina, que nega ter participado de qualquer trâmite burocrático da equipe principal. O formulário é digital e seu preenchimento é feito antes do check-in, segundo a Anvisa.

“Nego rotundamente tais afirmações. Minha tarefa na AFA é como treinador das seleções sub-23/sub-20. Buscaremos esclarecer isso com os meus assessores”, publicou no Twitter.

O mesmo relatório da Vigilância Epidemiológica de São Paulo traz um passo a passo das ações adotadas diante do caso.

Segundo o documento, o primeiro alerta sobre a suspeita de descumprimento das regras ocorreu ainda no fim da noite de sexta-feira (3) após comunicado da Anvisa ao Cievs (Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde), do governo federal, que acionou a unidade em São Paulo.

No relato, a Anvisa diz que recebeu comunicado de um rumor de que quatro atletas que atuam em clubes da Inglaterra teriam entrado no Brasil descumprindo a Portaria 655/2021, que restringe o acesso de quem esteve naquele país há menos de 14 dias.

Uma primeira reunião sobre o caso foi feita com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e Conmebol ainda na manhã de sábado, quando foram verificados os passaportes dos jogadores e comprovada a omissão.

“O chefe de equipe da seleção argentina, assim como membros da Conmebol e CBF foram notificados sobre a ocorrência, tendo recebido a orientação de que os quatro jogadores em questão deveriam permanecer nos seus referidos quartos, não podendo participar do treino na Arena Neo Química previsto para as 18 horas e 30 minutos, cumprindo o período de quarentena recomendado até que outra orientação fosse repassada pela autoridade sanitária”, informa o relatório.

A recomendação foi reforçada em reunião às 17h, também no sábado, com Anvisa, Ministério da Saúde, Secretaria de Saúde de São Paulo, na qual também participaram Conmebol, CBF e delegação da Argentina.

A CBF afirmou, em nota publicada na tarde desta segunda (6), que enviou o médico Roberto Nishimura à reunião no hotel Marriott, em Guarulhos, apenas como ouvinte.

“Por entender não se tratar de assunto de sua atribuição, em nenhum momento houve qualquer manifestação por parte do representante da CBF às autoridades quanto à questão sanitária dos quatro atletas argentinos, seja no sentido de liberar ou de vetar sua participação no jogo”, diz trecho da nota.

Pouco antes, foram apresentados resultados de testes RT-PCR dos jogadores com resultado negativo.

Segundo o relatório, representantes da Anvisa informaram na reunião que o descumprimento das normas pela seleção Argentina seria “reincidente” e que a Polícia Federal seria acionada, “cabendo à autoridade sanitária local o auto de infração para cumprimento do período de quarentena no hotel até que fosse expedido o parecer final sobre a concessão da excepcionalidade de circulação”.

O documento frisa então que Conmebol e delegação da Argentina foram orientadas a seguir as recomendações e formalizar o pedido de excepcionalidade “com a máxima urgência, para que a análise da documentação fosse viável antes da realização do jogo”.

Após o fim da reunião, porém, a equipe da vigilância de São Paulo foi informada de que os jogadores não tinham cumprido as regras de ficar no hotel e haviam ido ao treino.

A vigilância então informa que iria autuar a delegação argentina pelo descumprimento da recomendação dada para que o grupo ficasse no hotel até que houvesse novo posicionamento da Anvisa, Saúde e Casa Civil.

Nota divulgada pela Anvisa horas antes da partida informava que os atletas haviam descumprido novamente as regras de quarentena e que, por isso, a agência iria acionar a Polícia Federal.

Em nota divulgada na noite de domingo, a Anvisa diz que “até a hora do início do jogo, esforçou-se, com apoio policial, para fazer cumprir a medida de quarentena imposta aos jogadores”.

“As tentativas foram frustradas, desde a saída da delegação do hotel, e mesmo em tempo considerável antes do início do jogo, quando a agência teve sua atuação protelada já nas instalações da arena de Itaquera”, diz.