Mortes por falta de oxigênio e superfaturamento de contratos marcam um ano de pandemia no Amazonas

Neste sábado (13), o Amazonas completa um ano em que o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no Estado. A primeira infectada foi uma mulher de 39 anos, com histórico de viagem em Londres. Desde então o povo amazonense teve que viver em uma eterna quarentena, cheia de incertezas, perdas, ansiedade e medo. À medida em que os casos aumentavam e pressionavam o sistema público de saúde, a Polícia Federal (PF) mirava o epicentro da pandemia, infelizmente o Amazonas.

Em junho de 2020 foi deflagrada a primeira fase da “Operação Sangria”, que investigava o escândalo dos ventiladores pulmonares superfaturados, o alvo da operação: empresários e a cúpula da Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas, que na época era chamada de Susam. Os leitores do Radar conhecem muito bem essa história, afinal o Radar foi o primeiro a noticiar e acompanhar as investigações que revelaram como funcionava o esquema entre as empresas, a então chamada Susam – agora SES – e pessoas próximas ao governador Wilson Lima travestidas de assessores informais na administração estadual que fizeram os aparelhos comprados de uma loja de vinhos alcançar o preço de R$2,9 milhões e o dinheiro do superfaturamento ir parar numa conta no exterior.

Na cobertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde, mais gastos sem contrato e atos ilegais com o dinheiro da pandemia ficaram expostos, desde uma simples lavagem de roupa até o aluguel do Hospital de Campanha Nilton Lins.

Antes da segunda onda da Covid-19 que Manaus enfrentaria, veio à segunda fase da “Operação Sangria” em outubro de 2020. Desta vez foram presos desde os donos das empresas que forneceram os ventiladores pulmonares para o governo até ex-secretários de saúde. Só não foi preso, mais uma vez o governador do Amazonas que teve seu pedido de prisão negado ainda na primeira fase da Operação Sangria.

Além de todos os medos e tristezas advindas da pandemia, foi aterrador ver que as suspeitas do Radar de que empresários e agentes públicos podem pensar em lucro, mesmo que isso represente a morte de seres humanos, foi confirmada. Isso ficou materializado na manifestação enviada pela subprocuradora-geral da República, Lindôra Araújo, ao Superior Tribunal de Justiça, onde ela atesta que há “uma verdadeira organização criminosa que se instalou na estrutura do governo do estado do Amazonas, com o objetivo de desviar recursos públicos destinados a atender às necessidades da pandemia de covid-19”.

Enquanto isso, matérias que pareciam cenas de filme de terror repercutiam mundo afora, pessoas batendo na porta dos hospitais suplicando por socorro, vivos e mortos dividindo os mesmos espaços nos hospitais.

A SEGUNDA ONDA

Sob a condição do uso de máscaras obrigatórias, o Governo do Amazonas decidiu reabrir o comércio em junho de 2020, e pouco a pouco diversos segmentos, até de entretenimentos voltaram ao ‘novo normal’.

As aulas presenciais na rede estadual de Ensino retornaram em um período em que mais de mil casos eram registrados por dia. Os representantes do Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus (Asprom Sindical) foram às ruas, alertando para o risco de contaminação que poderia desencadear uma nova onda da Covid-19. O resultado? Bem! Mesmo com carro som e megafones eles não foram ouvidos.

A VARIANTE

Aglomerações, festas clandestinas, shoppings lotados, foram o cenário perfeito para o coronavírus se transformar e se fortalecer. Diante do alto número de casos , o governo decidiu fechar o comércio, talvez um pouco tarde demais. Mas logo em dezembro de 2020, mês das festas de fim de ano e de grande expectativa de compras, o anúncio de um novo lockdown sem um aviso prévio caiu como uma bomba para os comerciantes.

Funcionários e empresários foram às ruas por um interesse coletivo, “Queremos trabalhar, queremos trabalhar”, gritavam eles sem recuar mesmo com uma barreira da Polícia Militar. Trânsito caótico, cidade parada, barricadas de fogo no asfalto, o real cenário do que as pessoas tanto chamam de ‘desgoverno’ estava escancarado.

A pressão do povo fez com que Wilson Lima convocasse uma reunião urgente, naquela mesma noite, com todos os representantes de várias secretarias. Já na madrugada uma coletiva foi realizada, enfim, ele resolveu ceder e o comércio foi aberto mais uma vez, porém por pouco tempo.

E 2021 chegou, mas nem parecia um ano novo, pois as notícias era as mesmas do ano velho, comércio voltou a fechar, hospitais começaram a lotar, essas e outras notícias repetidas que deixaram todos ainda mais preocupados. O vírus estava mais forte, tinha se modificado e a Fiocruz da Amazônia anuncia que “Nova Variante da Covid-19 é identificada em Manaus”.

A CIDADE JÁ NÃO PODIA MAIS RESPIRAR

14 de janeiro, um dia difícil de falar, de escrever, de esquecer. A redação do Radar estava recebendo mensagens de profissionais de saúde e não eram denúncias como costume, eram pedidos de socorro. O oxigênio de várias unidades de saúde havia terminado e pacientes começaram a morrer asfixiados.

Rapidamente Manaus se tornou o assunto mais comentado em todos os noticiários do Brasil e do mundo, os vídeos dos profissionais de saúde pedindo ajuda se espalharam na internet. Uma corrente de solidariedade de artistas e anônimos ganhou força, eles enviaram centenas de cilindros de oxigênio para Manaus, porém devido a nossa posição geográfica o material demoraria chegar.

O Amazonas vivia o pior momento da pandemia, filas para comprar oxigênio, hospitais entraram em colapso outra vez. Pessoas morriam nas portas dos hospitais, a falta de oxigênio fez a segunda onda crescer e parecendo um Tsunami. Essa onda cobriu a cidade de luto.

O silêncio nas ruas reinava. Agora até os negacionistas já não tinham mais como negar pois até eles estavam em casa e sabiam que se precisassem de um leito não haveria.

As mortes dispararam, 213 enterros diários , esse foi o recorde, e para não piorar, a única solução foi transferir os pacientes para outros estados da federação. A operação teve êxito, muitos voltaram curados.

Após um ano de pandemia 11.431 pessoas já morreram no Amazonas, mas o que se vê é muita gente, inclusive agentes públicos, agindo como se esse fosse apenas um número e nada mais. A Covid-19 continua avançando a passos largos enquanto a vacinação caminha a passos de jabuti. Segundo dados da FVS, até esta última sexta-feira (12/3) tinham sido vacinadas 434.810 pessoas numa população de quase 4 milhões de amazonenses. E, a pergunta que fica é… Seremos imunizados antes da terceira onda? Ou o Amazonas terá que viver mais um pico de mortes, contaminações e negócios sujos com o dinheiro da pandemia?