Museu da Amazônia inaugura “aturás mandiocas beijus”

A reprodução de uma casa de forno com objetos utilizados pelos índios ajuda a contar como funciona o sistema agrícola tradicional do Rio Negro

O Museu da Amazônia (Musa) inaugurou nessa segunda-feira (20), às 15 horas, a exposição aturás mandiocas beijus, no Musa Jardim Botânico, no bairro Cidade de Deus. A exposição é dedicada ao sistema agrícola tradicional do Rio Negro, registrado em 2010 pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil.
Antes da inauguração oficial, será realizada uma mesa-redonda, às 10 horas, no Musa do Largo, Centro de Manaus.

Por que é importante preservar o Sistema Agrícola Tradicional?
São duas razões:

1. É um sistema milenar usado pelos povos indígenas, com sucesso, para se alimentar, conservar o seu modo de vida, sua organização social e a biodiversidade da floresta e das águas da Amazônia;
2. É um modo de conservar as variedades de mandiocas (*) e produzir novas variedades, o que garante que se desaparecer uma variedade devido a uma praga, existe outro tipo resistente à praga.
“Quando a pessoa se muda, ela traz suas manivas, e quando chega numa comunidade, dá um feixe de manivas para outra pessoa – nada é vendido. Essa troca fortalece a preservação das qualidades de maniva”, relatou Sandra Gomes Castro, professora indígena baré e uma das curadoras da exposição.

O que ameaça o sistema agrícola tradicional?

Os indígenas sofrem uma grande pressão para mecanizar a lavoura e cultivar uma única espécie de mandioca de maior produtividade estranha à região. Com isso eles teriam que usar fertilizantes, máquinas agrícolas e crédito bancário. Perderiam as variedades que constituem o seu maior patrimônio, além de colher mandiocas durante o ano inteiro. “Devemos decidir se é mais importante a produtividade, como quer o ‘mercado’, ou a preservação da variedade do patrimônio genético das plantas alimentícias, como recomenda o bom senso e os órgãos internacionais de defesa da biodiversidade como a FAO (Food and Agricultural Organization da ONU) ”, observa Ennio Candotti, diretor do Musa.

Aturás mandiocas beijus

A exposição é fruto de um processo de curadoria participativa composta por cinco indígenas representantes da Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro (ACIMRN), com sede em Santa Isabel do Rio Negro. Eles participaram de todas as fases de construção da exposição – conceituação, estruturação, coleta de objetos e montagem.
A exposição contou ainda com a curadoria da antropóloga Lúcia Hussak van Velthem, do Museu Paraense Emílio Goeldi, e consultoria da etnobotânica Laure Emperaire e das antropólogas Maria Manuela Carneiro da Cunha e Esther Katz. A exposição foi patrocinada pelas empresas Bemol e Fogás, e contou com apoio do CNPq, do Fundo Amazônia/BNDES e da Universidade do Estado do Amazonas – UEA.

Casa de forno é o destaque da exposição

Na casa de forno montada no Musa do Jardim, estão todos os utensílios originais usados para transformar a mandioca em farinha comestível, um processo de sutil transformação de uma planta tóxica em um alimento saboroso, saudável e nutritivo, fundamental na dieta do brasileiro. Um processo original, admirável, descoberto e aprimorado durante centenas de anos pelos mestres de povos que aqui viveram e ainda vivem. Uma técnica cuja história ainda devemos escrever.

Musa do Largo: Rua Costa Azevedo 27 – na Praça São Sebastião
Bairro: Centro – Manaus (AM)

Musa – Museu da Amazônia: Av. Margarita (antiga Uirapuru), s/n
Bairro Cidade de Deus – Manaus (AM)
Telefone: (92) 99280-4205

(*) Atenção: A maniva é a parte aérea da planta já a mandioca é o tubérculo escondido embaixo da terra, na base da planta. As mandiocas são tóxicas. Existem variedades destes tubérculos não tóxicas, são denominadas macaxeiras.