Na ALE, um show de exagero, constrangimento, dissimulação e bajulação

francyPor Any Margareth

Os jornalistas que estavam na sala de imprensa da Assembleia Legislativa do Estado (ALE), na terça-feira (01) passada se entreolharam, num misto de incredulidade e constrangimento, quando a coordenadora do Fórum Permanente de Mulheres do Amazonas, Francy Júnior, que discursava na tribuna, se dirigiu ao presidente daquela Casa, deputado Josué Neto, com palavras duríssimas responsabilizando-o pela não instalação da CPI da pedofilia naquele Poder Legislativo. Vestindo túnicas brancas, com manchas de tinta vermelha, num analogismo com as mortalhas (lençóis que envolvem mortos), Francy e outras ativistas sociais fizeram uma manifestação na ALE acusando os parlamentares de adiar a CPI para depois das eleições de outubro com o intuito de não investigar os casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. O uso da “mortalha” significaria a morte dos sonhos e das perspectivas de um futuro digno para essas meninas. “Sua caneta sujou nossa mortalha com o sangue dessas meninas”, disse Francy direcionando o ataque ao presidente da Casa, com uma boa dose de exagero, já que há de se fazer justiça porque Josué Neto não toma decisões sozinho e, se a maioria dos líderes da Casa decidissem pela instalação da CPI, ele seria voto vencido. Além do que, os aliados de Adail Pinheiro naquela Casa são outros. Que se saiba, Josué Neto apoiou o candidato de oposição a Adail Pinheiro nas eleições de 2012. Mas, num poder presidencialista acaba sobrando pras quem está sentado naquela cadeira, não é mesmo?

Dissimulação

E nesse mesmo dia, aproveitando a deixa da manifestação em repúdio pela não instalação da CPI, o deputado Ricardo Nicolau (PSD) foi para a tribuna da Casa, posando de paladino da moral e da Justiça, solicitar a instalação imediata da comissão, e a votação de seu requerimento que propõe a convocação da delegada que comandou a Operação Estocolmo. Tudo isso muito menos pela questão das menores exploradas sexualmente, e muito mais para atingir seus desafetos políticos , os empresários Dissica e Humberto Calderaro Neto. Incrível que o mesmo deputado rechaçou terminantemente uma CPI para investigar o possível superfaturamento das obras do edifício garagem, não deu amplo acesso ao processo forjado de denúncia caluniosa de assassinato contra o deputado Luiz Castro e não teve essa pose de legalidade deixando o cargo de corregedor já que estava sendo investigado. Pura dissimulação!

Bajulação

E quando a gente pensa que já viu de tudo nessa vida e que já está calejada, não se decepcionando mais com nada, lá vem uma pancada bem no meio da cara. Foi decepcionante ver um ícone da imprensa local, exemplo para gerações de jornalistas, ex-presidente do sindicato dos Jornalistas, premiado nacionalmente e que já ocupou cargos na administração pública até mesmo de secretário de Estado – ufa! cansei  –  e diretor de Comunicação da ALE sair “caçando”colega repórter por corredores da Casa e perguntando a assessor de deputado o que ela está fazendo por lá. Primeiro, seria de bom tom cumprir regra de civilidade e cavalheirismo, perguntar a ela própria, e não em cochichos com terceiros, se não estava lá por chamamento de deputados, cuja peso do mandato popular tem igual importância ao do presidente da Casa – a não ser que isso tenha mudando e a gente não saiba. Segundo, por definição de função repórteres sempre estão atrás de matéria, não é mesmo ? Terceiro, que se saiba, todos os repórteres têm os mesmos direitos de fazer seu trabalho, sejam eles de quaisquer veículos de comunicação, independente de valoração de grau de importância do veículo, relações de amizades ou quaisquer outros interesses com a presidência da Casa. E, por último que se tenha conhecimento os Parlamentos são por definição a Casa do Povo onde qualquer cidadão deveria ter livre trânsito – ou será que no caso da atual administração da ALE isso também foi modificado? Além do mais, não sabíamos que cumprir a tarefa de “investigar” o que o repórter está fazendo estava dentro das funções de um diretor de Comunicação. Terrível decepção!

Bermuda

E apesar dessa que vos fala acreditar que estava com roupa condizente para a Casa Legislativa, com uma blusa preta de mangas compridas e uma bermuda de poliéster na altura do joelho – o dito diretor de Comunicação, que usou o ouvido do assessor para “investigar” o que a repórter estava fazendo por lá, agora usou a boca de uma funcionária para avisar que esta repórter não poderia entrar no plenário com a bermuda que estava. Vale explicar que o Radar se interessa mesmo pelo que é dito pelos corredores, elevadores e “coxias” da Casa, o que vai além do oficial, a versão popular que não está no plenário – ensinamentos do próprio diretor de Comunicação da ALE na época das redações de jornal. Incrível que quando vira assessor tem gente que esquece de sua origem e de que um cargo é algo passageiro, pelo qual não vale a pena constranger um companheiro ou companheira de profissão. Ensinamento adquirido por quem foi duas vezes diretora de Comunicação da CMM.